A discussão sobre o Deutschtum no Brasil ganha outra dimensão quando se deixam de lado interpretações posteriores e se examinam as palavras publicadas por autores alemães entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Elas não permitem concluir que existisse um único plano oficial do Império Alemão para anexar o Sul do Brasil, nem que a sociedade alemã compartilhasse unanimemente tais projetos. Demonstram, contudo, a existência de uma corrente nacionalista e expansionista que via as comunidades alemãs estabelecidas na América do Sul não apenas como populações emigradas, mas como possível instrumento de projeção econômica, cultural e, em determinados autores, territorial do poder alemão.

Um documento particularmente expressivo dessa percepção é o mapa intitulado O que a Allemanha ambiciona. As suas pretensões expostas pelos próprios leaders do seu modo de pensar, publicado em Londres provavelmente em 1918. A Biblioteca Nacional do Brasil, também conserva um documento desse e o descreve como uma compilação de afirmativas de representantes da elite alemã favorável ao expansionismo germânico. O mapa não deve, portanto, ser utilizado como se fosse um documento oficial do governo alemão.
Seu interesse histórico reside também no fato de reunir declarações identificadas nominalmente com intelectuais, publicistas, militares e outros representantes do pensamento nacionalista e expansionista alemão. A verificação independente dessas atribuições mostra que vários desses autores e obras são perfeitamente identificáveis e que diversas das passagens reproduzidas no mapa podem ser confirmadas em suas publicações originais ou em transcrições contemporâneas que indicam precisamente obra e página. Por isso, o mapa não precisa ser utilizado como prova isolada: suas afirmações podem e devem ser confrontadas com as fontes alemãs às quais remetem.[1]
Entre as declarações reproduzidas no mapa encontra-se uma particularmente contundente de Friedrich Lange, publicista nacionalista e autor de Reines Deutschtum. Referindo-se diretamente ao Brasil e à Argentina, Lange é citado com as seguintes palavras:
“Estados decrepitos como as republicas da Argentina e do Brazil e mais ou menos todos esses miseraveis Estados da America do Sul, terão que ser levados, ainda que seja á força, a escutar o bom senso.”[2]
A linguagem é inequívoca. Brasil e Argentina não aparecem como Estados soberanos que deveriam relacionar-se com a Alemanha em condições de igualdade, mas como repúblicas consideradas “decrépitas” e integrantes de um conjunto de Estados sul-americanos depreciativamente classificados como “miseráveis”, os quais poderiam ser obrigados “à força” a submeter-se àquilo que Lange chamava de “bom senso”. A passagem não é importante apenas pela agressividade verbal. Ela revela uma concepção hierárquica das relações entre Estados e povos: de um lado, a Alemanha imaginada como portadora de uma ordem superior; de outro, Estados sul-americanos considerados suficientemente inferiores para que a coerção pudesse ser concebida como instrumento legítimo de relacionamento.
No mesmo mapa aparece Johannes Unold, professor e publicista de Munique ligado à defesa do Deutschtum no exterior. A declaração atribuída a ele desloca a questão do simples prestígio cultural para uma evidente imaginação territorial:
“É triste pensar que nem o Paraguay nem a Argentina pertencem ainda hoje, mesmo em parte, à Allemanha.”[3]
Embora a frase não mencione diretamente o Brasil, ela é relevante para compreender o ambiente intelectual no qual o Sul da América do Sul podia ser pensado como espaço potencial de expansão alemã. Unold havia publicado em 1900 Das Deutschtum in Chile, obra dedicada ao desenvolvimento e à preservação do elemento alemão naquele país. A declaração reproduzida no mapa evidencia até que ponto, em alguns representantes dessa corrente, a presença cultural e demográfica alemã podia ser acompanhada de uma imaginação territorial que ultrapassava as fronteiras do Reich.
As páginas mostradas no vídeo pertencem a outra fonte fundamental: o estudo de Loretta Baum, German Political Designs with Reference to Brazil, publicado em novembro de 1919 em The Hispanic American Historical Review. Baum escreveu imediatamente após a Primeira Guerra Mundial, circunstância que igualmente exige leitura crítica de seu enquadramento. Seu texto, entretanto, possui grande valor documental porque reúne numerosas publicações alemãs anteriores à guerra e reproduz declarações de seus autores. É justamente nessas páginas que aparecem algumas das formulações mais explícitas sobre o futuro imaginado para o Sul do Brasil.[4]
Na página 587, Baum reproduz uma declaração atribuída ao viajante e publicista alemão Dr. Hermann Leyser. O trecho havia circulado anteriormente por intermédio do jornalista norte-americano Stephen Bonsal. Referindo-se às comunidades alemãs existentes no Sul do Brasil, Leyser manifestava entusiasmo precisamente porque ali encontrava condições que, em sua avaliação, permitiriam impedir a assimilação dos emigrantes. Entre suas afirmações encontram-se duas formulações particularmente reveladoras:
“a nós pertence o futuro desta parte do mundo”
e, referindo-se ao Sul do Brasil, a ideia de que ali o emigrante alemão poderia “conservar sua nacionalidade”, enquanto para aquilo que ele designava pela palavra Germanismus se abriria um “futuro glorioso”.[5]
O Brasil, nessa formulação, não era simplesmente um país que havia recebido imigrantes alemães. O interesse de Leyser estava justamente na possibilidade de que os alemães emigrados e seus descendentes não se dissolvessem culturalmente na população brasileira. O sucesso da colonização era medido também pela possibilidade de reprodução da nacionalidade, da língua e do Germanismus através das gerações.
Ainda mais explícita é a declaração de Gustav Schmoller, uma das figuras mais importantes da economia política alemã de sua época e professor da Universidade de Berlim. Em texto publicado em Handels- und Machtpolitik, Schmoller formulou um desejo para o século XX que envolvia diretamente o território brasileiro:
“Devemos desejar a qualquer preço que no Sul do Brasil surja, no próximo século, um país alemão de 20 a 30 milhões de alemães.”[6]
Schmoller não deixou indeterminado o possível estatuto político desse território. Segundo sua própria formulação, era indiferente se esse “país alemão” permanecesse parte do Brasil, se se tornasse “um Estado independente” ou se entrasse em relações mais estreitas com o Império Alemão. Mais significativo ainda é o instrumento que considerava necessário para assegurar esse desenvolvimento: a ligação com o Brasil deveria permanecer garantida por navios de guerra, e a Alemanha deveria conservar a possibilidade de exercer pressão no país.[6]
Essa passagem é especialmente importante porque pode ser verificada independentemente da obra de Baum. No texto alemão de Schmoller encontra-se efetivamente a formulação:
“Wir müssen um jeden Preis wünschen, daß in Südbrasilien ein deutsches Land von 20–30 Millionen Deutschen im folgenden Jahrhundert entstehe”. (Devemos desejar, a qualquer preço, que no Sul do Brasil surja, no século seguinte, um país alemão com 20 a 30 milhões de alemães.)
Ele acrescenta que pouco importaria se essa formação permanecesse parte do Brasil, se se transformasse num Estado independente ou se estabelecesse relações mais próximas com o Reich; sem uma ligação protegida por navios de guerra e sem a possibilidade de uma atuação enérgica da Alemanha, dizia Schmoller, esse desenvolvimento estaria ameaçado.[6]
A questão ultrapassava, portanto, a simples conservação de canções, escolas ou costumes alemães. No pensamento de Schmoller, a concentração demográfica e cultural alemã no Sul do Brasil podia produzir, no futuro, uma unidade territorial de dezenas de milhões de alemães cujo vínculo político com o Estado brasileiro não era considerado necessariamente permanente. A alternativa de transformação do sul do Brasil em Estado independente aparecia expressamente entre as possibilidades concebidas.
Na página seguinte de seu estudo, Baum reproduz posição ainda mais explícita publicada anonimamente no periódico alemão Die Grenzboten. O autor defendia concentrar a atuação alemã precisamente nos três estados brasileiros em que a colonização germânica se tornara mais significativa: Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A passagem começa com uma formulação de extraordinária importância: “Assim que a Alemanha tiver atraído o Sul do Brasil para sua esfera de interesse”, poderia garantir os interesses dos emigrantes. O texto defendia então a organização de um exército colonial entre os próprios colonos, evitando que precisassem retornar à Alemanha para cumprir o serviço militar, e concluía que, em poucos anos, poderia surgir ali “um jovem império colonial alemão”.[7]
Nesse caso, praticamente todos os elementos aparecem reunidos: concentração territorial, preservação dos colonos alemães, esfera de interesse alemã, organização militar própria e expectativa de formação de um império colonial. Não se trata mais apenas de afinidade cultural. O Deutschtum aparece transformado em recurso potencial de poder.
Talvez nenhuma das passagens mostradas no vídeo seja tão explícita quanto a de Otto Richard Tannenberg. Em Gross-Deutschland: die Arbeit des 20. Jahrhunderts, publicado em Leipzig em 1911, Tannenberg projetava uma reorganização geopolítica não apenas da Europa, mas também da América do Sul. Baum reproduz na página 591 sua afirmação de que a Alemanha colocaria sob sua proteção Argentina, Uruguai, Paraguai, parte da Bolívia e o Sul do Brasil, região na qual, segundo ele, “a cultura alemã é dominante”.[8]
Tannenberg prosseguia descrevendo uma “América do Sul alemã”. Chile e Argentina poderiam conservar sua língua e autonomia, embora o alemão devesse ser ensinado nas escolas como segunda língua. Para o Sul do Brasil, o Paraguai e o Uruguai, entretanto, a formulação era mais radical:
“O Sul do Brasil, o Uruguai e o Paraguai são países da cultura alemã. O alemão será ali a língua nacional.”[8]
É difícil imaginar demonstração textual mais clara de que, para determinados autores do nacionalismo expansionista alemão, o Deutschtum existente fora das fronteiras do Reich podia ser pensado como fundamento de uma reorganização política futura. O argumento não era que alemães residentes no Brasil deveriam simplesmente conservar privadamente algumas tradições. O território no qual haviam se concentrado era imaginado como parte de um espaço geopolítico alemão, e a língua que os imigrantes e seus descendentes haviam preservado deveria, segundo Tannenberg, tornar-se a própria língua nacional.
Essas declarações precisam ser analisadas em conjunto, mas sem transformá-las artificialmente numa política única e coerente do governo imperial alemão. A historiografia posterior demonstrou justamente a existência de divergências entre o governo do Reich, grupos pangermanistas, organizações coloniais, intelectuais, empresários e publicistas. O governo alemão chegou, em diferentes momentos, a negar intenções de anexação na América do Sul. Isso não torna irrelevantes as declarações de Lange, Leyser, Schmoller, dos autores de Die Grenzboten ou de Tannenberg. Pelo contrário: elas documentam a existência de um campo de pensamento político no qual o Brasil – sobretudo Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná – era reiteradamente associado à expansão futura do Deutschtum.[9]
É precisamente essa recorrência que possui significado histórico. Em autores diferentes encontram-se, com intensidades distintas, os mesmos elementos: impedir a assimilação dos emigrantes; conservar sua nacionalidade e sua língua; concentrá-los territorialmente; fazer do Sul do Brasil uma área de cultura alemã; vinculá-lo a uma esfera de interesse alemã; imaginar sua possível autonomia ou separação do Brasil; assegurar essa evolução com poder naval; organizar militarmente os colonos; e, no projeto mais radical, transformar o alemão em língua nacional de parte da América do Sul.
O governo alemão negou
O governo imperial alemão negou oficialmente, em diferentes ocasiões, pretender anexar territórios na América do Sul. Em 1901, o Kaiser Wilhelm II transmitiu ao governo dos Estados Unidos a garantia de que a Alemanha não pretendia realizar sequer a menor aquisição territorial no continente sul-americano; posteriormente, o chanceler Bernhard von Bülow declarou que a Alemanha não pretendia criar no Brasil um ‘Estado dentro do Estado’ e que não possuía ‘aspirações políticas’ no Novo Mundo. Essas declarações oficiais coexistiam, contudo, com projetos muito mais ambiciosos formulados por círculos pangermanistas, intelectuais e publicistas alemães.”[10]
As negativas oficiais do governo imperial alemão devem, portanto, ser confrontadas com aquilo que ocorria simultaneamente abaixo da superfície diplomática. Publicamente, Berlim negava pretender anexar territórios sul-americanos ou constituir no Brasil um “Estado dentro do Estado”. Isso não significava, contudo, ausência de interesse estratégico pelo Sul brasileiro. A historiografia demonstra que, no contexto da Weltpolitik, círculos pangermanistas influenciaram a diplomacia alemã e que o próprio chanceler chegou a examinar a viabilidade de um controle indireto mais forte sobre o Sul do Brasil. Ao mesmo tempo, o Reich utilizava instrumentos de influência que iam muito além da retórica: apoio financeiro a escolas alemãs, visitas de navios de guerra, financiamento público de missões culturais e científicas, atuação do Ministério das Relações Exteriores sobre a imprensa e mobilização das comunidades germânicas estabelecidas no país.[11]
Essa coexistência entre negação oficial e construção efetiva de influência torna particularmente adequada a imagem do iceberg. A parte mais visível era formada pelos publicistas, intelectuais, associações nacionalistas e pangermanistas que diziam abertamente aquilo que a diplomacia oficial não podia necessariamente assumir: preservar o Deutschtum, impedir a assimilação, consolidar grandes concentrações populacionais alemãs no Sul do Brasil e, nos projetos mais radicais, imaginar para essa região autonomia, independência ou integração numa esfera de poder alemã. Sob essa parte visível, porém, existiam estruturas mais amplas de política cultural, diplomacia, comércio, educação, imprensa e relações institucionais através das quais o próprio Estado alemão procurava preservar e ampliar sua influência.
Isso não autoriza, sem documentação adicional, afirmar que todas as declarações oficiais alemãs eram deliberadamente falsas ou que existiu em Berlim um plano secreto único e aprovado para anexar o Sul do Brasil. Mas também seria historicamente inadequado tratar as propostas de Schmoller, Tannenberg, Lange, da Liga Pangermânica e de outros representantes das elites alemãs como fantasias completamente desconectadas do Estado. A fronteira entre iniciativa privada, nacionalismo organizado e política imperial era mais permeável. Os pangermanistas não controlavam a política externa, mas influenciavam-na; e o próprio Estado utilizava comunidades, escolas, imprensa e instrumentos diplomáticos para ampliar a presença alemã no Brasil. A ponta do iceberg era visível. O restante precisa ser reconstruído através das conexões entre essas diferentes instituições e atores.
Não se trata, portanto, de reconstruir retrospectivamente uma conspiração uniforme que nunca existiu dessa maneira. Trata-se de reconhecer aquilo que os próprios textos permitem demonstrar: para uma corrente documentável do pensamento nacionalista e expansionista alemão, os alemães e seus descendentes estabelecidos no Brasil constituíam muito mais do que uma diáspora cultural. Eles podiam ser imaginados como base humana de uma futura projeção alemã no continente sul-americano.
É nesse contexto que a preservação sistemática do Deutschtum no Brasil adquire uma dimensão histórica que ultrapassa folclore, língua e memória familiar. A mesma infraestrutura que possibilitava conservar uma identidade cultural alemã através das gerações – escolas, imprensa, igrejas, associações, redes econômicas e concentração territorial – podia ser interpretada por determinados autores alemães como capital demográfico e cultural para projetos que chegavam muito além da preservação de tradições.
E talvez nenhuma frase sintetize melhor essa transformação da presença cultural em imaginação geopolítica do que a de Schmoller: um “país alemão” de 20 a 30 milhões de alemães no Sul do Brasil, fosse ele parte do Brasil, um Estado independente ou uma formação estreitamente relacionada ao Império Alemão.
Notas
[1] FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL – BNDigital. O que a Allemanha ambiciona: as suas pretensões expostas pelos próprios leaders do seu modo de pensar. London: Johnson, Riddle & Cia. Ltda., [1918?], mapa, 64 × 104 cm. A Biblioteca Nacional caracteriza expressamente o documento como “peça de informação e propaganda contra a Alemanha e seus aliados” e informa que ele reúne afirmativas de representantes da elite alemã favoráveis ao expansionismo germânico. O exemplar aparece no vídeo fornecido para esta análise.
[2] LANGE, Friedrich. Reines Deutschtum: Grundzüge einer nationalen Weltanschauung. Berlin: Alexander Duncker, 1904, especialmente p. 208, conforme a referência contemporânea utilizada na reprodução da declaração. O mapa conserva a passagem em tradução portuguesa antiga: “Estados decrepitos como as republicas da Argentina e do Brazil […] terão que ser levados, ainda que seja á força, a escutar o bom senso”. Uma reprodução contemporânea independente em inglês atribui expressamente a frase a Friedrich Lange e a Reines Deutschtum, p. 208. A edição de 1904 apresentava a própria obra como exposição de uma visão de mundo construída a partir de um “nacionalismo decidido”.
[3] UNOLD, Johannes. Das Deutschtum in Chile: ein Zeugnis erfolgreicher deutscher Kulturarbeit. München: J. F. Lehmann, 1900. A frase sobre Paraguai e Argentina aparece entre as declarações atribuídas a Unold no mapa O que a Allemanha ambiciona. A passagem deve ser compreendida no contexto de sua defesa da preservação e expansão do Deutschtum no exterior, não como declaração oficial do governo alemão.
[4] BAUM, Loretta. “German Political Designs with Reference to Brazil”. The Hispanic American Historical Review, v. 2, n. 4, nov. 1919, p. 586–610. O estudo reproduzido nas páginas visíveis no vídeo é esta publicação. Registros bibliográficos contemporâneos confirmam autoria, periódico, volume e data.
[5] BAUM, Loretta, op. cit., p. 587. Baum reproduz a declaração atribuída ao Dr. Hermann Leyser, citando como fonte anterior Stephen Bonsal. Entre as formulações reproduzidas estão a expectativa de que “a nós pertence o futuro desta parte do mundo” e a caracterização do Sul do Brasil como lugar onde o emigrante alemão poderia conservar sua nacionalidade e onde ao Germanismus estaria reservado um futuro promissor. A mesma declaração foi reproduzida contemporaneamente em publicações norte-americanas.
[6] SCHMOLLER, Gustav. “Die wirtschaftliche Zukunft Deutschlands und die Flottenvorlage”. In: SCHMOLLER, Gustav; SERING, Max; WAGNER, Adolph (org.). Handels- und Machtpolitik. Stuttgart: J. G. Cotta, 1900, v. 1, p. 35–36; cf. BAUM, Loretta, op. cit., p. 587–588. Schmoller afirma no original: “Wir müssen um jeden Preis wünschen, daß in Südbrasilien ein deutsches Land von 20–30 Millionen Deutschen im folgenden Jahrhundert entstehe”, acrescentando ser indiferente se permanecesse parte do Brasil, se se tornasse Estado independente ou se entrasse em relações mais próximas com o Reich. Defendia ainda uma ligação assegurada por navios de guerra e a possibilidade de uma atuação alemã enérgica no Brasil. O texto original de Schmoller está disponível em edição digital.
[7] BAUM, Loretta, op. cit., p. 588. A autora reproduz texto anônimo de Die Grenzboten que defendia concentrar a ação alemã em Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A passagem estabelece como pressuposto que a Alemanha atraísse o Sul do Brasil para sua “sphere of interest”, propõe um “colonial army” formado entre os colonos e prevê o surgimento de um “young German colonial empire”. Baum remete, para a reprodução utilizada, a The Pan-Germanic Doctrine, p. 242.
[8] TANNENBERG, Otto Richard. Gross-Deutschland: die Arbeit des 20. Jahrhunderts. Leipzig-Gohlis: Bruno Volger, 1911; BAUM, Loretta, op. cit., p. 591. Baum reproduz o projeto de Tannenberg segundo o qual Argentina, Uruguai, Paraguai, parte da Bolívia e o Sul do Brasil seriam colocados sob proteção alemã. Reproduz também sua afirmação de que “South Brazil, Uruguay, and Paraguay are countries of German culture” e que “German will there be the national tongue”. A passagem é igualmente reproduzida em outras compilações contemporâneas sobre os objetivos expansionistas alemães.
[9] Essa distinção é necessária para evitar confundir o pangermanismo e os projetos de determinados intelectuais e organizações com uma política governamental uniforme. Estudos posteriores mostram, por exemplo, que o governo imperial alemão negou oficialmente intenções de anexação sul-americana em determinados momentos, ao mesmo tempo que círculos pangermanistas tratavam os três estados meridionais do Brasil como pertencentes à esfera de influência alemã. Essa divergência não elimina a existência dos projetos documentados, mas obriga a distingui-los de decisões oficiais do Reich. Cf. o estudo posterior A Prelude to Conflict: The German Ethnic Group in Brazilian Society, que discute precisamente essa diferença entre pangermanistas, imprensa teuto-brasileira e governo imperial.
[10] UNITED STATES DEPARTMENT OF STATE. Papers Relating to the Foreign Relations of the United States, 1901. Washington, 1901, documento “Mr. Hay to Mr. von Holleben”, 16 dez. 1901. O documento registra a garantia transmitida pelo embaixador alemão em nome do Kaiser Wilhelm II de que o governo alemão “had no purpose or intention to make even the smallest acquisition of territory on the South American Continent or the islands adjacent”. Cf. ainda declaração do chanceler Bernhard von Bülow, reproduzida na imprensa alemã em setembro de 1903: “Wir wollen auch in Brasilien keinen Staat im Staate bilden” e “politische Aspirationen haben wir in der Neuen Welt überhaupt nicht”; Bülow distinguiu explicitamente essas negativas de objetivos políticos do interesse alemão em ampliar sua participação econômica na América do Sul.
RINKE, Stefan. “Alemanha e Brasil, 1870–1945: uma relação entre espaços”. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 21, n. 1, 2014, p. 299–316. Rinke situa a intensificação dessas relações no contexto da Weltpolitik alemã e observa que, embora pangermanistas e outros nacionalistas radicais não tenham controlado a política externa do Reich, exerceram influência sobre a diplomacia. Segundo o autor, na virada do século, o chanceler alemão chegou a investigar a possibilidade de exercer “algum tipo de controle indireto mais forte do Sul do Brasil”. Rinke documenta ainda a utilização de visitas de navios de guerra como instrumento diplomático, o apoio financeiro às escolas alemãs, o financiamento público de iniciativas culturais e científicas e a atuação do Ministério das Relações Exteriores alemão no campo da imprensa. Para o período posterior à Primeira Guerra Mundial, registra que escolas alemãs no Brasil receberam de Berlim recursos financeiros, professores, material e know-how, que uma associação de professores teuto-brasileiros foi criada em 1926 com ajuda do Reich e que os germano-brasileiros constituíam uma “ferramenta fundamental da política estrangeira alemã”.
