Poder regional no fomento à ciência no Brasil – e a hipótese sobre a influência das redes teuto-brasileiras
No início dos anos 1980, numa época em que sair do Brasil para o exterior ainda envolvia fortes restrições cambiais e burocráticas e em que uma viagem internacional estava longe de ser algo corriqueiro para a maioria da população, eu havia acabado de chegar à Alemanha quando comecei a encontrar, por acaso, um número relativamente grande de conterrâneos brasileiros. Não eram os viajantes independentes e aventureiros que hoje se encontram com facilidade pelo mundo. Eram, em sua maioria, estudantes e pesquisadores.

Quase todos os que conheci apresentavam duas características em comum: estudavam ou pesquisavam havia anos na Alemanha com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) ou do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD) – e tinham sobrenomes alemães.
Entre eles, recordo-me de apenas um brasileiro com sobrenome exclusivamente português, como o meu. O caso dele me chamou a atenção também por outro motivo. Segundo ele próprio me contou na época, recebia do CNPq uma bolsa superior a 3.500 marcos alemães por mês, um valor excepcionalmente alto. Eu dispunha de cerca de 1.000 marcos mensais e vivia bem como estudante. O pai dele ocupava um cargo de alta direção em uma universidade federal brasileira, e, ainda de acordo com o próprio bolsista, a concessão da bolsa teria contado com interferência política em um nível muito elevado do Estado brasileiro.
Naquele momento, não transformei essas observações em uma pergunta de pesquisa. Elas pareciam, antes, integrar uma realidade com a qual eu havia crescido no Brasil: a percepção de que proximidade com pessoas politicamente influentes, posição social e acesso a determinadas redes podiam abrir portas que permaneciam fechadas para grande parte da população.
Os brasileiros que encontrei na Alemanha haviam conseguido acesso a uma oportunidade rara: estudar ou pesquisar no exterior com financiamento público brasileiro ou alemão. E, com uma única exceção entre aqueles de que me recordo, todos tinham sobrenomes de origem alemã.
Na época, registrei essa coincidência sem investigá-la. Décadas depois, ao pesquisar a história do Deutschtum no Brasil, a formação e atuação das elites teuto-brasileiras e as redes econômicas, culturais, acadêmicas e institucionais que durante gerações ligaram determinados setores da sociedade brasileira à Alemanha, aquela lembrança passou a adquirir outro significado.
Na época, não atribuí maior importância a essa coincidência. Décadas depois, ao pesquisar a história da imigração alemã, do Deutschtum e das redes teuto-brasileiras no Brasil, aquela lembrança voltou sob a forma de uma pergunta: quem decidia, no Brasil, quais brasileiros teriam acesso a bolsas e à oportunidade de estudar ou pesquisar na Alemanha – e que papel poderiam ter desempenhado, nesse processo, as redes teuto-brasileiras e germano-brasileiras?
Uma recordação pessoal evidentemente não constitui prova estatística. Ela pode, porém, levantar uma pergunta histórica legítima. E essa pergunta se torna mais relevante quando colocada diante de dois fenômenos documentados: de um lado, a forte concentração regional do sistema brasileiro de ciência e pesquisa; de outro, a existência histórica de redes econômicas, culturais, acadêmicas e institucionais teuto-brasileiras e germano-brasileiras.
Este artigo examina, portanto, duas questões distintas.
A primeira pode ser respondida com razoável segurança: o financiamento científico brasileiro foi durante décadas – e continua sendo em grande medida – regionalmente desigual, com forte concentração no Sudeste e no Sul. Os próprios organismos que avaliam pesquisadores e projetos refletem essa concentração.
A segunda exige maior cautela: teriam brasileiros de origem alemã se beneficiado, direta ou indiretamente, das redes existentes entre Brasil e Alemanha no acesso a bolsas, intercâmbios e oportunidades acadêmicas?
Há indícios históricos suficientes para formular e investigar essa hipótese. Ainda não há, porém, evidência sistemática suficiente para declará-la comprovada.
1. O dinheiro segue o centro
A concentração regional dos recursos destinados à ciência brasileira não é recente.
Em 1995, a revista Pesquisa FAPESP analisou os dados das bolsas concedidas pelo CNPq no ano anterior. Em 1994, o Conselho havia concedido 42.762 bolsas e destinado a elas quase 340 milhões de dólares. Desse total, aproximadamente 215 milhões foram para o Sudeste, dos quais 121 milhões somente para São Paulo. O Sul, segunda região colocada, recebeu cerca de 48 milhões – pouco mais de um quinto do montante destinado ao Sudeste. O Centro-Oeste recebeu 17,7 milhões, enquanto o Norte ficou com cerca de 5 milhões de dólares [1].
O contraste com estados periféricos no sistema científico era enorme. No Maranhão, por exemplo, a Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico – FAPEMA, criada apenas em 1990, concedeu em 1994 somente 65 bolsas, dispondo de um orçamento total de aproximadamente 440 mil reais. Ao mesmo tempo, estimativas do CNPq apontavam que São Paulo concentrava cerca de 15 mil dos aproximadamente 40 a 45 mil pesquisadores existentes no país [1].
A desigualdade não se limitava à distribuição final dos recursos. Ela estava presente também na própria estrutura pela qual jovens pesquisadores entravam no sistema.
Segundo a mesma reportagem, o CNPq trabalhava em grande medida com cotas distribuídas aos departamentos universitários. Os estudantes candidatavam-se dentro das próprias instituições e dependiam, entre outros fatores, da indicação de professores [1].
Isso significa que uma parte importante do acesso às oportunidades não era decidida exclusivamente por uma burocracia central em Brasília. O processo passava pelas universidades e departamentos já estabelecidos – e as instituições mais fortes estavam concentradas justamente nas regiões mais favorecidas.
Indicadores recentes mostram que essa concentração regional continua sendo uma característica importante do sistema de fomento.
Segundo levantamento do Observatório Caleidoscópio, da Unicamp, publicado em 2025, 57,61% das bolsas de produtividade do CNPq encontravam-se em instituições do Sudeste, 20,08% no Sul e 13,71% no Nordeste. Norte e Centro-Oeste, somados, não alcançavam 10%. Os autores relacionam essa distribuição à concentração de universidades, programas de pós-graduação e docentes doutores no Sudeste e no Sul [2].
Em março de 2026, a Academia Brasileira de Ciências chamou atenção para outro exemplo: numa chamada suplementar do CNPq para bolsas de pós-doutorado, apenas 3,5% das bolsas foram destinadas aos sete estados da região Norte. A entidade classificou o quadro como manifestação de uma desigualdade estrutural ainda reproduzida pelos mecanismos de fomento [3].
Os indicadores não são diretamente idênticos – bolsas de produtividade, pós-doutorado e recursos gerais de fomento correspondem a modalidades distintas. Em conjunto, porém, apontam para a persistência de uma mesma característica estrutural: a ciência brasileira continua fortemente concentrada em determinadas regiões e instituições.
2. Quem avalia também faz parte do sistema
No CNPq, parte importante das decisões sobre financiamento científico passa pelos Comitês de Assessoramento, formados por pesquisadores das diversas áreas do conhecimento.
Segundo dados do próprio CNPq, em 2023 apenas 32,31% dos 359 membros desses comitês provinham, somados, do Nordeste, Centro-Oeste e Norte. Em 2025, essa participação chegou a 38,4% [4].
Portanto, ainda recentemente, a maioria dos avaliadores estava vinculada a instituições localizadas no Sudeste e no Sul.
Há ainda um mecanismo institucional relevante: em princípio, os integrantes dos Comitês de Assessoramento devem ser bolsistas de produtividade do próprio CNPq [5].
Como as bolsas de produtividade estão fortemente concentradas nas regiões que já dispõem das instituições científicas mais consolidadas, o sistema tende a recrutar seus avaliadores dentro do próprio universo que anteriormente reconheceu e financiou.
Isso não demonstra favoritismo individual nem permite concluir que pesquisadores do Sudeste ou do Sul deliberadamente discriminem outras regiões. Revela, porém, um mecanismo potencial de autorreprodução institucional: as regiões e instituições mais bem inseridas no sistema produzem mais pesquisadores reconhecidos pelo próprio sistema e, consequentemente, também fornecem grande parte daqueles chamados posteriormente a avaliá-lo.
Para determinar se existe sobrerrepresentação propriamente dita nos comitês, seria necessário comparar sua composição com o universo efetivamente elegível de pesquisadores. Ainda assim, o mecanismo institucional merece atenção porque o acesso ao poder de avaliação não ocorre independentemente da distribuição anterior dos recursos.
3. Um resultado que contraria a hipótese inicial
A pesquisa histórica produz resultados interessantes justamente quando obriga o pesquisador a corrigir suas próprias expectativas.
Inicialmente, eu supunha que uma forte presença do Sul no sistema científico brasileiro poderia também ter se refletido na direção do CNPq.
Os dados disponíveis não confirmam essa hipótese.
A socióloga Maria Caramez Carlotto e o cientista político Demétrio Toledo, da Universidade Federal do ABC, publicaram uma prosopografia dos 21 dirigentes da Capes, do CNPq e da Finep entre 1964 e 1985 [6].
O resultado é particularmente relevante: todos os seis presidentes do CNPq naquele período haviam nascido no Nordeste, embora alguns posteriormente tenham se formado ou construído suas carreiras no Sudeste. A Finep, por sua vez, foi dirigida exclusivamente por egressos de instituições do Sudeste. A Capes apresentou composição mais heterogênea. Entre os 21 dirigentes das três instituições, apenas um era oriundo do Sul e nenhum havia nascido no Norte ou no Centro-Oeste.
Os autores interpretam essa distribuição como possível expressão de uma espécie de pacto federativo não formalizado entre as agências.
Para a investigação aqui proposta, a consequência é clara: não se pode explicar a concentração regional do sistema simplesmente pela origem dos presidentes das instituições.
Durante a ditadura, o comando do CNPq não estava nas mãos de sulistas.
O poder sobre as oportunidades científicas estava distribuído por diferentes níveis: direção política das instituições, comitês técnicos, universidades, departamentos, professores e redes acadêmicas.
Também não aparece, entre os 21 dirigentes analisados, qualquer evidência de domínio teuto-brasileiro da cúpula das três instituições. Há apenas casos isolados de sobrenomes que podem remeter a essa origem, como Darcy Closs, da Capes, e Alfredo Luiz Baumgarten Júnior, da Finep [6]. Sobrenomes, isoladamente, não permitem sequer determinar pertencimento histórico ou cultural.
Esse resultado enfraquece uma explicação simplista – e torna a investigação mais interessante.
Se houve influência de redes teuto-brasileiras no acesso a determinadas oportunidades, ela provavelmente não deve ser procurada apenas na presidência das agências.
4. O próprio Estado reconheceu a desigualdade regional
Desde 2001, a legislação federal determina que pelo menos 30% dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – FNDCT – sejam destinados a instituições do Norte, Nordeste e Centro-Oeste [7].
Em 2023, ao defender um projeto de lei que aumentaria esse percentual para 50%, o deputado Lucas Ramos (PSB-PE) afirmou que Sul e Sudeste continuavam recebendo quase 85% dos recursos [8].
No final de 2025, o presidente do CNPq, Olival Freire, anunciou um programa pelo qual bolsas seriam distribuídas por intermédio das fundações de amparo à pesquisa dos 27 estados, estabelecendo um número mínimo de bolsas por unidade federativa e buscando aproximar de 50% a participação conjunta de Norte, Nordeste e Centro-Oeste [9].
Esses mecanismos não constituem, por si sós, prova estatística da magnitude da desigualdade. Demonstram, porém, algo politicamente relevante: o próprio sistema brasileiro de ciência e tecnologia reconhece há décadas a necessidade de mecanismos especiais para corrigir a concentração regional dos recursos.
5. Teuto-brasileiros, elites e redes institucionais
É nesse ponto que surge a segunda questão desta investigação.
A presença de brasileiros de origem alemã em segmentos das elites econômicas, políticas e intelectuais do país é historicamente documentada.
Ernesto Geisel, presidente da República entre 1974 e 1979 e anteriormente presidente da Petrobras, era filho de Wilhelm August Geisel, imigrante alemão originário de Herborn. Sua mãe nascera em Teutônia e também descendia de alemães [10].
Mais importante do que casos individuais, entretanto, são as estruturas sociais.
A antropóloga Giralda Seyferth demonstrou, a partir de suas pesquisas no Vale do Itajaí, como industrialização, ascensão social e identidade étnica puderam caminhar conjuntamente entre grupos teuto-brasileiros [11].
No Rio Grande do Sul, pesquisas sobre São Leopoldo, Novo Hamburgo e Taquara mostram a ocupação de posições políticas locais por integrantes das elites teuto-brasileiras, articuladas por redes familiares que também incluíam luso-brasileiros e descendentes de outros grupos imigrantes [12].
Também no sistema universitário do Sudeste havia relações importantes com a Alemanha.
Na criação da Universidade de São Paulo, em 1934, professores europeus foram deliberadamente recrutados para constituir determinadas áreas acadêmicas. O químico Heinrich Rheinboldt chegou naquele ano e desempenhou papel central na formação da química na USP; posteriormente, juntamente com Heinrich Hauptmann, participou da construção das bases do atual Instituto de Química [13][14].
A política cultural externa do Terceiro Reich procurou igualmente influenciar a ocupação de determinadas cátedras paulistas por professores alemães, produzindo inclusive conflitos quando alguns dos candidatos considerados adequados pelas instituições brasileiras possuíam ascendência judaica [15].
Nada disso prova que bolsistas teuto-brasileiros tenham sido favorecidos décadas depois.
Mas esses dados demonstram algo indispensável à formulação da hipótese: existiam relações institucionais, acadêmicas, econômicas e culturais suficientemente densas entre determinados setores brasileiros e alemães para que a questão possa legitimamente ser investigada.
6. Uma hipótese histórica: as redes favoreciam “os seus”?
É aqui que é preciso distinguir indício de prova.
Até o momento, não conheço estudo que tenha examinado sistematicamente a origem dos bolsistas brasileiros enviados à Alemanha nas décadas de 1970 e 1980, a composição social dos candidatos, as pessoas que os recomendaram e os responsáveis efetivos pelas decisões de seleção.
Portanto, não é possível afirmar como fato comprovado que brasileiros de origem alemã tenham recebido tratamento preferencial.
Há, entretanto, indícios suficientes para formular essa possibilidade como hipótese histórica.
Empresas alemãs instaladas no Brasil, associações empresariais, câmaras de comércio, universidades, professores, instituições de intercâmbio e famílias teuto-brasileiras compunham redes capazes de fazer circular informações, contatos, recomendações e oportunidades.
Dentro desses ambientes, brasileiros de origem alemã podiam dispor de vantagens específicas: conhecimento da língua, vínculos familiares ou culturais com a Alemanha, familiaridade com instituições alemãs, acesso mais fácil a pessoas capazes de recomendar candidatos e inserção em regiões brasileiras com universidades relativamente mais consolidadas.
É historicamente plausível perguntar se dirigentes alemães e teuto-brasileiros atuantes em empresas, instituições acadêmicas ou organismos bilaterais não teriam também demonstrado interesse particular em apoiar jovens pertencentes a círculos sociais e culturais próximos aos seus.
Esse eventual favorecimento não precisaria assumir a forma de uma regra explícita baseada na origem étnica.
Poderia operar informalmente por mecanismos muito mais cotidianos: recomendações pessoais, conhecimento antecipado de oportunidades, indicação de candidatos, domínio do alemão, relações entre professores, vínculos com empresas, participação em instituições culturais ou simplesmente confiança construída dentro de redes preexistentes.
Nesse sentido, a pergunta histórica não deve ser reduzida a saber se existia uma instrução dizendo “favoreçam descendentes de alemães”.
A questão é mais ampla:
as redes germano-brasileiras e teuto-brasileiras produziram vantagens concretas que aumentaram as chances de determinados brasileiros chegarem à Alemanha?
E, se produziram, essas vantagens decorreram apenas de capital social, cultural e linguístico acumulado – ou também de preferências deliberadas de pessoas que decidiam sobre bolsas, recomendações e oportunidades?
Hoje, os indícios permitem formular a pergunta.
Ainda não permitem encerrá-la.
7. O intercâmbio institucional Brasil–Alemanha
As relações científicas institucionalizadas entre Brasil e Alemanha fornecem outro elemento importante.
O Acordo Geral de Cooperação sobre Ciência e Tecnologia foi assinado em Bonn em 9 de junho de 1969 [16].
O DAAD instalou seu escritório no Rio de Janeiro em 1971 e, a partir de 1974, passou a manter convênios com o CNPq, inicialmente voltados ao intercâmbio de cientistas. O programa conjunto de doutorado DAAD/CNPq/Capes, entretanto, surgiu apenas em 1991 [17].
Isso significa que os brasileiros encontrados na Alemanha nos anos 1980 podiam ter chegado por diferentes caminhos: bolsas regulares do CNPq para formação no exterior, programas do próprio DAAD ou outras modalidades de cooperação.
Em todos esses casos, a reconstrução dos processos de pré-seleção e recomendação é fundamental. Era nesse nível – universidades, departamentos, professores, instituições parceiras e redes de contato – que poderiam aparecer tanto mecanismos normais de seleção acadêmica quanto eventuais vantagens decorrentes de relações sociais específicas.
Há também fatos que impedem interpretações simplistas.
Já em 1977 foi criado o chamado “Programa Especial Nordeste”, por meio do qual a Capes e o Ministério alemão da Pesquisa enviavam jovens pesquisadores alemães para universidades nordestinas [17].
Portanto, a política alemã de cooperação acadêmica não estava simplesmente dirigida ao Sul brasileiro ou às regiões de forte presença teuto-brasileira.
8. Favorecimento, autosseleção ou vantagens acumuladas?
Mesmo que uma futura análise demonstre uma presença proporcionalmente elevada de teuto-brasileiros entre os bolsistas enviados à Alemanha, isso ainda não provará, automaticamente, favorecimento.
Existem explicações alternativas.
Descendentes de alemães estavam fortemente presentes em partes do Sul e do Sudeste, onde se concentravam instituições universitárias mais estruturadas. Em determinadas famílias, havia maior probabilidade de conhecimento da língua alemã, contatos familiares com a Europa, memória cultural da Alemanha e disposição para escolher aquele país como destino acadêmico.
Um jovem brasileiro com essas características poderia ter mais interesse em candidatar-se a uma bolsa para a Alemanha do que para a França ou para os Estados Unidos.
Assim, autosseleção, desigualdade regional e capital cultural poderiam produzir estatisticamente um padrão muito semelhante ao que seria produzido por favorecimento deliberado.
Mas existe ainda uma terceira possibilidade, talvez historicamente mais interessante: ambos os mecanismos podem ter atuado simultaneamente.
Uma população já favorecida por língua, redes familiares, localização regional e capital cultural poderia também ter encontrado, dentro das relações Brasil–Alemanha, pessoas e instituições particularmente receptivas a candidatos pertencentes a esses mesmos ambientes.
Nesse caso, não haveria necessariamente uma política formal de discriminação.
Haveria vantagens cumulativas dentro de redes sociais e institucionais historicamente constituídas.
É justamente isso que uma investigação prosopográfica e documental poderia testar.
9. Como verificar a hipótese
O primeiro passo seria reconstruir as listas de bolsistas brasileiros enviados à Alemanha pelo CNPq e pelo DAAD durante as décadas de 1970 e 1980.
Para cada bolsista, seria necessário levantar, sempre que possível:
região e cidade de origem; instituição brasileira; área de formação; universidade alemã de destino; modalidade de bolsa; professores envolvidos; cartas ou pessoas responsáveis pela recomendação; domínio prévio da língua alemã; vínculos familiares ou institucionais com a Alemanha.
A origem teuto-brasileira não deveria ser determinada simplesmente por sobrenome. O sobrenome pode funcionar como instrumento inicial de localização de possíveis casos, mas precisaria ser confirmado por investigação biográfica e documental.
O segundo passo consistiria numa prosopografia dos integrantes dos comitês técnicos e das pessoas envolvidas nas seleções, semelhante ao trabalho realizado por Carlotto e Toledo para os dirigentes das agências [6].
O terceiro seria comparar países de destino.
Se candidatos provenientes das mesmas regiões e universidades apresentassem padrões muito diferentes conforme o país – por exemplo, se brasileiros de origem alemã aparecessem de maneira excepcionalmente elevada nas bolsas destinadas à Alemanha, mas não nas destinadas aos Estados Unidos, França ou Reino Unido –, surgiria um indício muito mais forte de um mecanismo especificamente ligado às relações Brasil–Alemanha.
A dissertação de Jurandir Fermon Ribeiro Júnior, apresentada à Universidade de Brasília em 2013, já analisa regionalmente os bolsistas do programa conjunto iniciado em 1991 e pode servir como ponto de partida metodológico [17].
Uma quarta linha de pesquisa seria igualmente importante: consultar arquivos empresariais, câmaras de comércio, associações Brasil–Alemanha, correspondência institucional, atas, cartas de recomendação e documentação do próprio DAAD.
Seria nesses documentos que poderiam aparecer – ou não – evidências de que determinadas redes intervieram diretamente na indicação ou promoção de candidatos.
10. Balanço provisório
Três conclusões podem ser separadas.
Primeiro: está bem documentada a concentração regional da ciência brasileira. Durante décadas, Sudeste e Sul concentraram instituições, pesquisadores, recursos e grande parte das oportunidades oferecidas pelo sistema de fomento. Indicadores recentes demonstram que o desequilíbrio continua relevante.
Segundo: precisa ser abandonada a ideia de que essa estrutura possa ser explicada simplesmente pelo controle sulista da cúpula do CNPq. Durante a ditadura, todos os seis presidentes da instituição analisados por Carlotto e Toledo haviam nascido no Nordeste. O poder estava distribuído por diferentes níveis do sistema – e grande parte das decisões concretas passava por universidades, departamentos, professores e comitês.
Terceiro: permanece aberta a questão teuto-brasileira.
Há indícios suficientes para perguntar se as densas redes históricas existentes entre Alemanha e determinados segmentos da sociedade brasileira facilitaram de maneira desproporcional o acesso de brasileiros de origem alemã a oportunidades acadêmicas naquele país.
Esses indícios justificam a hipótese.
Não substituem sua demonstração.
O objetivo de uma pesquisa histórica não deve ser provar retrospectivamente aquilo que o pesquisador imaginava encontrar. Deve ser formular perguntas capazes de sobreviver ao confronto com as fontes – inclusive quando estas contradizem parte das expectativas iniciais.
No caso das bolsas Brasil–Alemanha, a pergunta permanece:
a presença aparentemente elevada de brasileiros de origem alemã entre aqueles que estudavam e pesquisavam na Alemanha resultava apenas da concentração regional, da língua, da autosseleção e de vantagens sociais acumuladas – ou as redes teuto-brasileiras e germano-brasileiras também influenciavam quem recebia informação, recomendação, apoio e, finalmente, a oportunidade de partir?
Ainda não sabemos.
Mas há razões históricas suficientes para investigar.
E saber quem tinha acesso a essas oportunidades não é uma questão secundária. A formação no exterior produz especialistas, carreiras, conhecimento, relações internacionais e capital social. Quando essas oportunidades se concentram repetidamente em determinadas regiões e redes, seus efeitos podem se acumular durante décadas – enquanto outras regiões continuam tentando recuperar a distância.
Fontes
[1] Revista Pesquisa FAPESP: “Investimento nacional”. Edição 3, outubro de 1995.
[2] Observatório Caleidoscópio – Unicamp: “Distribuição das bolsas de fomento no país a partir dos dados do Painel de Fomento do CNPq”. Boletim 001, 2025.
[3] Academia Brasileira de Ciências: “Avaliar mérito em um país desigual: os limites dos editais de fomento à ciência”. 26 de março de 2026.
[4] CNPq: “Comitês de Assessoramento do CNPq: período de indicação de membros vai de 16/03 a 06/04”. 30 de março de 2026.
[5] CNPq: “Comitês de Assessoramento – Apresentação”. Portaria CNPq nº 2.192/2025.
[6] Carlotto, Maria Caramez; Toledo, Demétrio G. C. de. “A direção da ciência na ditadura: um perfil dos dirigentes da Capes, do CNPq e da Finep, 1964–1985”. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 31, 2025.
[7] Decreto-Lei nº 719/1969, art. 3º-B, parágrafo único, incluído pela Lei nº 10.197/2001 e com redação dada pela Lei nº 11.540/2007.
[8] Agência Câmara: “Projeto aumenta parcela de recursos do FNDCT destinada às regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste”. 14 de novembro de 2023.
[9] Fundação Maurício Grabois: “Presidente do CNPq: novas bolsas para fixação de pesquisadores enfrentam desigualdades regionais”. 22 de dezembro de 2025.
[10] Dados biográficos sobre Ernesto Geisel – referência a substituir, na versão definitiva, por fonte biográfica institucional ou acadêmica, preferencialmente CPDOC/FGV.
[11] Seyferth, Giralda. “Etnicidade, política e ascensão social: um exemplo teuto-brasileiro”. Mana.
[12] Estudos reunidos pela UFRGS sobre imigração alemã e elites locais, incluindo trabalho de Rodrigo Luis dos Santos.
[13] Revista Pesquisa FAPESP: “História em frascos”, sobre Heinrich Rheinboldt.
[14] Revista de Química Industrial, nº 765, 2014: “Pioneiros da Química – Heinrich Hauptmann”.
[15] “A diplomacia das cátedras: a política cultural externa alemã e o ensino superior paulista – os casos da USP e da Escola Paulista de Medicina (1934–1942)”. História (São Paulo), v. 32, n. 1, 2013.
[16] Decreto-Lei nº 681, de 15 de julho de 1969, que aprovou o Acordo Geral de Cooperação sobre Ciência e Tecnologia assinado em Bonn em 9 de junho de 1969.
[17] Ribeiro Júnior, Jurandir Fermon. Brasil e Alemanha: a cooperação entre o DAAD e o CNPq nos 23 anos do convênio DAAD/CNPq/CAPES. Dissertação de mestrado, Universidade de Brasília, 2013.
