A germanidade organizada no Brasil, os projetos de uma Nova Alemanha, a questão da lealdade nacional e as consequências humanas da política racial nazista

Introdução — Uma questão histórica que começa antes de Hitler

A história da imigração alemã no Brasil não pode ser compreendida apenas como uma trajetória de colonização, trabalho, desenvolvimento econômico e contribuições culturais. Desde o século XIX, essa imigração também esteve relacionada a projetos nacionalistas alemães que procuravam preservar a germanidade (Deutschtum) fora da Europa, estabelecer comunidades etnicamente diferenciadas, resistir à assimilação e manter vínculos culturais, econômicos e políticos com a pátria de origem. Esses processos antecederam a unificação alemã de 1871 e, por conseguinte, surgiram muito antes do nacional-socialismo. Não ficaram restritos à preservação espontânea de tradições familiares. Em determinadas correntes nacionalistas, a manutenção da língua, de instituições e de uma identidade coletiva alemã constituía parte de um projeto de continuidade nacional no exterior. Após a fundação do Império Alemão, setores do Estado, associações nacionalistas, organizações econômicas e agentes diplomáticos passaram a atuar na promoção desses interesses. [1][2][3] O nacional-socialismo não criou o Deutschtum. Encontrou estruturas sociais, culturais e institucionais estabelecidas havia gerações e procurou subordiná-las à sua concepção racial e política da nação alemã. Essa instrumentalização ajudou a mobilizar parte das populações de origem alemã residentes no exterior, inclusive no Brasil.

A presença do Partido Nazista em território brasileiro, com aproximadamente 2.900 filiados e atuação em 17 estados, a migração de milhares de pessoas provenientes do Brasil para a Alemanha de Hitler e a participação de brasileiros nas forças armadas alemãs durante a Segunda Guerra Mundial constituem capítulos documentados dessa trajetória. [4][5][6] É sobretudo essa relação entre pertencimento nacional, germanidade e adesão ao nacional-socialismo que suscita uma questão fundamental: até que ponto indivíduos nascidos ou estabelecidos no Brasil, que voluntária e conscientemente aderiram ao projeto de Adolf Hitler, consideravam a sociedade brasileira sua principal comunidade de pertencimento político, ou subordinavam essa identificação à Alemanha de seus antepassados? A questão não pretende negar a nacionalidade jurídica desses indivíduos nem atribuir uma responsabilidade coletiva aos descendentes de imigrantes alemães. Procura investigar a distância que pode existir entre cidadania formal, identidade étnica e lealdade política.

A tese central deste artigo é que determinadas correntes nacionalistas do Deutschtum, desenvolvidas no Brasil desde o século XIX e posteriormente apoiadas por agentes do Império Alemão, criaram estruturas de pertencimento e influência transnacional que o nacional-socialismo procurou utilizar e radicalizar. A adesão voluntária de pessoas vinculadas ao Brasil ao regime de Hitler revela, nesse contexto, conflitos concretos entre cidadania brasileira, identidade nacional alemã e lealdade ideológica a um Estado estrangeiro. A investigação dessa trajetória não pode limitar-se às organizações germanistas e nazistas. É necessário examinar também as consequências práticas do projeto político que seus apoiadores defendiam. A campanha de expulsões e colonização racial conduzida pelo regime nazista na região polonesa de Zamość, entre 1942 e 1943, constitui um exemplo historicamente documentado dessas consequências. A trajetória de Czesława Kwoka, menina polonesa de 14 anos deportada de sua região e assassinada em Auschwitz, permite relacionar as formulações abstratas sobre território, nação e raça com os acontecimentos humanos produzidos pela política nazista. [7][8]

Deutschtum: a preservação de uma comunidade alemã no Brasil

A imigração alemã organizada no Brasil teve início em 1824, quando os primeiros grupos de colonos foram estabelecidos em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Nas décadas seguintes, novas áreas de colonização surgiram no Sul e em outras regiões do país. As necessidades de organização comunitária favoreceram a criação de escolas, igrejas, associações, jornais, sociedades de canto, clubes esportivos e outras instituições. Essas estruturas permitiam aos imigrantes reproduzir formas de convivência e transmitir a língua e as tradições de origem às novas gerações. Entretanto, a função histórica dessas instituições não se esgotava na vida cultural ou religiosa. Em determinadas comunidades e sobretudo entre agentes ligados ao nacionalismo alemão, a preservação institucional estava associada à manutenção de uma identidade coletiva alemã diferenciada da sociedade brasileira. A conservação da língua alemã, a educação dos filhos em instituições próprias e a continuidade dos vínculos com a Alemanha eram considerados meios de impedir ou retardar a assimilação.

A historiadora Giralda Seyferth examinou essa questão em Nacionalismo e identidade étnica: a ideologia germanista e o grupo étnico teuto-brasileiro numa comunidade do Vale do Itajaí. Seu trabalho demonstra a importância da ideologia germanista para a reprodução de fronteiras étnicas e de formas de pertencimento entre imigrantes e descendentes. [3]Frederik Schulze, em Auswanderung als nationalistisches Projekt, analisou o desenvolvimento dos discursos coloniais e nacionalistas alemães relacionados ao Sul do Brasil entre 1824 e 1941. O pesquisador identificou a atuação de associações, igrejas, publicistas e agentes vinculados à Alemanha que procuravam conservar o Deutschtum dos emigrantes e utilizá-lo em favor de interesses alemães. [2] A preservação cultural podia, portanto, adquirir uma função política. O idioma não representava apenas um meio de comunicação. Em determinadas concepções nacionalistas, era apresentado como elemento fundamental da continuidade de um povo, independentemente das fronteiras estatais. A escola não era somente um espaço de aprendizagem, mas também um instrumento de transmissão de identidade. As instituições comunitárias, por sua vez, podiam funcionar como estruturas de reprodução de vínculos nacionais ao longo das gerações.

Esse sistema de organização permitiu que comunidades instaladas em território brasileiro continuassem integradas a redes intelectuais, religiosas, econômicas e políticas associadas ao mundo alemão. O problema histórico não reside na simples preservação de uma cultura estrangeira, mas na possibilidade de sua utilização para manter comunidades permanentemente separadas da sociedade nacional em que estavam estabelecidas e para submetê-las a objetivos políticos externos. Essa distinção é indispensável para compreender a transformação posterior de setores do Deutschtum em instrumentos de mobilização nacional-socialista.

Antes de 1871: os projetos de uma Nova Alemanha no Brasil

A concepção de uma sociedade alemã permanente no Sul do Brasil não surgiu com o Império Alemão nem com o nazismo. Em 1864, sete anos antes da unificação alemã, o médico e viajante Franz Epp publicou, em Mannheim, a obra Rio Grande do Sul oder Neudeutschland — Rio Grande do Sul ou Nova Alemanha. O título expressava uma concepção territorial e nacional que ultrapassava a descrição de uma província brasileira. Após percorrer áreas de colonização alemã no Rio Grande do Sul, Epp apresentou a região como espaço especialmente favorável à continuidade de uma população alemã no exterior. A concentração territorial dos imigrantes, as condições climáticas, a agricultura, as oportunidades econômicas e a preservação da língua e dos costumes apareciam como argumentos em favor dessa perspectiva. Na apresentação da obra, Epp utilizou a designação Neudeutschland e desenvolveu a expectativa de que aquela região pudesse oferecer aos emigrantes uma nova pátria, uma segunda Alemanha. [1]

O significado histórico dessa formulação está no fato de que o território brasileiro era interpretado como espaço potencial de reprodução de uma sociedade nacional alemã. O imigrante deixava de aparecer exclusivamente como indivíduo que procurava construir uma vida em outro país. Passava a integrar uma coletividade cuja continuidade cultural e nacional deveria ser preservada. A obra de Epp mostra que essa representação já circulava antes da existência de um Estado nacional alemão unificado. A pesquisa de Schulze situa o livro dentro de um debate mais amplo sobre emigração, colonização, preservação nacional e expansão econômica. A preocupação de determinados círculos alemães consistia em evitar que os emigrantes fossem definitivamente absorvidos pelas sociedades receptoras, perdendo sua identidade e seus vínculos com o mundo alemão. [2] O Sul do Brasil adquiria importância particular porque oferecia a possibilidade de concentração de comunidades germanófonas em áreas relativamente extensas.

Nessas condições, a emigração podia ser concebida não apenas como deslocamento populacional, mas como instrumento de continuidade nacional além das fronteiras europeias. A expressão Neudeutschland, portanto, não era apenas uma curiosidade linguística. Representava uma maneira de pensar o futuro de partes do território brasileiro a partir dos interesses e das expectativas de determinados nacionalistas alemães. Essa concepção precedeu a fundação do Império Alemão, mas adquiriu novas possibilidades institucionais e políticas depois de 1871.

O Segundo Império Alemão e a política de germanidade no exterior

Com a fundação do Império Alemão em 1871, as relações entre emigração, germanidade e interesses nacionais passaram a desenvolver-se em condições políticas diferentes. O novo Estado reunia recursos administrativos, diplomáticos e econômicos que permitiam ampliar a influência alemã no exterior. A preservação do Deutschtum entre emigrantes e descendentes passou a interessar não apenas a associações culturais e religiosas, mas também a setores econômicos, organizações nacionalistas, representantes diplomáticos e instâncias governamentais. A importância desse processo foi examinada por Jürgen Hell em sua tese de doutorado Die Politik des Deutschen Reiches zur Umwandlung Südbrasiliens in ein überseeisches Neudeutschland (1890–1914), defendida na Universidade de Rostock em 1966. Hell investigou a política do Império Alemão relacionada à transformação do Sul brasileiro em uma Nova Alemanha ultramarina. Sua pesquisa identificou a participação de organizações nacionalistas, representantes econômicos e agentes estatais em iniciativas destinadas a ampliar a presença alemã e preservar os vínculos das populações germanófonas com a Alemanha. [9]

O historiador René Gertz analisou posteriormente as conclusões de Hell e o debate historiográfico suscitado por sua interpretação. Segundo a reconstrução apresentada por Gertz, Hell situou as origens da ideia de uma Nova Alemanha na América do Sul num memorando de 1826, identificando sua posterior vinculação às organizações comerciais e colonialistas do período imperial. Entre essas organizações estavam a Sociedade Central de Geografia Comercial e Fomento dos Interesses Alemães no Exterior, a Sociedade Colonial Alemã, a Liga Pangermânica e associações dedicadas à preservação da germanidade fora da Alemanha. [10] As páginas 106 e 107 da tese de Hell, examinadas também em estudos documentais publicados no avdea.net, são particularmente relevantes. Nelas aparece a atuação de Goetsch, responsável por assuntos de emigração no Ministério das Relações Exteriores alemão. A orientação atribuída a Goetsch favorecia o direcionamento de emigrantes para o Sul brasileiro em razão de suas possibilidades agrícolas e econômicas, mas também porque ali a preservação da língua, dos costumes e da identidade alemã era considerada mais duradoura do que em outros destinos migratórios.

A assimilação mais lenta constituía uma vantagem para os interesses alemães, assim como a possibilidade de conservar consumidores de produtos alemães e fortalecer colônias existentes. [9][10] Trata-se de um aspecto decisivo: a resistência à assimilação não era apenas uma característica social observada entre determinados imigrantes. Podia constituir objetivo de uma política de influência desenvolvida a partir da Alemanha. A existência de interesses estatais nesse processo é confirmada inclusive por autores que divergem quanto à interpretação de seus objetivos territoriais. Gerhard Brunn, em Deutschland und Brasilien (1889–1914), publicado em 1971, contestou a interpretação de Hell sobre um plano imperial abrangente de conquista ou anexação do Sul brasileiro. Entretanto, reconheceu que a legislação alemã sobre emigração de 1897 também esteve relacionada ao fortalecimento da germanidade no Sul do Brasil, incluindo apoio a escolas de língua alemã e instituições religiosas. Gertz destacou precisamente esse ponto: independentemente das divergências sobre os objetivos territoriais finais, numerosas instâncias estatais e privadas alemãs consideravam a população de origem alemã no Brasil um recurso relevante para interesses econômicos, culturais e políticos do Império. [10]

A discussão histórica, portanto, não se limita à existência ou inexistência de um plano formal de anexação territorial. O que a documentação demonstra é que setores do Império Alemão participaram de políticas destinadas a preservar, fortalecer e utilizar a germanidade existente no Brasil, inclusive como instrumento de influência externa. Essa atuação constitui um antecedente fundamental para compreender a instrumentalização posterior das comunidades alemãs pelo nacional-socialismo.

A germanidade como instrumento de pertencimento e lealdade

O Deutschtum não permaneceu conceitualmente estático. Ao longo do século XIX e das primeiras décadas do século XX, correntes nacionalistas alemãs passaram a conferir importância crescente à origem étnica, à ascendência e à concepção de uma comunidade nacional que ultrapassava as fronteiras do Estado. A identidade alemã podia ser definida não somente pela nacionalidade jurídica, mas também pela descendência, pela língua e pela participação numa comunidade cultural considerada hereditária. Essa concepção criava uma tensão particularmente significativa entre pessoas nascidas no Brasil e descendentes de imigrantes alemães. Um indivíduo podia possuir nacionalidade brasileira e, simultaneamente, ser considerado integrante de uma coletividade nacional alemã que não se confundia com a população do país onde havia nascido. Essa identidade transnacional não implicava, necessariamente, rejeição à cidadania brasileira. Entretanto, em suas formulações políticas mais radicais, podia favorecer a compreensão de que a Alemanha continuava sendo a principal referência nacional dos emigrantes e de seus descendentes.

As instituições comunitárias desempenhavam papel importante na reprodução desse pertencimento. A escola transmitia a língua e determinadas concepções históricas da identidade alemã. As associações mantinham redes de convivência social. A imprensa germanófona permitia acompanhar acontecimentos europeus e divulgar interpretações políticas provenientes da Alemanha. Essas estruturas não possuíam finalidade única nem atuavam necessariamente de maneira coordenada. Sua importância estava na capacidade de reproduzir vínculos coletivos ao longo de gerações. Em determinadas correntes do nacionalismo alemão, essas redes passaram a ser interpretadas como parte de uma comunidade nacional mundial, posteriormente mobilizada segundo critérios cada vez mais racializados. O nacional-socialismo apropriou-se dessa concepção e procurou subordiná-la à ideia de uma Volksgemeinschaft, comunidade nacional definida por critérios étnicos, raciais e políticos estabelecidos pelo regime. Na transformação histórica do Deutschtum, o nacional-socialismo encontrou formas preexistentes de organização, identidade e lealdade transnacional que podiam ser utilizadas para difundir sua ideologia e mobilizar apoiadores no exterior.

O Partido Nazista no Brasil: uma presença organizada

A presença do nacional-socialismo no Brasil foi documentada pela historiadora Ana Maria Dietrich em sua tese de doutorado Nazismo tropical? O Partido Nazista no Brasil, defendida na Universidade de São Paulo em 2007. Segundo a pesquisa, a organização partidária nazista começou a estruturar-se no Brasil em 1928, com um núcleo em Timbó, Santa Catarina. Posteriormente, integrou a rede internacional do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, coordenada pela Auslandsorganisation der NSDAP, organização do partido responsável por suas atividades no exterior. A seção brasileira chegou a aproximadamente 2.900 filiados e possuía estruturas em 17 estados. Tratava-se da maior organização partidária nazista fora da Alemanha, em números absolutos de filiados identificados pela pesquisa. [4] A dimensão dessa estrutura demonstra que o nazismo no Brasil não foi apenas um conjunto disperso de simpatias individuais. Houve organização partidária, propaganda, mobilização política, relações com instituições alemãs e tentativas de vincular a comunidade de origem alemã ao projeto nacional-socialista.

O desenvolvimento dessa organização encontrou ambientes em que a língua e a identidade alemã haviam sido preservadas durante gerações. O regime procurou aproveitar esses vínculos para difundir sua concepção política da nação, estimular manifestações de lealdade e integrar os alemães residentes fora do Reich à sua política internacional. A filiação formal ao NSDAP estava vinculada à cidadania alemã. Essa circunstância torna necessário distinguir os integrantes do partido dos descendentes nascidos no Brasil que não possuíam essa cidadania, mas podiam manifestar simpatia pelo nacional-socialismo ou aproximar-se de outros movimentos autoritários. A pesquisa de Dietrich também examinou as relações entre nazismo e integralismo brasileiro, incluindo aproximações e conflitos. O número de aproximadamente 2.900 filiados, portanto, não representa a totalidade das pessoas simpatizantes do regime no país. A existência de uma organização formal oferece, entretanto, prova documental de que parte da germanidade estabelecida no Brasil foi mobilizada politicamente pelo nacional-socialismo.

Mais de oito mil pessoas provenientes do Brasil abandonaram o Brasil rumo à Alemanha nazista

Um dos elementos mais relevantes para compreender as relações entre identidade alemã, nacional-socialismo e pertencimento brasileiro é o movimento migratório ocorrido nos anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial. A historiadora Méri Frotscher investigou o „retorno“ (Heim ins Reich) de pessoas e famílias do Brasil para a Alemanha nazista, utilizando documentos administrativos, registros migratórios e arquivos individuais de retornados à terra de seus antepassados no contexto do Heim ins Reich (de volta ao império). Em seu artigo publicado em 2013 na revista acadêmica BIOS, Frotscher apresentou os dados do Statistisches Jahrbuch für das Deutsche Reich, que registrava a entrada de imigrantes de cidadania alemã provenientes do Brasil. Segundo esses registros, 692 pessoas chegaram em 1937, outras 2.536 em 1938 e 5.156 em 1939, até o início da Segunda Guerra Mundial. O total registrado foi de 8.384 pessoas entre 1937 e setembro de 1939. [5] A própria historiadora observou que os documentos eram incompletos. Além disso, as estatísticas contemplavam uma categoria específica de imigrantes, designados reichsdeutsche Einwanderer, ou seja, pessoas de cidadania alemã.

Isso significa que o total não representa necessariamente todos os indivíduos provenientes do Brasil que se dirigiram à Alemanha naquele período, inclusive os descendentes classificados pelas autoridades alemãs segundo critérios étnicos, mas que não possuíam a mesma condição jurídica. A investigação de Frotscher também demonstra que a migração foi objeto de acompanhamento sistemático pelo aparato nacional-socialista. Em 1934, a Organização do Partido Nazista no Exterior criou o Rückwandereramt, órgão destinado a registrar e controlar os retornados, verificar seus antecedentes políticos e facilitar sua incorporação à sociedade e à economia alemãs. O órgão mantinha contatos com a Gestapo e outras instituições do regime, classificava os retornados segundo critérios de confiabilidade política e procurava encaminhá-los a atividades econômicas, inclusive em setores relacionados à preparação para a guerra. [5] A dimensão ideológica desse processo aparece num documento do Ministério do Interior alemão de 22 de março de 1938, citado por Frotscher.

A comunicação afirmava que a grande maioria dos retornados chegava à Alemanha nacional-socialista com grandes expectativas e que muitos haviam participado, no exterior, de esforços pela preservação do Deutschtum. Esse documento é particularmente revelador porque demonstra como o próprio regime relacionava a germanidade cultivada no exterior ao retorno de pessoas consideradas integrantes da comunidade nacional alemã. Trata-se de uma avaliação produzida pelas autoridades nazistas, que deve ser analisada levando em consideração seus objetivos políticos e administrativos. Ainda assim, constitui evidência histórica da interpretação atribuída pelo regime ao movimento migratório. A pesquisa de Frotscher examinou 448 arquivos individuais de retornados provenientes do Brasil. Entre eles, apenas 106 continham informações sobre filiação partidária; aproximadamente metade desses 106 indicava filiação ao Partido Nazista. A documentação parcial não permite extrapolar essa proporção para todos os 8.384 migrantes registrados. Entretanto, comprova a existência de integrantes do NSDAP entre os retornados e permite investigar suas motivações individuais. [5]

Um caso particularmente expressivo é o de Adolf Tom, que havia emigrado para o Brasil em 1923 e posteriormente se estabelecido em Presidente Bernardes, no interior de São Paulo. Tom filiou-se ao Partido Nazista em 1936. Após a anexação da Áustria pela Alemanha, em 1938, retornou com sua família para Innsbruck. Seu arquivo individual, analisado por Frotscher, demonstra como a identificação ideológica com o nacional-socialismo podia integrar as decisões de retorno à Alemanha. [5] A historiadora também identificou outros fatores relevantes para a migração, como dificuldades econômicas, vínculos familiares e os efeitos das medidas de nacionalização adotadas pelo governo de Getúlio Vargas. Não há, portanto, uma motivação individual uniforme que possa ser atribuída a todos os migrantes registrados. Ainda assim, o movimento constitui evidência da força dos vínculos com a Alemanha entre milhares de pessoas que haviam estabelecido suas vidas no Brasil.

O significado histórico desse contingente não reside apenas em seu volume. Reside também na existência comprovada de pessoas que associaram o retorno à Alemanha à preservação da germanidade e à identificação com o regime nacional-socialista.

Brasileiros nas forças armadas de Hitler: cidadania e obrigação militar

A participação de brasileiros nas forças armadas alemãs durante a Segunda Guerra Mundial constitui outro capítulo dessa história. O historiador Dennison de Oliveira examinou o tema no livro Os Soldados Brasileiros de Hitler, publicado em 2008. A pesquisa documenta trajetórias de indivíduos nascidos no Brasil que chegaram a prestar serviço militar e combater nas forças alemãs durante a guerra. [6] Essas trajetórias envolvem problemas de nacionalidade, dupla cidadania, identidade étnica e obrigação militar. A legislação alemã estabelecia o serviço militar obrigatório para seus cidadãos, inclusive para pessoas que, em determinadas circunstâncias, possuíam também nacionalidade brasileira. Consequentemente, a incorporação militar precisa ser examinada segundo as condições jurídicas e individuais de cada caso. Essa distinção não elimina a existência de adesão voluntária ao nacional-socialismo. Apenas estabelece que a decisão de apoiar o regime, a decisão de migrar para a Alemanha e a incorporação militar posterior são acontecimentos relacionados, mas não necessariamente equivalentes.

As pesquisas de Frotscher sobre a repatriação de brasileiros após a guerra demonstram a complexidade dessas situações. Entre 1946 e 1949, a Missão Militar Brasileira na Alemanha ocupada acompanhou processos de repatriação de cidadãos brasileiros, muitos deles com vínculos binacionais. A documentação examinada revela que algumas pessoas reivindicaram sua nacionalidade brasileira depois da derrota alemã, inclusive para retornar ao Brasil e escapar das condições da Alemanha do pós-guerra. [11] Esses processos oferecem material importante para investigar como a nacionalidade podia adquirir significados diferentes segundo as circunstâncias políticas. A questão central não é a existência formal da cidadania brasileira, mas a maneira como determinados indivíduos definiram suas lealdades e realizaram suas escolhas durante o regime nazista. O apoio voluntário ao nacional-socialismo por pessoas vinculadas ao Brasil constitui um objeto legítimo de investigação histórica, independentemente de quantos indivíduos tenham posteriormente servido obrigatoriamente nas forças armadas alemãs.

Zamość: o que significava o projeto racial apoiado pelo nacional-socialismo

Para compreender as implicações históricas da adesão ao nacional-socialismo, é necessário examinar suas políticas concretas. A ocupação alemã da Polônia oferece extensa documentação sobre a aplicação das concepções raciais e territoriais do regime. Após a invasão da Polônia em setembro de 1939, as autoridades nazistas iniciaram uma política de perseguição, deportação, exploração econômica e reorganização demográfica destinada a assegurar o domínio alemão sobre territórios conquistados. Essa política estava relacionada à concepção de Lebensraum, ou espaço vital, e aos projetos de colonização e reorganização racial do Leste europeu conhecidos como Generalplan Ost. O objetivo era estabelecer uma ordem territorial em que populações consideradas racialmente superiores exerceriam domínio sobre povos classificados como inferiores ou indesejáveis. Os planos nazistas previam a transferência compulsória de milhões de habitantes, a exploração de populações submetidas e o assentamento de colonos alemães nas áreas conquistadas. [12] A região de Zamość, no sudeste da Polônia, tornou-se um dos principais locais de aplicação prática dessa política.

Entre novembro de 1942 e agosto de 1943, as autoridades alemãs conduziram a campanha conhecida como Aktion Zamość, destinada a expulsar habitantes poloneses e reorganizar a ocupação territorial segundo os objetivos colonizadores das SS. Heinrich Himmler atribuiu grande importância à região. Entre os responsáveis pela execução da política estava Odilo Globocnik, comandante das SS e da polícia no distrito de Lublin. A primeira grande campanha de expulsões começou na noite de 27 para 28 de novembro de 1942. Segundo o Instituto da Memória Nacional da Polônia, aproximadamente 110 mil pessoas de cerca de 300 aldeias foram atingidas pelas deportações e expulsões realizadas até agosto de 1943. [8] Os habitantes eram retirados de suas casas, frequentemente sem condições de reunir seus bens. As propriedades eram confiscadas, as famílias separadas e os expulsos encaminhados a campos de trânsito. Parte da população foi enviada para trabalhos forçados. Outras pessoas foram deportadas para campos de concentração, incluindo Auschwitz e Majdanek.

Nas áreas confiscadas foram instalados aproximadamente 12 mil colonos de origem alemã, procedentes principalmente da Bessarábia e da Bucovina. A operação foi concebida para modificar a composição populacional de uma região em benefício dos objetivos territoriais e raciais alemães. O que ocorreu em Zamość demonstra que o projeto nazista de colonização não se limitava a debates ideológicos ou planos administrativos. Envolvia a destruição das condições de existência de comunidades inteiras.

As crianças de Zamość: separação, germanização e morte

As crianças estiveram entre as principais vítimas da campanha. Aproximadamente 30 mil crianças foram atingidas pelas expulsões na região de Zamość. Segundo as estimativas divulgadas pelo Instituto da Memória Nacional da Polônia, cerca de 10 mil morreram ou desapareceram, enquanto aproximadamente 4.500 foram destinadas a processos de germanização. [8] A germanização forçada constituía uma aplicação particularmente grave da ideologia racial nazista. As autoridades selecionavam crianças segundo critérios físicos e raciais que pretendiam identificar aquelas consideradas adequadas à incorporação à população alemã. Crianças selecionadas podiam ser retiradas de suas famílias, encaminhadas a instituições e submetidas à perda de sua identidade nacional original. Algumas eram destinadas à adoção por famílias alemãs, recebiam nomes alemães e eram educadas de modo a abandonar a língua e as referências culturais polonesas. Outras crianças foram deportadas com seus familiares ou separadamente, submetidas a condições de confinamento e transporte que provocaram doenças, sofrimento e morte.

Durante o inverno de 1942–1943, numerosos deslocamentos ocorreram em vagões de carga, sob condições inadequadas de alimentação, aquecimento e assistência. A política aplicada às crianças revela uma das características centrais do nacional-socialismo: a pretensão de determinar, mediante critérios raciais, quais indivíduos poderiam continuar vivendo com suas famílias e quais deveriam ser removidos, assimilados compulsoriamente ou eliminados. O destino infantil tornou-se objeto de decisões administrativas subordinadas a um projeto de reorganização demográfica. A expressão polonesa Dzieci Zamojszczyzny, ou Crianças de Zamość, tornou-se símbolo nacional da violência praticada contra a população civil da região. Entre essas crianças estava Czesława Kwoka.

Czesława Kwoka: a menina que não compreendia a língua dos agressores

Czesława Kwoka nasceu em 15 de agosto de 1928, em Wólka Złojecka, um pequeno povoado próximo de Zamość. Em dezembro de 1942, no contexto das expulsões realizadas pelas autoridades alemãs, foi deportada juntamente com sua mãe, Katarzyna Kwoka. Depois de passarem pelo campo de trânsito de Zamość, ambas chegaram a Auschwitz em 13 de dezembro de 1942. Czesława recebeu o número de prisioneira 26947 e foi encaminhada ao setor feminino de Birkenau. Sua mãe morreu em fevereiro de 1943. Czesława foi assassinada em 12 de março de 1943, aos 14 anos, segundo o Instituto da Memória Nacional da Polônia, por meio de uma injeção de fenol. [13][14] A fotografia produzida durante seu registro no campo tornou-se um dos documentos visuais mais conhecidos da perseguição nazista contra crianças polonesas. O responsável pela fotografia foi Wilhelm Brasse, prisioneiro polonês que, em razão de sua experiência profissional, havia sido obrigado pelas SS a trabalhar no serviço fotográfico de Auschwitz.

Brasse sobreviveu à guerra e relatou posteriormente as circunstâncias em que fotografou Czesława. A menina não compreendia as ordens pronunciadas em alemão. Segundo seu testemunho, uma mulher que exercia a função de Kapo, supervisionando outros prisioneiros, reagiu à incompreensão da menina agredindo-a no rosto com um bastão. Czesława ficou com os lábios feridos. Antes de ser fotografada, tentou enxugar as lágrimas e o sangue de seu rosto. Brasse recordou que não tinha condições de intervir sem colocar a própria vida em risco. [14] A fotografia documenta as consequências visíveis da violência praticada contra uma criança que havia sido retirada de sua região de origem e submetida ao sistema de concentração nazista. A incompreensão de uma ordem pronunciada em alemão tornou-se motivo para agressão física. Nesse episódio, a linguagem funcionou como instrumento de dominação, não de comunicação. Czesława não estava em Auschwitz por ter praticado algum delito individual. Sua deportação ocorreu no contexto da expulsão de populações polonesas submetidas aos objetivos raciais e territoriais do regime nazista.

Czesława Kwoka (1928–1943), fotografada em Auschwitz, onde recebeu o número de prisioneira 26947. A fotografia original foi feita pelo prisioneiro e fotógrafo Wilhelm Brasse, obrigado a trabalhar para as SS. Fonte: Memorial de Auschwitz-Birkenau.

A fotografia conserva seu rosto, seu número de registro e as marcas da violência sofrida. A história de Czesława permite compreender aquilo que as formulações abstratas do Generalplan Ost significavam para os indivíduos submetidos às políticas de ocupação. O território que os dirigentes nazistas pretendiam reorganizar era habitado por famílias, comunidades e crianças. A execução dessas políticas implicava retirar pessoas de suas casas, destruir suas relações familiares e submetê-las a instituições nas quais sua existência dependia de decisões arbitrárias. Czesława sobreviveu menos de três meses após sua chegada a Auschwitz.

As chamadas pacificações e a destruição das aldeias

A violência praticada na região de Zamość não se limitou às expulsões. As autoridades alemãs também realizaram operações de repressão coletiva contra aldeias, frequentemente designadas pelo termo pacificação. A expressão ocultava práticas que envolviam o assassinato de civis, o incêndio de casas e a destruição de comunidades inteiras. Em 11 de dezembro de 1942, a aldeia de Kitów foi atingida por uma dessas operações. Fontes históricas polonesas registram aproximadamente 174 mortos. Em 1º de junho de 1943, ocorreu o massacre de Sochy, próximo de Zwierzyniec. Unidades policiais alemãs e integrantes das SS cercaram a localidade e assassinaram moradores, incluindo mulheres, idosos e crianças. As casas foram incendiadas e a aldeia também foi atacada por aviões alemães. Segundo o Instituto da Memória Nacional da Polônia, aproximadamente 183 pessoas foram assassinadas, embora outras estimativas mencionem 185 ou 194 vítimas. [15] Outro local de violência foi a Rotunda de Zamość, antiga fortificação transformada pelos ocupantes alemães em prisão e local de execuções.

Entre 1940 e 1944, milhares de prisioneiros passaram por suas instalações. Segundo a base internacional Memorial Museums, estima-se que entre 6 mil e 8 mil pessoas tenham sido assassinadas naquele local durante a ocupação alemã. [16] A estimativa refere-se a todo o período de funcionamento da Rotunda sob ocupação, e não apenas à Aktion Zamość. Os acontecimentos demonstram a abrangência territorial da violência nazista. Além dos grandes campos de concentração e extermínio, o sistema de ocupação utilizava prisões, instalações policiais, operações repressivas e execuções locais para submeter a população civil. As chamadas pacificações constituíam mecanismos de intimidação e punição coletiva integrados à política de ocupação.

A relação entre o Deutschtum no Brasil e os crimes nazistas

A história do Deutschtum no Brasil e a campanha de Zamość não constituem o mesmo acontecimento histórico. O primeiro processo desenvolveu-se ao longo de mais de um século, envolvendo migração, identidade, organização comunitária, nacionalismo e relações internacionais. O segundo corresponde a uma operação concreta de perseguição, expulsão e colonização racial executada pelo regime nazista na Polônia ocupada. A relação entre ambos está no nacional-socialismo e na adesão política ao projeto representado por Hitler. A documentação comprova que o regime encontrou apoiadores também no Brasil, organizou estruturas partidárias no país e mobilizou pessoas de origem alemã estabelecidas no exterior. Comprova também que determinados indivíduos e famílias provenientes do Brasil dirigiram-se à Alemanha nazista por motivos relacionados à identidade alemã e, em casos documentados, à adesão política ao regime. Essa identificação não autoriza atribuir aos brasileiros que serviram nas forças alemãs participação direta nos crimes específicos cometidos em Zamość, na ausência de documentos que estabeleçam tal vínculo.

Entretanto, a investigação das adesões voluntárias ao nacional-socialismo deve considerar a natureza do regime apoiado e suas políticas efetivamente executadas. A Alemanha de Hitler não representava apenas uma continuidade de tradições culturais ou um projeto abstrato de fortalecimento nacional. Era um Estado que incorporou à sua política oficial o racismo, a perseguição, a conquista territorial e a reorganização compulsória de populações. O caso de Zamość demonstra as consequências humanas desse projeto. A pesquisa histórica sobre os apoiadores do regime no Brasil não estará completa se examinar apenas seus discursos de pertencimento, suas organizações comunitárias e suas trajetórias militares, sem considerar os objetivos e os atos do Estado ao qual prestavam lealdade.

Considerações finais — A cidadania brasileira e a lealdade ao nacional-socialismo

A trajetória do Deutschtum no Brasil evidencia a importância de compreender a imigração alemã dentro de processos históricos mais amplos do que a colonização e a transmissão de tradições culturais. Desde o século XIX, determinados autores, associações e instituições procuraram transformar a presença alemã no Sul do Brasil em base de continuidade nacional no exterior. A concepção de uma Neudeutschland, documentada antes da unificação alemã, adquiriu posteriormente novas dimensões por meio de iniciativas ligadas ao Segundo Império Alemão. A atuação de agentes estatais e de organizações nacionalistas na preservação da germanidade revela que a população de origem alemã estabelecida no Brasil podia ser considerada um instrumento de interesses estrangeiros. O nacional-socialismo apropriou-se de parte dessas estruturas e procurou utilizá-las para difundir sua ideologia e mobilizar os alemães residentes no exterior. A organização do Partido Nazista no Brasil, os movimentos migratórios para a Alemanha entre 1937 e 1939 e a participação de brasileiros nas forças armadas de Hitler constituem acontecimentos historicamente documentados que precisam ser analisados em conjunto.

A documentação permite identificar adesões voluntárias, trajetórias de identificação nacional alemã e situações de obrigação militar decorrentes da legislação do Reich. Esses fenômenos demonstram a necessidade de distinguir a cidadania jurídica do pertencimento político e ideológico. A nacionalidade brasileira de um indivíduo não determina necessariamente onde ele situa sua principal lealdade nacional. Essa lealdade precisa ser investigada nas escolhas, nas declarações e nos comportamentos efetivamente documentados. O problema histórico não está na ascendência alemã, mas na transformação de determinadas concepções de pertencimento em adesão voluntária a um regime fundamentado na hierarquia racial e na submissão de outros povos. A tragédia de Zamość demonstra o significado concreto dessa ideologia. A população polonesa foi expulsa de suas propriedades, famílias foram separadas e milhares de crianças foram submetidas a deportações, germanização forçada e morte. Czesława Kwoka foi uma dessas crianças. Nascida numa pequena aldeia polonesa em 1928, foi deportada para Auschwitz em dezembro de 1942 e assassinada em março de 1943, aos 14 anos.

A região onde nasceu continuou existindo. Suas aldeias e cidades permaneceram habitadas e novas gerações cresceram naquele território. Czesława não teve a possibilidade de participar desse futuro. Seu destino demonstra que as políticas raciais e territoriais nazistas não constituíam apenas declarações ideológicas, mas decisões administrativas e ações concretas que destruíram vidas humanas. A questão central não é determinar se os descendentes de alemães eram verdadeiramente brasileiros, mas compreender como determinadas estruturas e concepções de germanidade, desenvolvidas em território brasileiro e vinculadas a interesses nacionais alemães, puderam ser mobilizadas pelo nacional-socialismo — e por que alguns indivíduos nascidos ou estabelecidos no Brasil escolheram voluntariamente apoiar esse regime. Essa investigação exige reconstruir a história desde suas origens, identificar a atuação dos agentes envolvidos e confrontar as ideias e declarações políticas com os acontecimentos que produziram. A preservação da memória de Czesława Kwoka e das demais vítimas de Zamość acrescenta a essa investigação uma dimensão indispensável: a responsabilidade de compreender não apenas o que os apoiadores do nacional-socialismo afirmavam defender, mas também o que o regime efetivamente realizou.


Referências bibliográficas e fontes documentais

As referências estão numeradas conforme sua utilização no artigo. Os links conduzem a textos integrais, registros institucionais ou estudos que permitem localizar as obras e documentos originais. Quando a fonte primária não foi consultada diretamente em sua íntegra, essa circunstância é indicada.

Deutschtum, imigração alemã e projetos de uma Nova Alemanha

[1] EPP, Franz. Rio Grande do Sul oder Neudeutschland. Mannheim: Franz Bender, 1864. IV + 124 páginas. Documento primário do século XIX. A obra está registrada no acervo da Bayerische Staatsbibliothek, cota Am.a. 734.

Análise documental com referências às páginas III–IV, 5, 13, 36, 64 e 99 da obra original:

Rio Grande do Sul oder Neudeutschland: a “Nova Alemanha” imaginada por F. Epp em 1864

[2] SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt: „Deutschtum“ und Kolonialdiskurse im südlichen Brasilien (1824–1941). Köln/Weimar/Wien: Böhlau, 2016. 426 páginas. ISBN 978-3-412-50547-9.

Estudo sobre a formação e a transformação da política de germanidade, especialmente entre associações, igrejas, publicistas, organizações coloniais e agentes diplomáticos.

Registro acadêmico:

https://www.lai.fu-berlin.de/disziplinen/geschichte/publikationen/Monographien/Schulze_-Auslandsdeutsche/index.html

[3] SEYFERTH, Giralda. Nacionalismo e identidade étnica: a ideologia germanista e o grupo étnico teuto-brasileiro numa comunidade do Vale do Itajaí. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1982. 223 páginas.

Estudo sobre germanismo, identidade étnica e reprodução de fronteiras culturais.

Registro bibliográfico:

https://books.google.com/books/about/Nacionalismo_e_identidade\_%C3%A9tnica.html?id=iiYsAAAAYAAJ

Nazismo no Brasil, migrações e serviço militar

[4] DIETRICH, Ana Maria. Nazismo tropical? O Partido Nazista no Brasil. Tese de doutorado em História Social. Universidade de São Paulo, 2007. DOI: 10.11606/T.8.2007.tde-10072007-113709.

Pesquisa que documenta a atuação do NSDAP no Brasil entre 1928 e 1938, seus aproximadamente 2.900 integrantes e sua presença em 17 estados.

Texto e registro acadêmico:

https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-10072007-113709/pt-br.html

[5] FROTSCHER, Méri. “Als Nationalsozialist tat ich jederzeit unter schwersten persönlichen Opfern meine Pflicht”: Autobiographische Erzählung eines Rückwanderers aus Brasilien im institutionellen Kontext. BIOS – Zeitschrift für Biographieforschung, Oral History und Lebensverlaufsanalysen, v. 26, n. 1, p. 129–143, 2013.

Especialmente p. 130–132, sobre o Rückwandereramt, os 448 arquivos individuais, o registro de 8.384 retornados e a comunicação ministerial de 22 de março de 1938.

Texto integral:

https://d-nb.info/1187061255/34

Fonte estatística original utilizada por Frotscher: Statistisches Jahrbuch für das Deutsche Reich, 1943, seção Wanderung und Fremdenverkehr, p. 94.

Fonte administrativa original citada por Frotscher: comunicação do Ministro do Interior do Reich à Gestapo e às autoridades policiais, Berlim, 22.03.1938, registro NS 9-65, Bundesarchiv Berlin.

[6] OLIVEIRA, Dennison de. Os Soldados Brasileiros de Hitler: Semeando Livros. Curitiba: Juruá, 2008. 124 páginas. ISBN 978-85-362-1872-4.

Estudo sobre indivíduos nascidos no Brasil que serviram às forças armadas alemãs durante a Segunda Guerra Mundial.

Registro editorial:

https://www.jurua.com.br/shop_item.asp?id=20566

Zamość, o Generalplan Ost e a perseguição aos poloneses

[7] UNITED STATES HOLOCAUST MEMORIAL MUSEUM. Polish Victims. Holocaust Encyclopedia.

Documentação sobre perseguição, expulsões e germanização da população polonesa.

https://encyclopedia.ushmm.org/content/en/article/polish-victims

[8] INSTYTUT PAMIĘCI NARODOWEJ (IPN). Aktion Zamość, czyli niemiecka akcja wysiedlenia Polaków z Zamojszczyzny.

Documentação institucional sobre a campanha de expulsões, as aproximadamente 110 mil pessoas atingidas, as 30 mil crianças, a germanização e o assentamento de colonos.

https://ofiary.ipn.gov.pl/ofi/z-archiwum-ipn/zamojszczyzna/13605,Aktion-Zamosc-czyli-niemiecka-akcja-wysiedlenia-Polakow-z-Zamojszczyzny.html

Política imperial alemã e debate historiográfico

[9] HELL, Jürgen. Die Politik des Deutschen Reiches zur Umwandlung Südbrasiliens in ein überseeisches Neudeutschland (1890–1914). Tese de doutorado. Universidade de Rostock, 1966.

Especialmente p. 106–107 e 232–251, discutidas em estudos documentais e na historiografia posterior.

A tese original foi identificada bibliograficamente, mas não integralmente examinada nesta revisão. Para seu conteúdo foram utilizados trechos e interpretações apresentados por René Gertz e estudos que reproduzem documentação de Hell.

[10] GERTZ, René E. “Brasil e Alemanha: os brasileiros de origem alemã na construção de uma parceria histórica.” Textos de História, Universidade de Brasília, v. 16, n. 2, p. 119–149, 2008.

Especialmente p. 122–125, com apresentação das teses de Hell e Brunn e discussão sobre a política imperial alemã no Brasil.

Texto acadêmico:

https://periodicos.unb.br/index.php/textos/article/view/28024

BRUNN, Gerhard. Deutschland und Brasilien (1889–1914). Köln/Wien: Böhlau, 1971. Estudo discutido por Gertz, especialmente em relação às diferenças de interpretação sobre as políticas territoriais e a germanidade.

Brasileiros na Alemanha do pós-guerra

[11] FROTSCHER, Méri. “De ‘alemães no exterior’ a brasileiros? A repatriação de cidadãos brasileiros da Alemanha ocupada (1946–1949).” História Unisinos, v. 17, n. 2, p. 81–96, 2013. DOI: 10.4013/htu.2013.172.02.

Estudo sobre os processos de repatriação, a dupla nacionalidade e a atuação da Missão Militar Brasileira.

https://revistas.unisinos.br/index.php/historia/article/view/htu.2013.172.02

Crimes nazistas na Polônia e documentação de Auschwitz

[12] UNITED STATES HOLOCAUST MEMORIAL MUSEUM. Nazi Imperialism: An Overview. Holocaust Encyclopedia.

Análise dos objetivos imperiais nazistas e da política de colonização racial da Europa Oriental.

https://encyclopedia.ushmm.org/content/en/article/nazi-imperialism-an-overview

[13] AUSCHWITZ-BIRKENAU STATE MUSEUM. Deportowani z Zamojszczyzny.

Documentação biográfica e fotográfica de Czesława Kwoka, nascida em 15.08.1928, deportada em 13.12.1942, prisioneira número 26947, morta em 12.03.1943.

https://lekcja.auschwitz.org/dzieci_PL/sco_3.html

[14] INSTYTUT PAMIĘCI NARODOWEJ. 14 czerwca: Narodowy Dzień Pamięci Ofiar Niemieckich Nazistowskich Obozów Koncentracyjnych i Obozów Zagłady.

Material histórico com os dados biográficos de Czesława Kwoka, o relato da agressão anterior à fotografia e a informação sobre seu assassinato por injeção de fenol.

https://ipn.gov.pl/pl/dla-mediow/materialy-do-pobrania/186636,14-czerwca-Narodowy-Dzien-Pamieci-Ofiar-Niemieckich-Nazistowskich-Obozow-Koncent.html

[15] INSTYTUT PAMIĘCI NARODOWEJ — LUBLIN. 77. rocznica pacyfikacji wsi Sochy. 1º de junho de 2020.

Documentação sobre o massacre de Sochy, incluindo as divergências nas estimativas de vítimas.

https://lublin.ipn.gov.pl/pl5/aktualnosci/100635,77-rocznica-pacyfikacji-wsi-Sochy.html

[16] MEMORIAL MUSEUMS. The Zamość Rotunda.

Registro histórico e memorial da antiga prisão e local de execuções, com estimativa de 6 mil a 8 mil pessoas assassinadas entre 1940 e 1944.

https://www.memorialmuseums.org/memorialmuseum/the-zamo%C5%9B%C4%87-rotunda?locale=en

Estudos complementares

CASSIDY, Eugene S. Germanness, Civilization, and Slavery: Southern Brazil as German Colonial Space (1819–1888). Tese de doutorado, University of Michigan, 2015.

Pesquisa sobre os discursos alemães de colonização e sua relação com a construção de um espaço colonial no Brasil.

FROTSCHER, Méri. Retorno à pátria alemã: migrações de retorno do Brasil para a Alemanha sob o nazismo (1938–1939). Passo Fundo: Acervus, 2024.

Monografia dedicada ao movimento migratório analisado no artigo.

VASCONCELOS DE ARAÚJO, Adalberto. Rio Grande do Sul oder Neudeutschland: a “Nova Alemanha” imaginada por F. Epp em 1864; O que hoje chamamos de contribuição alemã ao Brasil não foi criado, em primeiro lugar, para o Brasil; Da boa-fé brasileira à instrumentalização alemã: imigração, Deutschtum, nazismo e soberania no Brasil. Ensaios históricos publicados em 2026.

https://avdea.net