Historicamente, os Schützenvereine podem ser descritos como uma das formas associativas mais características do Deutschtum, sobretudo ao lado dos Turnvereine e Gesangvereine. No contexto teuto-brasileiro, essa função está bem documentada. Giralda Seyferth situa essas associações entre as instituições por meio das quais a germanidade era socialmente preservada e reproduzida. Ao analisar Blumenau, ela caracteriza os primeiros Schützenvereine como associações de caráter utilitário e com raízes nacionalistas, vinculando seus espaços de sociabilidade à expressão da cultura germânica. Não se tratava, portanto, apenas de clubes destinados à prática do tiro. Eles faziam parte de uma estrutura associativa na qual língua, costumes, festas, música, convivência comunitária e consciência de pertencimento alemão podiam ser continuamente reforçados e transmitidos.[1]

No caso de Blumenau, essa relação é particularmente evidente. O primeiro Schützenverein foi formalizado em 1859, quando a colônia ainda se encontrava em seus primeiros anos de existência. Posteriormente, associações desse tipo se multiplicaram pelo núcleo urbano, pelos povoados, pelo interior do município e pelas linhas coloniais. Seus salões serviam a festas, apresentações musicais, teatro, encontros sociais e outras atividades comunitárias, e muitas dessas associações mantiveram durante longo período o uso da língua alemã também em seus estatutos e na vida interna. A importância dos Schützenvereine estava, assim, não apenas na preservação de determinadas práticas trazidas da Europa, mas em sua capacidade de oferecer um espaço social permanente no qual o Deutschtum podia ser vivido coletivamente. Seyferth relaciona expressamente essa vida associativa à conservação da germanidade em Blumenau; estudos posteriores sobre o Schützenverein Blumenau confirmam seu papel central na sociabilidade e na manutenção da identidade cultural alemã.[2]
Essa função associativa também precisa ser situada no contexto mais amplo da história alemã. No século XIX, Schützen, Turner e Sänger estiveram entre os grandes movimentos associativos através dos quais a ideia de uma nação alemã ganhou expressão social antes mesmo da unificação política de 1871. As grandes festas de tiro, de ginástica e de canto não eram apenas eventos recreativos. Elas reuniam participantes provenientes dos diferentes Estados e regiões de língua alemã e contribuíam para criar uma consciência de comunidade nacional que antecedeu a existência de um Estado alemão unificado. A própria história institucional do Deutscher Schützenbund reconhece a participação dos Schützenvereine no movimento nacional alemão do século XIX e sua contribuição para a aproximação entre populações dos diferentes territórios alemães.[3]
A relação entre os Schützenvereine e a ideia nacional alemã é, portanto, historicamente real e não deve ser minimizada. Isso não significa, porém, que o significado político dessas associações tenha permanecido inalterado até o presente. Isso não elimina o fato de que indivíduos ou grupos de orientação nacionalista possam existir dentro de associações de tiro, assim como podem existir em outras organizações sociais. Há também registros contemporâneos de tentativas de aproximação ou infiltração por grupos extremistas. Esses casos, porém, não autorizam transformar uma tradição associativa historicamente ligada à formação da consciência nacional alemã numa organização nacionalista em sentido político atual.[4]
A distinção é importante também para compreender a trajetória dessas associações no Brasil. Os Schützenvereine que surgiram nas colônias alemãs transplantavam para o novo contexto uma forma associativa que, ainda antes da fundação do Império Alemão em 1871, já possuía nos Estados e territórios de língua alemã estreita relação com sociabilidade, identidade coletiva e formação da consciência nacional. No Sul do Brasil, porém, essa função adquiriu uma dimensão adicional. Desde meados do século XIX, publicistas, nacionalistas e defensores de projetos de colonização alemães concebiam a concentração dos emigrantes em determinadas regiões não apenas como meio de facilitar sua sobrevivência econômica, mas também como instrumento para impedir sua assimilação cultural pela sociedade receptora e preservar, através das gerações, língua, costumes e pertencimento alemães. A obra de Franz Epp, Rio Grande do Sul oder Neudeutschland, publicada em 1864, constitui uma expressão particularmente clara desse imaginário: sete anos antes da criação do Estado nacional alemão, Epp apresentava o Rio Grande do Sul como espaço no qual poderia desenvolver-se uma “nova pátria”, uma “segunda Alemanha”.[5]
Não se pode concluir daí que todos os imigrantes alemães tenham chegado ao Brasil com um projeto comum de construção de uma Neudeutschland. A documentação demonstra, contudo, a existência de uma corrente duradoura que não pretendia que os alemães e seus descendentes simplesmente se transformassem culturalmente em brasileiros.
Mesmo quando aceitavam a cidadania brasileira e o Brasil como pátria política, amplos setores do meio teuto-brasileiro procuravam conservar uma pertença cultural alemã própria. Essa separação entre nacionalidade jurídica e identificação cultural ainda encontra uma expressão particularmente elucidativa no século XXI. Em reportagem de Manuel Meyer, da dpa, publicada em 10 de junho de 2014, Kathleen Suzan Zwicker, nascida e criada em Blumenau e que até então nunca havia estado na Alemanha, declarou: “Ich mag vielleicht einen brasilianischen Pass haben. Aber mein Herz schlägt deutsch” — “Posso talvez ter um passaporte brasileiro. Mas meu coração bate alemão.” O jornalista acrescenta que a então jovem de 24 anos respondeu em “alemão quase sem sotaque.” [6] A formulação é particularmente significativa porque distingue explicitamente o vínculo jurídico com o Brasil, representado pelo passaporte, de uma identificação afetivo-cultural que ela própria define como alemã.
Escolas, igrejas, imprensa e associações, entre elas os Schützenvereine, Gesangvereine, Turnvereine constituíram durante décadas uma infraestrutura que tornou possível a reprodução do Deutschtum nas principais regiões de presença alemã no Brasil, sobretudo no Sul, mas também em outros núcleos de colonização e centros urbanos do país. [7]
Foi justamente a persistência do Deutschtum durante sucessivas gerações – e, na década de 1930, a tentativa do nacional-socialismo de mobilizar e radicalizar politicamente parcelas desse universo germano-brasileiro – que conferiu à questão uma dimensão crescente de segurança nacional ameaçando a soberania do Brasil – já muito ultrapassava o âmbito cultural e adquiria uma dimensão de segurança nacional e de soberania – o que forçou o Estado brasileiro a tomar as medidas de proteção da soberania brasileira.[8]
O problema já não se restringia à existência de comunidades que preservavam costumes próprios. Tratava-se de regiões nas quais, depois de décadas de colonização, a língua alemã continuava a ser utilizada no ambiente familiar, nas escolas, na imprensa, nas igrejas e nas associações, sustentando uma identidade coletiva que resistia à assimilação cultural. Seyferth mostra que a propaganda nazista radicalizou a pertença nacional segundo critérios raciais e procurou substituir a identidade teuto-brasileira pela de Auslanddeutsche, integrantes de uma Volksgemeinschaft fundamentada na raça e no sangue comuns.[9]
Seyferth identifica precisamente o uso cotidiano do idioma de origem como um dos mais eficientes elementos de identificação étnica e mostra que, na década de 1930, a propaganda nacional-socialista acrescentou a esse quadro uma tentativa de radicalizar a pertença alemã segundo critérios raciais e de substituir a identidade teuto-brasileira pela concepção de Volksdeutsche integrados a uma Volksgemeinschaft que ultrapassava as fronteiras do Estado alemão, forçando a desagregação da unidade nacional. A Campanha de Nacionalização do Estado Novo interveio sistematicamente nessa relativa autonomia linguística, educacional e associativa: submeteu as escolas comunitárias às normas nacionais, proibiu o ensino em língua estrangeira, afastou professores que não preenchiam os requisitos de nacionalização, fechou estabelecimentos que não se adaptaram, restringiu a imprensa em outros idiomas, atingiu associações recreativas, esportivas e culturais e, posteriormente, proibiu o uso público de línguas estrangeiras, inclusive em atividades religiosas.[10]
Nesse contexto, a manutenção de extensos espaços sociais em língua alemã passou a ser percebida pelo Estado brasileiro não simplesmente como manifestação cultural, mas como obstáculo à nacionalização e, em determinados círculos governamentais e militares, como possível fator de desagregação da unidade nacional. Foi contra essa relativa autonomia linguística, educacional e associativa que a Campanha de Nacionalização do Estado Novo interveio de maneira sistemática, sobretudo a partir de 1938: submeteu as escolas comunitárias às normas nacionais, proibiu o ensino em língua estrangeira, afastou professores que não preenchiam os requisitos de nacionalização, fechou estabelecimentos que não se adaptaram, restringiu a imprensa em outros idiomas, atingiu associações recreativas, esportivas e culturais e, posteriormente, proibiu o uso público de línguas estrangeiras, inclusive em atividades religiosas.[11]
O idioma alemão ocupava posição central nessa política precisamente porque, durante muitas décadas, havia funcionado como um dos principais meios de transmissão intergeracional do Deutschtum. A questão para o Estado brasileiro não era simplesmente a preservação de costumes, tradições ou referências culturais alemãs, mas a existência de uma ampla infraestrutura formada por escolas, igrejas, imprensa, associações, empresas, indústrias, casas comerciais e outras organizações econômicas e comunitárias, que havia possibilitado a reprodução de comunidades fortemente vinculadas culturalmente à Alemanha e resistentes à assimilação. Na década de 1930, quando o Deutschtum havia se transformado em Nazitum o risco do sul do Brasil se nayeificar tornou-se um perigo não mais tolerável para soberania nacional.[12]
A nacionalização pretendia sobretudo romper uma infraestrutura cultural, linguística e institucional que havia permitido, em determinadas regiões de colonização alemã, a formação de espaços territorialmente concentrados nos quais língua, escolas, associações, igrejas, imprensa e redes econômicas sustentavam uma forte identidade alemã e uma considerável autonomia social em relação ao restante da sociedade brasileira. Essa concentração territorial, associada à preservação consciente do Deutschtum e, posteriormente, à atuação de organizações vinculadas à Alemanha nacional-socialista, passou a ser percebida pelo Estado brasileiro como um problema de unidade nacional e de soberania sobre partes de seu próprio território.[13]
Notas
[1] SEYFERTH, Giralda. “A idéia de cultura teuto-brasileira: literatura, identidade e os significados da etnicidade”. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 10, n. 22, p. 149–197, jul./dez. 2004, especialmente p. 156–157. Ao analisar Blumenau, Seyferth relaciona a vida associativa ao Volkstum e à Kultur e caracteriza os Schützenvereine como associações de caráter utilitário e com “raízes nacionalistas”, cujos espaços de sociabilidade constituíam expressão da cultura germânica. Cf. FURTADO, Heitor Luiz; QUITZAU, Evelise Amgarten; MORAES E SILVA, Marcelo. “Da defesa e segurança à destreza e a eficiência: Schützenverein Blumenau e a emergência uma cultura física em Blumenau (1859–1910)”. Revista da ALESDE, v. 14, n. 2, 2022, p. 67–86, especialmente p. 68–70. Os autores ressaltam a importância dessas associações para a sociabilidade e a preservação da identidade cultural alemã.
[2] SEYFERTH, Giralda, op. cit., p. 156–157. A autora registra que o primeiro Schützenverein de Blumenau foi formalizado em 1859, quando a colônia possuía apenas 749 habitantes, e mostra a posterior disseminação dos Vereine pela cidade, povoados, linhas coloniais e interior do município, inclusive com uso persistente da língua alemã. Cf. FURTADO; QUITZAU; MORAES E SILVA, op. cit., p. 69–70. Os autores situam a fundação do Schützenverein Blumenau em 2 de dezembro de 1859 e documentam sua função social, recreativa e cultural.
[3] ZIEMANN, Benjamin. “Das Kaiserreich als Nationalstaat”. In: Informationen zur politischen Bildung, n. 329: Das Deutsche Kaiserreich 1871–1918. Bonn: Bundeszentrale für politische Bildung, 2016, especialmente p. 6–7. Sobre a participação dos movimentos associativos de Sänger, Turner und Schützen na formação cultural da consciência nacional alemã, ver também DEUTSCHER SCHÜTZENBUND. “Nationalbewegung”. O próprio DSB registra que, em 1848 e nos anos seguintes, numerosos Schützenvereine participaram da expectativa coletiva em torno da “deutsche Nation” e do desejo de “Verbrüderung aller deutschen Stämme über bestehende Grenzen hinweg”.
[4] DEUTSCHER SCHÜTZENBUND. Schützen gegen Extremismus, für Vielfalt und Demokratie. Wiesbaden: DSB, 2020, especialmente p. 6–7. O DSB rejeita institucionalmente extremismo, racismo, sexismo e nacionalismo e mantém desde 2020 um programa específico de prevenção ao extremismo, posição reafirmada pela Wiesbadener Erklärung de 2024. Sobre tentativas contemporâneas de infiltração de associações, inclusive Schützenvereine, por integrantes do meio dos Reichsbürger, cf. WINKLER, Benjamin. “Vereint oder vereinnahmt? Wie Reichsbürger:innen Vereine vor Herausforderungen stellen”. Bundeszentrale für politische Bildung, 23 maio 2025. O autor demonstra que Schützenvereine, assim como outras formas associativas, podem ser alvos de estratégias de infiltração, sem que isso permita caracterizar seus membros em geral como nacionalistas ou extremistas.
[5] EPP, F. [Franz]. Rio Grande do Sul oder Neudeutschland. Mannheim: Franz Bender, 1864, p. III–IV. Já no prefácio, Epp aplica ao Rio Grande do Sul a concepção de Neudeutschland e apresenta a região como possibilidade de uma nova pátria e de uma “segunda Alemanha” para emigrantes alemães. A obra, publicada sete anos antes da fundação do Império Alemão, constitui uma fonte primária particularmente relevante para a existência, em meados do século XIX, de projetos que associavam emigração, concentração territorial e preservação da germanidade no Sul do Brasil. Cf. SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt: „Deutschtum“ und Kolonialdiskurse im südlichen Brasilien (1824–1941). Köln/Weimar/Wien: Böhlau, 2016. Schulze demonstra que associações, igrejas e publicistas procuraram conservar o Deutschtum dos emigrantes e torná-los úteis aos interesses alemães.
[6] MEYER, Manuel. “WM-Report: Wo Brasiliens Fußballherzen für Deutschland schlagen”. Gourmetwelten, 10 jun. 2014, texto da dpa. Na reportagem, Kathleen Suzan Zwicker declara: “Ich mag vielleicht einen brasilianischen Pass haben. Aber mein Herz schlägt deutsch”. Meyer acrescenta que a então jovem de 24 anos respondeu “in fast akzentfreiem Deutsch” e informa expressamente que Kathleen era brasileira e até aquele momento nunca havia estado na Alemanha.
[7] SEYFERTH, Giralda. “A idéia de cultura teuto-brasileira…”, op. cit., especialmente p. 154–160; SEYFERTH, Giralda. “Socialização e etnicidade: a questão escolar teuto-brasileira (1850–1937)”. Mana, Rio de Janeiro, v. 23, n. 3, 2017, p. 579–607. Seyferth demonstra o papel desempenhado por escolas, igrejas, associações e outras instituições comunitárias na reprodução do pertencimento teuto-brasileiro e registra que essas estruturas não se restringiram ao Rio Grande do Sul e a Santa Catarina: existiram núcleos de colonização no Paraná, Espírito Santo e Petrópolis, além de comunidades alemãs urbanas em outras partes do país. Cf. também SCHULZE, Frederik, op. cit., sobre a atuação de Vereine, igrejas e publicistas na preservação do Deutschtum.
[8] SEYFERTH, Giralda. “A assimilação dos imigrantes como questão nacional”. Mana, Rio de Janeiro, v. 3, n. 1, 1997, p. 95–131, especialmente p. 95–97. Seyferth mostra que núcleos de colonização estrangeira eram descritos no discurso da nacionalização como “quistos” e, em texto contemporâneo por ela citado, como “ameaçadores de nossa soberania”, sendo o Vale do Itajaí tomado como paradigma de “enquistamento”. Cf. DIETRICH, Ana Maria. Nazismo tropical? O Partido Nazista no Brasil. Tese (Doutorado em História Social) — Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007. Dietrich demonstra que o NSDAP atuou formalmente no Brasil entre 1928 e 1938, integrado à Auslandsorganisation der NSDAP, com cerca de 2.900 filiados distribuídos por 17 estados; em números absolutos, tratava-se da maior organização do partido fora da Alemanha. A dimensão transnacional do problema é ainda evidenciada por FROTSCHER, Méri. “De ‘alemães no exterior’ a brasileiros? A repatriação de cidadãos brasileiros da Alemanha ocupada (1946–1949)”. História Unisinos, v. 17, n. 2, maio/ago. 2013, p. 83–84. Com base no Statistisches Jahrbuch für das Deutsche Reich, Frotscher registra pelo menos 8.384 “reichsdeutsche Einwanderer” provenientes do Brasil entre 1937 e o início da Segunda Guerra Mundial: 692 em 1937, 2.536 em 1938 e 5.156 em 1939. A autora ressalta que os dados de 1937 são incompletos e que, além desses cidadãos alemães, dirigiram-se à Alemanha também pessoas consideradas Volksdeutsche, não incluídas nessas estatísticas. Frotscher observa que parte dos retornados era composta por membros do NSDAP e que alguns documentos autobiográficos revelam apropriação do lema nacional-socialista Heim ins Reich. Registra ainda que, entre os brasileiros posteriormente cadastrados na Alemanha, cerca de 83% haviam entrado no país em 1938 e 1939 e que, em sua quase totalidade, eram binacionais; como cidadãos alemães, ficavam sujeitos às leis alemãs, inclusive ao serviço militar obrigatório instituído pelo regime de Hitler em 1935. Há aqui um dado adicional muito importante para o argumento: Frotscher afirma expressamente que os Volksdeutschesem cidadania alemã que também partiram do Brasil para a Alemanha não aparecem nesses 8.384. Portanto, 8.384 é um número mínimo relativo a uma categoria estatística específica, não necessariamente o total de pessoas oriundas do meio germânico brasileiro que se dirigiram à Alemanha naquele período
[9] SEYFERTH, Giralda. “Socialização e etnicidade…”, op. cit., especialmente p. 595 e 600. Seyferth demonstra que a propaganda nacional-socialista radicalizou a concepção de pertencimento alemão segundo critérios raciais e procurou substituir a identidade teuto-brasileira por uma condição de Auslanddeutsche inseridos numa Volksgemeinschaft fundamentada em origem, raça e sangue. A autora também mostra que o ensino em língua alemã passou a ser enquadrado como problema de segurança nacional e que tanto o pangermanismo anterior quanto a influência nazista da década de 1930 reforçaram os argumentos em favor da nacionalização.
[10] SEYFERTH, Giralda. “Socialização e etnicidade…”, op. cit., especialmente p. 592–600. A autora identifica a língua alemã como elemento fundamental da socialização e do pertencimento teuto-brasileiro e mostra que igreja e escola funcionavam como instituições de transmissão linguística e cultural. Na década de 1930, a influência nazista observada em parcelas desse universo reforçou a interpretação da escola e da língua alemãs como componentes do chamado “perigo alemão”. Cf. SEYFERTH, Giralda. “A assimilação dos imigrantes como questão nacional”, op. cit., p. 95–105, para a transformação dessa questão em problema de unidade e segurança nacionais.
[11] SEYFERTH, Giralda. “A assimilação dos imigrantes como questão nacional”, op. cit., especialmente p. 96–97. A autora documenta a intervenção estatal sobre o sistema escolar em língua estrangeira, a modificação obrigatória de currículos, a dispensa de professores considerados não nacionalizados, o fechamento de escolas que não cumpriram as exigências, as restrições à imprensa e às sociedades recreativas, esportivas e culturais e, posteriormente, a proibição do uso público de línguas estrangeiras, inclusive em atividades religiosas. Cf. também SEYFERTH, “Socialização e etnicidade…”, op. cit.: a autora registra que, em Santa Catarina, o Decreto n.º 88, de 31 de março de 1938, levou ao fechamento de cerca de 200 escolas das regiões coloniais alemãs, medida apresentada como decorrência de um “imperativo político” de segurança nacional.
[12] RINKE, Stefan. “Alemanha e Brasil, 1870–1945: uma relação entre espaços”. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 21, n. 1, 2014, p. 299–316. Rinke demonstra que as relações germano-brasileiras possuíam também uma extensa dimensão econômica: casas comerciais alemãs exerceram influência regional; bancos alemães estabeleceram filiais; empresas industriais criaram representações diretas; e companhias como M.A.N., Philipp Holzmann & Co., Bayer, BASF, Siemens e AEG passaram a atuar no Brasil. O autor mostra, portanto, que a presença alemã não se limitava a escolas, igrejas, imprensa e associações, mas compreendia igualmente importantes redes comerciais, bancárias e industriais. Sobre a posterior atuação organizada do nacional-socialismo entre parcelas do meio alemão no Brasil, cf. DIETRICH, Ana Maria, op. cit.
[13] SEYFERTH, Giralda. “A assimilação dos imigrantes como questão nacional”, op. cit., especialmente p. 95–99. A autora mostra que a concentração territorial de populações classificadas como não assimiladas foi interpretada por setores do Estado brasileiro como questão de unidade territorial e soberania. Cf. ainda SEYFERTH, “Socialização e etnicidade…”, op. cit., nota 8: ao explicar o chamado “perigo alemão”, a autora registra que um dos elementos presentes no discurso brasileiro era a presunção de intenção separatista, com receio de eventual secessão de partes do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina com apoio alemão. A existência de uma organização formal do NSDAP no território brasileiro durante a década de 1930 acrescentou uma dimensão política estrangeira concreta a esse problema; cf. DIETRICH, Ana Maria, op. cit.
