Resenha crítica
EPP, F. Rio Grande do Sul oder Neudeutschland. Mannheim: Franz Bender, 1864. IV. 124 páginas.

Há livros cujo título apenas identifica o assunto. E há títulos que já contêm uma tese. Rio Grande do Sul oder Neudeutschland – Rio Grande do Sul ou Nova Alemanha – pertence claramente ao segundo grupo.
Publicado em Mannheim, em 1864, pelo médico alemão Franz Epp, o pequeno volume de 124 páginas constitui um documento excepcional para compreender como o Sul do Brasil podia ser visto, ainda antes da existência de um Estado nacional alemão, não apenas como destino de emigrantes, mas como espaço no qual seria possível preservar, reproduzir e ampliar uma sociedade alemã fora da Europa.¹
O título não foi uma provocação editorial escolhida posteriormente por um editor. Ele traduz o próprio argumento desenvolvido pelo autor. Logo na apresentação da obra, Epp considera legítimo aplicar ao Rio Grande do Sul o nome Neudeutschland. Mais adiante, sua expectativa ganha formulação ainda mais reveladora: aquela região poderia oferecer aos emigrantes alemães uma “nova pátria, uma segunda Alemanha”.²
É essa formulação que transforma o livro, hoje, em algo muito maior do que uma curiosidade bibliográfica sobre a imigração alemã. Rio Grande do Sul oder Neudeutschland é uma janela para um momento em que emigração, nacionalidade, colonização, economia e preservação cultural começavam a ser pensadas conjuntamente.³
Um médico em busca de uma nova pátria para alemães
Franz Epp era médico, formado em Heidelberg. Em 1863 viajou à América do Sul e percorreu áreas de colonização alemã no Rio Grande do Sul. O livro publicado no ano seguinte nasceu dessa experiência e dirige-se claramente também ao público alemão interessado na questão da emigração.¹
Essa questão possuía enorme importância no século XIX. Centenas de milhares de pessoas deixavam os territórios de língua alemã, sobretudo em direção aos Estados Unidos. Para parte dos nacionalistas e defensores de projetos de colonização, entretanto, essa emigração apresentava um problema: o emigrante podia prosperar economicamente, mas seria perdido para a germanidade caso fosse assimilado pela sociedade receptora. Nesse contexto, escolher o destino da emigração deixava de ser apenas uma decisão individual sobre onde construir uma vida melhor e podia transformar-se numa questão nacional. O lugar ideal seria aquele onde os emigrantes encontrassem terras, clima favorável e oportunidades econômicas, mas onde também pudessem permanecer suficientemente concentrados para conservar língua, costumes, identidade e relações entre alemães.³
Para Epp, o Rio Grande do Sul oferecia justamente essa combinação.
O Rio Grande do Sul deixa de ser apenas Brasil
Um dos aspectos mais significativos da obra está na transformação simbólica que Epp realiza sobre o espaço que observa. Geograficamente e politicamente, trata-se evidentemente de uma província do Império do Brasil. Discursivamente, porém, o autor começa a enxergar outra coisa.
Ele observa comunidades de língua alemã, atividades agrícolas, cidades, comerciantes, famílias e formas de sociabilidade e passa a interpretar essa presença como evidência de que ali estava surgindo um espaço alemão próprio.
Na apresentação do livro, Epp afirmava que aproximadamente 50 mil alemães já viveriam no Rio Grande do Sul, prosperando e fazendo valer sua maneira de viver e seus costumes.⁴ A importância da frase está menos na precisão estatística desse número do que no modo como ele organiza a percepção do autor: a população de origem alemã deixa de aparecer simplesmente como uma parcela da população brasileira e torna-se o núcleo de uma comunidade cuja continuidade deveria ser assegurada.
É exatamente nesse ponto que Neudeutschland adquire significado. A expressão não quer dizer simplesmente “há muitos alemães aqui”. Ela contém uma projeção para o futuro: significa imaginar que a concentração de emigrantes poderia produzir algo duradouro, uma nova pátria alemã no exterior, capaz de continuar alemã apesar de estar territorialmente situada dentro de outro país.
A historiografia contemporânea situa Epp justamente dentro de uma sequência de textos do século XIX que ajudaram a transformar o Rio Grande do Sul em um “signo discursivo” da colonização alemã: um espaço apresentado como particularmente favorável à conservação do Deutschtum.⁵
Clima, terra e germanidade
Epp não constrói seu argumento apenas por meio de sentimentos nacionais. A obra procura oferecer razões concretas para considerar o Rio Grande do Sul apropriado à colonização alemã. Clima, condições naturais, agricultura, possibilidades econômicas e situação dos colonos entram na argumentação.
Isso é importante porque revela uma característica recorrente da literatura de emigração e colonização do século XIX: geografia e nacionalidade aparecem interligadas. Não bastava encontrar terra disponível. Era necessário encontrar um ambiente no qual o europeu – e, na perspectiva de Epp, particularmente o alemão – pudesse viver, trabalhar, constituir família e reproduzir sua comunidade durante gerações. Epp participa assim de uma discussão mais ampla que atribuía ao clima relativamente temperado do Sul brasileiro uma vantagem em comparação com regiões tropicais do país.⁵
A paisagem deixa, portanto, de ser mero cenário e passa a ser avaliada segundo sua utilidade para um projeto de assentamento permanente. Essa maneira de observar o território aproxima o livro da literatura colonial da época. Natureza, terra, trabalho e população são avaliados em função da possibilidade de ocupação, produtividade e continuidade comunitária.
O emigrante como “pioneiro cultural”
Também chama atenção a maneira pela qual o colono alemão aparece na obra. Ele não é apresentado simplesmente como alguém que abandona sua terra natal em razão da pobreza ou procura oportunidades melhores. O emigrante adquire uma função histórica maior.
Epp participa de uma tradição discursiva que atribui ao colono alemão características como trabalho, perseverança, disciplina e capacidade de transformar a terra. Em determinados trechos, essa valorização assume uma dimensão explicitamente histórica e nacional: o autor chega a comparar os colonos alemães aos antigos germanos que haviam enfrentado Roma.⁶
Essa comparação é particularmente reveladora. O agricultor instalado no Rio Grande do Sul deixa de ser apenas um indivíduo e é inserido numa narrativa muito mais longa da história alemã. Dessa maneira, o trabalho realizado numa propriedade rural brasileira podia ser interpretado não apenas como empreendimento econômico particular, mas como continuação da atuação histórica de um povo.
Décadas depois, esse tipo de representação seria amplamente desenvolvido na figura do deutscher Kulturpionier – o “pioneiro cultural alemão” que, segundo os discursos do Deutschtum, transformaria a natureza, produziria prosperidade e levaria cultura e civilização às regiões onde se estabelecesse. A historiografia identifica textos como o de Epp entre os antecedentes desse repertório.⁶
A dimensão econômica da “Nova Alemanha”
A Neudeutschland de Epp também não pode ser compreendida exclusivamente em termos culturais. Havia uma dimensão econômica.
A concentração de alemães no Sul do Brasil possuía potencial para estabelecer relações duradouras com comerciantes, produtos, navegação e mercados ligados aos territórios alemães. Epp presta atenção ao comércio e às possibilidades econômicas da província, inserindo-se numa discussão que se tornaria progressivamente mais importante ao longo do século XIX: para onde deveria ser direcionada a emigração alemã para que ela não representasse uma perda completa para a própria Alemanha?⁷
Um emigrante assimilado nos Estados Unidos poderia, do ponto de vista dos nacionalistas alemães, ser definitivamente perdido. Uma comunidade alemã concentrada no Sul do Brasil, ao contrário, poderia conservar a língua e os costumes e continuar ligada econômica e culturalmente ao espaço alemão.
Assim, três elementos começavam a se reforçar:
emigração → preservação da germanidade → relações econômicas com a antiga pátria.
É uma lógica que adquiriria enorme importância depois de 1871, quando o recém-criado Império Alemão passou a possuir capacidade política e econômica muito maior para participar dessas redes. Mas o livro de Epp demonstra que a ideia intelectual, nacionalista e colonial de criar no exterior uma “Nova Alemanha” já existia e estava suficientemente desenvolvida para aparecer explicitamente no título de um livro publicado em 1864.⁸
Epp não criou essa ideia. Seu livro demonstra que, antes mesmo da fundação do Império Alemão, em 1871, já existia uma tradição de várias décadas que procurava transformar a emigração alemã de uma perda demográfica em instrumento de continuidade nacional, expansão econômica e influência no exterior. A ideia de uma Neudeutschland surgira inicialmente em projetos voltados para a América do Norte e, a partir das décadas de 1840 e 1850, encontrou no Sul do Brasil um de seus territórios preferenciais.⁸
Nesse sentido, Rio Grande do Sul oder Neudeutschland não representa o nascimento da ideia, mas um momento em que uma concepção anteriormente discutida por economistas, geógrafos, publicistas e associações de emigração já havia amadurecido o suficiente para que uma província brasileira pudesse ser apresentada diretamente ao público alemão como uma possível “Nova Alemanha”.
Por que o Brasil parecia particularmente propício a uma “Nova Alemanha”?
A preferência pelo Sul do Brasil como espaço para uma possível Neudeutschland não se explica apenas pelo clima, pela disponibilidade de terras ou pelas oportunidades econômicas. A documentação examinada por Jürgen Hell mostra que, na virada do século, a própria política alemã de emigração passou a considerar o Sul brasileiro particularmente adequado porque ali os emigrantes alemães poderiam permanecer alemães durante mais tempo e em condições mais favoráveis do que em outros países de imigração.⁹
Hell reproduz uma manifestação particularmente reveladora de Goetsch, responsável pela área de emigração no Ministério das Relações Exteriores alemão. Segundo esse documento, o principal objetivo da política alemã de emigração já estava orientado para direcionar prioritariamente a emigração alemã ao Sul do Brasil. As razões apresentadas eram explícitas: ali existiam boas condições para a aquisição de propriedade e para o desenvolvimento econômico dos colonos; sobretudo, porém, os emigrantes alemães conservavam sua nacionalidade, sua língua e seus costumes em grau maior do que nos países anglo-saxões, razão pela qual o processo de assimilação ocorria mais lentamente.¹⁰
Essa constatação é fundamental para compreender por que o Brasil se tornou tão atraente aos defensores de uma Neudeutschland. O objetivo não era apenas encontrar um lugar no qual alemães pudessem emigrar e prosperar. Procurava-se um território no qual pudessem emigrar sem deixar de ser alemães.
A comparação com os Estados Unidos aparece de maneira particularmente clara. Segundo a argumentação reproduzida por Hell, os emigrantes estabelecidos no Sul do Brasil continuavam, pela experiência acumulada, compradores de produtos alemães e, diferentemente dos alemães que emigravam para os Estados Unidos, sua própria atividade produtiva não representaria uma concorrência importante para a indústria alemã. Preservação nacional e interesse econômico apareciam, portanto, diretamente ligados.¹⁰
Mas o documento ia ainda mais longe. Goetsch afirmava que “razões políticas” também tornavam desejável fortalecer, sempre que possível, as numerosas colônias alemãs já existentes no Sul brasileiro por meio de um novo fluxo de emigrantes.¹⁰ A concentração da imigração alemã não constituía, assim, apenas um mecanismo de preservação cultural espontânea. Ela podia ser vista, dentro da própria administração alemã, como instrumento de fortalecimento deliberado da presença alemã na região.
Hell mostra também que esse objetivo não permaneceu apenas no campo das recomendações. Companhias de navegação alemãs, entre elas a Hamburg-Amerika-Linie e o Norddeutscher Lloyd, receberam autorizações relacionadas ao transporte de emigrantes ao Sul do Brasil; estruturas de informação aos emigrantes deveriam chamar sua atenção para as vantagens da região; e a Hanseatische Kolonisationsgesellschaft recebeu autorização destinada a possibilitar o assentamento de alemães em “massas compactas” nos seus territórios de colonização no Sul brasileiro.¹¹
Essa expressão é particularmente significativa. O objetivo da concentração era precisamente evitar aquilo que ocorria com maior facilidade quando os emigrantes se dispersavam dentro de sociedades maiores: a assimilação. Quanto mais compacta fosse a presença alemã, maiores seriam as possibilidades de manter escolas, igrejas, associações, língua, costumes, comércio interno e relações permanentes com a Alemanha.¹¹
A documentação apresentada por Hell revela ainda que essa concepção podia adquirir uma dimensão política muito mais ambiciosa. Ao comentar um relatório do capitão de corveta Schinke, comandante do cruzador Falke, Hell registra a ideia de que o Sul do Brasil constituía um dos poucos territórios particularmente apropriados à colonização alemã. Schinke considerava inclusive que, caso o Brasil algum dia se desintegrasse, dos Estados do Sul poderia surgir um “Estado de origem alemã”, ainda que ressalvasse não estar propondo sua ligação política direta ao Império Alemão. Em consequência, recomendava direcionar a emigração alemã ao Sul brasileiro e apoiar prioritariamente o sistema escolar alemão na região.¹²
O significado histórico desses documentos é considerável. Eles mostram que a preferência alemã pelo Sul do Brasil não se baseava numa impressão vaga sobre afinidades culturais. Ela podia ser formulada em termos concretos e estratégicos: os alemães assimilavam-se mais lentamente; havia uma forte resistência para assimilação; preservavam nacionalidade, língua e costumes; continuavam consumidores de produtos alemães; podiam ser concentrados territorialmente; suas instituições podiam ser fortalecidas; e essa presença possuía também valor político.⁹ ¹⁰ ¹¹ ¹²
É nesse contexto que deve ser compreendida a particular receptividade do Brasil aos projetos de Neudeutschland. O Estado brasileiro, por razões próprias, desejava colonos europeus, oferecia ou facilitava o acesso à terra e permitiu durante longos períodos o desenvolvimento de núcleos relativamente homogêneos de imigração. Os agentes alemães perceberam nessa estrutura uma oportunidade excepcional: aquilo que para o Brasil era política de colonização podia, para eles, tornar-se política de preservação e fortalecimento do Deutschtum no exterior.¹³
O problema, portanto, não era simplesmente que os brasileiros “não se importassem com nacionalidade”. Era uma combinação muito mais favorável aos interesses alemães: o Brasil queria receber europeus e povoar seu território, enquanto ainda permitia que comunidades de imigrantes mantivessem um grau de autonomia cultural e institucional que tornava sua assimilação relativamente lenta. Justamente por isso, o Sul brasileiro oferecia aos planejadores alemães algo que os Estados Unidos já pareciam oferecer em grau muito menor: a possibilidade de formar comunidades numerosas que permanecessem alemãs durante várias gerações.¹³
Essa diferença ajuda a compreender por que o Sul do Brasil passou a ocupar posição tão extraordinária na imaginação de uma Neudeutschland. O objetivo não era apenas produzir brasileiros de ascendência alemã. Para determinados atores alemães, tratava-se de preservar alemães e seus descendentes como uma coletividade alemã dentro do Brasil e fortalecer continuamente essa coletividade por meio de nova imigração, instituições próprias e vínculos econômicos com a Alemanha.¹³
Um livro anterior ao Império Alemão
Esse aspecto cronológico é talvez um dos mais importantes da obra. Rio Grande do Sul oder Neudeutschland foi publicado em 1864, quando a Alemanha ainda não existia como Estado nacional.
A unificação sob liderança prussiana somente ocorreria em 1871. O Império Alemão ainda não possuía colônias formais – sua expansão colonial estatal começaria duas décadas depois. Portanto, seria historicamente incorreto ler Epp como representante de uma política colonial oficial do Império Alemão. Em 1864, esse Império simplesmente não existia.
Mas essa constatação torna o livro ainda mais interessante. Ele demonstra que imaginar espaços alemães fora da Europa antecedeu a existência do Estado nacional capaz de posteriormente transformar parte dessas ideias em instrumentos de política exterior.⁸
O nacionalismo alemão havia produzido uma concepção de nação que não dependia necessariamente das fronteiras políticas. Língua, origem, costumes e cultura podiam definir uma comunidade que continuaria existindo mesmo quando seus integrantes atravessassem o Atlântico. A Neudeutschland de Epp pertence a esse universo.³
Não é um projeto formal de anexação
Aqui é necessário fazer uma distinção fundamental. O livro de Epp não deve ser apresentado como prova de que em 1864 existia um plano governamental alemão para anexar o Rio Grande do Sul. Não existia sequer um governo nacional alemão capaz de formular tal política.
O que a obra documenta é outra coisa – e historicamente muito relevante: a existência de um imaginário segundo o qual uma parte do território brasileiro poderia tornar-se, social e culturalmente, uma “segunda Alemanha” mediante a concentração e a continuidade da imigração alemã.²
Projetos mais explicitamente políticos surgiriam posteriormente. Depois da criação do Reich, organizações nacionalistas, colonialistas, comerciais e alguns integrantes da diplomacia passariam a discutir de maneira muito mais sistemática a importância do Sul brasileiro para interesses alemães.¹⁴ Assim, Epp deve ser colocado no início de uma trajetória, não em seu final. A obra mostra a existência do terreno intelectual sobre o qual projetos posteriores puderam crescer.
Entre relato de viagem e literatura de convencimento
Literariamente, o livro apresenta uma característica que aumenta significativamente seu valor como fonte histórica: Epp escreve ao mesmo tempo como observador e defensor de uma ideia. Sua narrativa não se limita a descrever o que encontrou no Rio Grande do Sul. Ele seleciona, compara e avalia aquilo que observa a partir de uma determinada perspectiva e procura, por meio dessa seleção, convencer o leitor alemão de que a região oferecia condições especialmente favoráveis para a imigração e para a formação de uma comunidade alemã duradoura.
Essa dupla função impede que a obra seja lida como uma fotografia objetiva do Rio Grande do Sul de 1863. Epp interpreta aquilo que encontra a partir de uma questão que atravessa todo o livro: poderia esse território tornar-se uma nova pátria para os alemães? A maneira como descreve a região é profundamente condicionada por essa possibilidade, e os elementos que parecem confirmá-la recebem atenção especial em sua narrativa.
A presença numerosa de alemães é interpretada como evidência da possibilidade de preservação da germanidade; a prosperidade de determinados colonos torna-se demonstração da capacidade dos imigrantes alemães de construir uma sociedade economicamente bem-sucedida; as condições climáticas e naturais são avaliadas segundo sua adequação ao assentamento europeu; a manutenção da língua, dos costumes e das estruturas comunitárias aparece como indício de que a assimilação poderia ser evitada ou retardada; e as atividades econômicas são analisadas também a partir das oportunidades que uma colonização alemã mais ampla poderia oferecer.² ⁴ ⁵ ⁷
Epp, portanto, não descreve simplesmente uma sociedade existente. Ele interpreta uma realidade presente à luz de um futuro desejado. O Rio Grande do Sul que aparece em seu livro é simultaneamente um território observado e um território projetado: uma província brasileira real e, ao mesmo tempo, o espaço sobre o qual o autor constrói a possibilidade de uma futura Neudeutschland.
A narrativa é, por isso, simultaneamente descritiva e programática. É justamente essa combinação que torna a obra tão valiosa como documento histórico, pois permite compreender não apenas aquilo que um viajante alemão afirmou ter encontrado no Sul do Brasil em meados do século XIX, mas também aquilo que desejava que essa presença alemã pudesse vir a produzir no futuro.
O problema do olhar
Lida no século XXI, a obra também exige distância crítica.
Epp observa o Brasil através das categorias culturais e nacionais de um europeu alemão do século XIX. O aspecto mais significativo é que essa forma de olhar o país não desapareceu com a geração dos imigrantes: ela foi transmitida, reinterpretada e reproduzida em partes importantes do meio teuto-brasileiro, onde a Alemanha, a germanidade (o Deutschtum) e o pertencimento ao coletivo alemão continuaram funcionando como referências culturais e identitárias durante gerações.¹⁵ Sua valorização insistente do elemento alemão produz uma assimetria evidente: o espaço brasileiro é frequentemente importante na medida em que oferece condições para a ação, prosperidade e continuidade dos colonos alemães.
Esse olhar não deve ser escondido, mas analisado.
A historiografia contemporânea demonstra que os discursos coloniais alemães sobre o Sul brasileiro frequentemente construíam uma imagem idealizada dos emigrantes, associando-os a trabalho, cultura e progresso, enquanto o país receptor era julgado segundo padrões europeus e, em numerosos textos posteriores, colocado numa posição culturalmente inferior.¹⁵
Isso também explica por que não se deve confundir o mundo descrito por Epp com a realidade completa das populações de origem alemã no Brasil. Os imigrantes eram heterogêneos, possuíam interesses próprios, adaptavam-se à sociedade brasileira e criavam identidades híbridas. Nem todos pretendiam preservar indefinidamente uma identidade alemã, muito menos participar de qualquer projeto nacional ou colonial.¹⁵
A Neudeutschland era, portanto, uma construção intelectual e uma expectativa, não simplesmente a descrição neutra de uma realidade existente.
A importância histórica do livro
É justamente nessa diferença entre realidade e projeto que reside o enorme valor atual de Rio Grande do Sul oder Neudeutschland.
A obra ajuda a desmontar uma narrativa simplificada segundo a qual a presença alemã no Brasil teria consistido exclusivamente em indivíduos que emigraram, trabalharam, prosperaram e, involuntariamente, acrescentaram elementos de sua cultura à sociedade brasileira. Essa história existiu, mas não foi a única.
O livro de Epp demonstra documentalmente que, já em meados do século XIX, havia alemães pensando a imigração também em termos de continuidade nacional coletiva.² ³
Não se tratava apenas de perguntar como poderia o emigrante construir uma boa vida no Brasil, mas também como poderia construir essa vida sem deixar de ser alemão. E havia ainda uma terceira possibilidade, mais ambiciosa: poderiam milhares de emigrantes concentrados numa mesma região criar ali uma nova pátria alemã?
O título escolhido por Epp fornece sua resposta:
Neudeutschland.
Uma obra pequena com enorme significado
Com apenas 124 páginas, Rio Grande do Sul oder Neudeutschland não possui a monumentalidade das grandes obras políticas do século XIX. Sua importância encontra-se em outro lugar.
É uma peça documental que permite observar, ainda em 1864, a passagem entre emigração individual e imaginação coletiva, entre a procura por terra e a procura por uma pátria, entre a existência de comunidades alemãs e a ideia de transformá-las num espaço permanente de germanidade.
O livro foi publicado sete anos antes da criação do Império Alemão, mas já contém elementos que se tornariam centrais nos debates posteriores sobre o Deutschtum no exterior: concentração dos emigrantes, preservação de língua e costumes, valorização do colono alemão, resistência à assimilação, potencial econômico das comunidades e concepção do Sul brasileiro como espaço particularmente favorável à continuidade alemã.⁸
Sua recepção não ficou restrita à Alemanha. Ainda em novembro de 1864, a Deutsche Zeitung de Porto Alegre publicou um texto sobre o livro de Epp, evidenciando a circulação dessas representações entre a Europa alemã e a própria comunidade de língua alemã no Rio Grande do Sul.¹⁶
Por isso, a obra merece ser conhecida também pelos brasileiros. Não porque demonstre que todos os imigrantes alemães pretendiam construir uma Nova Alemanha — ela não demonstra isso —, nem porque comprove a existência, em 1864, de uma política estatal alemã de anexação, algo que não poderia comprovar porque esse Estado nacional ainda não existia.
O que demonstra é historicamente diferente – e extremamente importante:
muito antes de o Império Alemão existir, o Sul do Brasil já podia ser imaginado por autores alemães como território no qual a emigração não terminaria necessariamente em assimilação, mas poderia dar origem a uma comunidade germânica permanente – uma nova pátria, uma “segunda Alemanha”.
É precisamente por isso que o título Rio Grande do Sul oder Neudeutschland continua, mais de 160 anos depois, tão revelador. Ele não descreve apenas um lugar: ele revela um projeto de imaginação sobre esse lugar.
E, para compreender a história da imigração alemã no Brasil em toda a sua complexidade, essa diferença é fundamental.
Referências bibliográficas
¹ EPP, F. Rio Grande do Sul oder Neudeutschland. Mannheim: Franz Bender, 1864, IV + 124 p. O exemplar digitalizado encontra-se no acervo da Bayerische Staatsbibliothek, sob a cota Am.a. 734. A Deutsche Digitale Bibliothek confirma autoria, local, editora, ano e extensão da edição original. Sobre Franz Epp e sua formação médica em Heidelberg, cf. MUSEU DE HISTÓRIA DA MEDICINA DO RIO GRANDE DO SUL. “Epp, Franz Heidelberg”. Para sua viagem ao Sul do Brasil em 1863 e o contexto da obra, cf. também SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt: „Deutschtum“ und Kolonialdiskurse im südlichen Brasilien (1824–1941). Köln/Weimar/Wien: Böhlau, 2016.
² EPP, F. Rio Grande do Sul oder Neudeutschland, p. III–IV. Epp considera no prefácio aplicável ao Rio Grande do Sul a designação Neudeutschland e apresenta a região como possibilidade de uma “nova pátria” e de uma “segunda Alemanha”. Cf. SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt, p. 51 e 112–113.
³ SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt, especialmente p. 46–52 e 105–126. Schulze situa o debate sobre emigração dentro do desenvolvimento do nacionalismo alemão do século XIX e mostra como publicistas, economistas e defensores da colonização procuravam transformar a saída de emigrantes numa forma de continuidade nacional, preservando-os culturalmente como alemães no exterior. A preocupação com assimilação, concentração territorial, preservação da língua e utilidade econômica das comunidades emigradas é central nesse processo.
⁴ EPP, F. Rio Grande do Sul oder Neudeutschland, p. IV. Epp descrevia o Rio Grande do Sul como uma terra onde já viveriam aproximadamente 50 mil alemães e onde costumes e formas alemãs de vida se faziam presentes. A afirmação deve ser entendida como parte da representação construída pelo autor, não como adoção automática do número como dado demográfico preciso. Cf. SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt, p. 127–128.
⁵ EPP, F. Rio Grande do Sul oder Neudeutschland, especialmente p. 5 e 13; SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt, especialmente p. 105–120. Schulze demonstra como o Rio Grande do Sul foi construído nos discursos alemães do século XIX como espaço especialmente favorável à colonização e à conservação do Deutschtum. O clima relativamente temperado, as condições naturais, a possibilidade de concentração populacional e a resistência à assimilação figuravam entre os argumentos empregados em favor do Sul brasileiro.
⁶ EPP, F. Rio Grande do Sul oder Neudeutschland, p. 64 e 99; SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt, especialmente p. 127–180. Na p. 99, Epp compara os colonos aos antigos germanos, inserindo-os numa narrativa histórica de força e realização. Schulze situa esse tipo de representação no desenvolvimento posterior da figura do deutscher Kulturpionier, o colono alemão apresentado como transformador produtivo do território e portador de cultura e civilização.
⁷ EPP, F. Rio Grande do Sul oder Neudeutschland, p. 36; SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt, p. 121–126. A discussão sobre comércio e colonização é inserida pela historiografia numa relação mais ampla entre emigração, preservação nacional, expansão comercial, criação de mercados e influência alemã no exterior.
⁸ SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt, especialmente p. 109–126; EPP, F. Rio Grande do Sul oder Neudeutschland, p. III–IV. Schulze demonstra que a utopia de uma Neu-Deutschland antecedeu a fundação do Império Alemão e apareceu inicialmente em projetos relacionados à América do Norte. Em 1847, Ernst Ludwig Brauns propôs no norte do México um “Estado puramente alemão”, denominado Neudeutschland. Nas décadas seguintes, o Sul do Brasil ganhou posição crescente nesse imaginário; em 1864, Epp tornou a expressão parte do próprio título de sua obra e evocou a região como possível “segunda Alemanha”.
⁹ HELL, Jürgen. Die Politik des Deutschen Reiches zur Umwandlung Südbrasiliens in ein überseeisches Neudeutschland (1890–1914). Dissertation, Universität Rostock, 1966, p. 106–107. Hell situa o projeto de Neudeutschland no Sul do Brasil no contexto da política alemã de emigração e da política de preservação do Deutschtum, destacando a importância particular atribuída à região entre o final do século XIX e o início do século XX.
¹⁰ HELL, Jürgen. Die Politik des Deutschen Reiches, p. 107. Hell reproduz manifestação de Goetsch, responsável pela área de emigração no Ministério das Relações Exteriores alemão, segundo a qual o objetivo principal da política de emigração deveria ser dirigir prioritariamente os emigrantes alemães ao Sul do Brasil. Entre as razões apresentadas estavam as condições para aquisição de propriedade, o clima, a maior conservação da nacionalidade, língua e costumes em comparação com países anglo-saxões, a assimilação mais lenta, a permanência dos emigrantes como consumidores de produtos alemães e “razões políticas” para fortalecer as numerosas colônias alemãs já existentes.
¹¹ HELL, Jürgen. Die Politik des Deutschen Reiches, p. 107. Segundo Hell, a execução dessa política envolveu companhias alemãs de navegação, entre elas a Hamburg-Amerika-Linie e o Norddeutscher Lloyd, estruturas de informação destinadas aos emigrantes e a Hanseatische Kolonisationsgesellschaft. Esta recebeu autorização destinada a possibilitar o assentamento de alemães em “massas compactas” (in kompakten Massen) nos territórios de colonização do Sul brasileiro, favorecendo a concentração espacial dos emigrantes e, consequentemente, a preservação de sua germanidade.
¹² HELL, Jürgen. Die Politik des Deutschen Reiches, p. 106. Hell reproduz a posição do capitão de corveta Schinke, comandante do cruzador Falke, segundo a qual o Sul do Brasil constituía um dos poucos territórios especialmente apropriados à colonização alemã. Schinke considerava que, em caso de desintegração do Brasil, poderia surgir dos Estados meridionais um “Estado de origem alemã” (Staat deutschen Ursprungs), embora não defendesse explicitamente sua incorporação política ao Império Alemão. Recomendava, em consequência, direcionar a emigração ao Sul brasileiro e apoiar prioritariamente o sistema escolar alemão na região.
¹³ HELL, Jürgen. Die Politik des Deutschen Reiches, p. 106–107; SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt: „Deutschtum“ und Kolonialdiskurse im südlichen Brasilien (1824–1941). Köln/Weimar/Wien: Böhlau, 2016, especialmente p. 105–126. As duas obras permitem identificar a convergência entre a estrutura brasileira de colonização e os objetivos alemães de concentração da emigração, preservação do Deutschtum, retardamento da assimilação e manutenção de vínculos econômicos e culturais com a Alemanha.
¹⁴ HELL, Jürgen. Die Politik des Deutschen Reiches, especialmente p. 106–107; SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt, especialmente p. 105–180; RINKE, Stefan. “Alemanha e Brasil, 1870–1945: uma relação entre espaços”. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 21, n. 1, 2014, p. 299–316. Depois da criação do Império Alemão, organizações colonialistas, nacionalistas e econômicas, assim como determinados integrantes da administração e da diplomacia alemãs, passaram a discutir de maneira mais sistemática a utilização das comunidades alemãs do Sul do Brasil para preservação do Deutschtum, expansão comercial e ampliação da influência alemã. Isso não significa, contudo, a existência de uma política governamental uniforme de anexação.
¹⁵ SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt, p. 13–17, 126–180, 232–255 e 342–349; SEYFERTH, Giralda. Nacionalismo e identidade étnica: a ideologia germanista e o grupo étnico teuto-brasileiro numa comunidade do Vale do Itajaí. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1981; GOODMAN, Glen S. “The Enduring Politics of German-Brazilian Ethnicity”. German History, v. 33, n. 3, 2015, p. 423–438. Essa literatura demonstra tanto a persistência e a reformulação de referências alemãs em parcelas do meio teuto-brasileiro quanto a heterogeneidade dessas comunidades e a formação de identidades híbridas, impedindo que sejam interpretadas como um bloco uniforme.
¹⁶ SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt, p. 92–93. A Deutsche Zeitung, de Porto Alegre, publicou em 5 de novembro de 1864, p. 1–2, o texto “Rio Grande do Sul von Dr. F. Epp”, evidenciando a rápida circulação da obra de Epp no próprio meio germanófono rio-grandense.
