O chamado “Milagre Econômico” brasileiro tornou-se uma das expressões mais eficientes para resumir os anos de crescimento acelerado que marcaram o final da década de 1960 e o início da década de 1970. A palavra “milagre”, porém, produz uma imagem incompleta quando é separada daquilo que veio antes, do modo como aquele crescimento foi financiado e, sobretudo, daquilo que aconteceu depois. O Brasil construiu fábricas, estradas, usinas e grandes projetos de infraestrutura, ampliou sua capacidade industrial e atraiu volumes consideráveis de capital estrangeiro. Ao mesmo tempo, acumulou compromissos externos numa velocidade que ajudaria a transformar a expansão dos anos 1970 numa das bases da crise que recairia sobre a população na década seguinte. A dívida externa registrada do país passou de aproximadamente US$ 3,78 bilhões em 1968 para US$ 12,57 bilhões em 1973, US$ 49,90 bilhões em 1979, US$ 70,20 bilhões em 1982 e US$ 107,51 bilhões em 1987.¹ Esses números não descrevem apenas uma evolução contábil. Eles documentam a formação progressiva de uma relação de dependência na qual o crescimento presente era acompanhado por obrigações que seriam pagas no futuro.

Não se tratou de uma história na qual apenas um lado teve iniciativa. Os governos brasileiros quiseram acelerar o crescimento e procuraram recursos externos; bancos internacionais quiseram emprestar; empresas estrangeiras quiseram ocupar o mercado brasileiro; governos das grandes potências industriais quiseram fortalecer a presença internacional de suas economias. O erro histórico está em transformar essa convergência de interesses posteriormente numa narrativa sentimental de “parceria”, como se os principais atores estrangeiros tivessem colocado capital no Brasil prioritariamente para contribuir com o desenvolvimento dos brasileiros. Crédito bancário não era doação. Investimento industrial não era filantropia. Uma empresa que instalava uma fábrica em São Paulo pretendia vender, produzir, ampliar mercado e obter retorno. Um banco que concedia empréstimos pretendia receber o principal, juros e remuneração pelo risco. O fato de esses investimentos também poderem gerar empregos, tecnologia e capacidade produtiva não elimina o objetivo econômico de quem investia. Confundir benefício econômico recíproco com altruísmo é abandonar a análise histórica justamente onde ela se torna mais necessária.
A participação da Alemanha Ocidental nesse processo precisa ser examinada dentro de sua própria trajetória. É historicamente impreciso afirmar que o auge do crescimento alemão coincidiu exatamente com o “Milagre” brasileiro. O dado correto é ainda mais revelador. A Alemanha Ocidental havia acabado de atravessar quase duas décadas de expansão extraordinária quando o crescimento brasileiro se acelerou. O Statistisches Bundesamt registra que as maiores taxas de crescimento alemãs do pós-guerra ocorreram nos vinte anos posteriores a 1945 e que o chamado Wirtschaftswunder terminou apenas com a recessão de 1967; o próprio Ministério da Economia alemão calcula que a economia da Alemanha Ocidental cresceu em média 8,2% ao ano durante os anos 1950.² Quando o Brasil entrou no período de crescimento de 1968–1973, a República Federal da Alemanha já dispunha, portanto, de uma base industrial reconstruída, capital acumulado, grandes empresas internacionalizadas e forte capacidade exportadora. O Brasil surgia nesse momento não apenas como “parceiro”, mas como um enorme espaço econômico a ser ocupado.
O resultado dessa ocupação permanece visível. A própria Rosa-Luxemburg-Stiftung descreve São Paulo como a cidade com a maior concentração industrial alemã do mundo fora da República Federal da Alemanha. O Deutsche Wissenschafts- und Innovationshaus de São Paulo, integrante de uma rede alemã apoiada institucionalmente, descreve a região metropolitana como o maior centro de empresas alemãs no exterior.³ Esse fato deveria ocupar lugar central em qualquer interpretação séria das relações econômicas entre os dois países. Não é razoável apresentar o Brasil durante décadas apenas como devedor problemático, país instável ou destinatário de ajuda alemã e, simultaneamente, ignorar que empresas alemãs construíram ali sua maior concentração empresarial fora do próprio país. Uma concentração industrial dessa dimensão não é construída onde não existem vantagens econômicas. Ela é construída onde empresas encontram mercado, infraestrutura, mão de obra, fornecedores, incentivos, proteção de investimentos, possibilidade de expansão e expectativa de lucro.
O setor financeiro alemão acompanhou essa expansão. O próprio Deutsche Bank registra em sua história institucional que seu antecessor abriu representação no Rio de Janeiro em 1956, adquiriu participação em um banco de investimento brasileiro em 1967, inaugurou filial em São Paulo em 1969, participou de novos investimentos financeiros em 1973 e, em 1976, atuou como principal gerenciador de um empréstimo de 100 milhões de marcos ao governo brasileiro.⁴ Portanto, quando os bancos alemães passaram a discutir poucos anos depois a capacidade do Brasil de pagar seus compromissos, não estavam observando de fora uma crise latino-americana com a qual nada tinham a ver. Bancos europeus haviam participado do sistema que ampliara a oferta de crédito, lucravam com a intermediação financeira e estavam expostos ao risco dos empréstimos concedidos.
A primeira crise do petróleo, em 1973, tornou essa engrenagem ainda mais perigosa. A elevação dos preços do petróleo transferiu enormes excedentes aos países exportadores, e grande parte desses chamados petrodólares retornou aos grandes bancos internacionais. As próprias histórias institucionais do FMI reconhecem que bancos comerciais ocidentais receberam quantidades crescentes desses recursos e passaram a emprestá-los intensamente aos países em desenvolvimento. O Fundo registra que muitos desses empréstimos eram contratados a taxas variáveis e que os bancos buscaram com entusiasmo os empréstimos soberanos porque precisavam aplicar a crescente liquidez que recebiam. Mais tarde, a própria historiografia do FMI reconheceria que o crédito concedido entre 1973 e 1981 foi excessivo e que autoridades dos países industrializados incentivaram a reciclagem privada dos petrodólares.⁵
Essa constatação é fundamental porque modifica a imagem tradicional do devedor irresponsável diante do credor prudente. Houve irresponsabilidade e erros graves na política econômica brasileira, mas houve também uma indústria financeira internacional que ofereceu crédito abundantemente enquanto ele produzia receita. Quando as taxas internacionais de juros eram baixas e os bancos competiam pela colocação de recursos, países como o Brasil eram clientes desejados. Quando os juros subiram dramaticamente depois de 1979, o mesmo estoque de dívida passou a representar um peso muito maior. O FMI registra que as taxas internacionais mais do que duplicaram entre 1979 e 1982 e que o aumento dos juros sobre empréstimos a taxas flutuantes agravou brutalmente o serviço das dívidas dos países em desenvolvimento.⁶ O capital não havia sido empurrado literalmente “goela abaixo” do Brasil — porque os governos brasileiros também o procuraram e aceitaram —, mas tampouco pode ser descrito honestamente como se bancos estrangeiros tivessem sido agentes passivos obrigados a financiar um cliente imprudente. Havia oferta agressiva de crédito, havia interesse dos credores e havia lucro enquanto o sistema funcionava.
Quando esse sistema entrou em crise, entretanto, mudou radicalmente a linguagem dos países credores. Os recortes de imprensa preservados na Biblioteca do Senado constituem documentos importantes precisamente porque registram a maneira como a negociação era apresentada naquele momento, sem a suavização retrospectiva. Em 17 de julho de 1983, o Jornal do Brasil publicou “Banqueiros europeus dão pouco crédito ao Brasil”. Em 18 de agosto, “Banqueiro alemão admite a moratória negociada do Brasil”. Em 25 de agosto, a manchete era inequívoca: “Alemanha não quer Brasil sem pagar juro da dívida”. Em 15 de junho de 1984 aparecia outra: “Alemanha pede mais sacrifício a países endividados”.⁷ O material apresentado pelo próprio jornal atribui ao então ministro alemão das Finanças, Gerhard Stoltenberg, a posição de que uma renegociação da dívida oficial brasileira dependeria da continuidade do pagamento dos juros, enquanto o chanceler Helmut Kohl defendia novos sacrifícios por parte dos países endividados. O vocabulário não deixa dúvidas quanto à distribuição pretendida do ônus: o sacrifício solicitado recaía sobre as sociedades devedoras.
É justamente aí que a palavra “parceria” precisa ser submetida a exame crítico. Quando havia mercado em expansão, fábricas eram instaladas, créditos eram concedidos e negócios eram realizados. Quando a dívida se tornou problemática, o interesse dos credores passou a ser a preservação dos pagamentos e a redução dos riscos de seus próprios sistemas bancários. Não há escândalo em reconhecer que um banco procura defender seus interesses. O escândalo histórico começa quando essa defesa de interesses é posteriormente envolvida por uma linguagem moral segundo a qual o credor teria sido parceiro generoso e o devedor, depois de décadas de relações altamente lucrativas para ambos os lados, seria o único responsável pela desordem.
Essa ambiguidade aparece também na política alemã de “ajuda ao desenvolvimento”. Não é necessário chamar toda cooperação alemã de fraude para demonstrar que ela nunca foi simplesmente desinteressada. O próprio BMZ reconhece hoje que a política de desenvolvimento da República Federal nos anos 1960 combinava promoção do crescimento nos países receptores com integração desses países no mercado mundial e preservação dos próprios interesses de comércio exterior da Alemanha. O ministério reconhece também que, até a década de 1970, determinados financiamentos alemães eram vinculados à obrigação de realizar projetos específicos contratando empresas alemãs. Além disso, o Entwicklungshilfe-Steuergesetz, criado em 1963, concedia benefícios tributários a empresas alemãs que investissem em países em desenvolvimento.⁸ A documentação oficial alemã é, portanto, suficiente para impedir a apresentação da “ajuda” como uma mão unilateralmente generosa. Desenvolvimento, política externa, promoção de exportações e interesse empresarial coexistiam.
Isso não significa que todo projeto alemão de desenvolvimento tenha sido inútil, nem que todo investimento empresarial tenha sido abusivo. Significa algo muito mais importante: a historiografia não pode contabilizar apenas aquilo que a Alemanha transferiu ao Brasil e esquecer aquilo que empresas, bancos e cadeias industriais alemãs obtiveram no mesmo país. A Rosa-Luxemburg-Stiftung, ao apresentar o estudo de Christian Russau Abstauben in Brasilien – Deutsche Konzerne im Zwielicht, resume justamente essa dimensão menos confortável da relação. A publicação analisa a presença de grandes corporações alemãs, sua relação com direitos humanos e meio ambiente e o envolvimento de empresas alemãs durante a ditadura militar. A própria Fundação observa que empresas alemãs procuram associar sua imagem pública a sustentabilidade, responsabilidade social e promoção do desenvolvimento, enquanto investigações da sociedade civil documentaram conflitos envolvendo interesses empresariais, direitos e meio ambiente.⁹ Não se deve substituir propaganda empresarial por propaganda inversa; deve-se colocar na mesma conta histórica aquilo que durante décadas foi apresentado separadamente: lucro, influência política, investimento, emprego, violação, cooperação, financiamento e interesse nacional.
A crise da dívida demonstraria brutalmente quem tinha maior capacidade de proteger seus interesses. Bancos internacionais possuíam governos, bancos centrais, organismos multilaterais, equipes jurídicas e mecanismos de negociação capazes de impedir que uma inadimplência generalizada destruísse seus balanços. O próprio FMI reconhece que a estratégia inicial da crise da dívida enfatizava evitar defaults generalizados que pudessem ameaçar a estabilidade dos bancos credores.¹⁰ Para o cidadão brasileiro não existia estrutura equivalente. Ele não participava das mesas onde eram renegociados bilhões de dólares, não decidia as taxas internacionais de juros, não escolhia os spreads bancários, não controlava o preço do petróleo e não tinha acesso aos mecanismos financeiros utilizados por grandes instituições para proteger patrimônio e liquidez.
O que chegava à população era a consequência. A dívida precisava ser servida. O país precisava gerar divisas. Gastos eram comprimidos. Salários perdiam poder de compra. Empresas enfrentavam recessão e crédito caro. A inflação transformava a vida cotidiana numa luta para utilizar o salário antes que ele perdesse valor. Em 1989, segundo o Banco Central, a inflação acumulada anual chegou a 1.972,91%.¹¹ Esse número significa quase duas mil por cento em apenas um ano, mas sua violência social não cabe no percentual. Significava famílias incapazes de planejar o mês, remarcações constantes, trabalhadores vendo o salário envelhecer dias depois de recebido, pequenos empresários calculando custos sem saber o preço de reposição das mercadorias e milhões de pessoas sem acesso aos instrumentos financeiros que permitiam aos detentores de capital proteger melhor sua riqueza.
Ao mesmo tempo, parte do Nordeste enfrentou outro desastre. No Ceará, a sequência de 1979 a 1983 constituiu um período de cinco anos consecutivos de seca, algo que a Funceme identifica como ocorrência excepcional na série histórica do Estado.¹² A crise da dívida, a recessão e a inflação coexistiam, portanto, com uma tragédia concreta de falta de água, perda agrícola, morte de animais, deslocamento populacional e aprofundamento da pobreza. Enquanto ministros das Finanças, banqueiros e organismos internacionais discutiam juros, spreads e programas de ajuste, famílias brasileiras discutiam comida e água.
É nesse contexto que a existência de duas sociedades dentro do Brasil deixa de ser apenas figura de linguagem. A primeira era a sociedade que suportava diretamente as consequências: trabalhadores, agricultores, pequenos comerciantes, desempregados, famílias dependentes de salários e milhões de brasileiros sem poder institucional para transferir para terceiros os custos da crise. A segunda era composta pelas estruturas que participavam da produção das próprias regras e possuíam instrumentos jurídicos para proteger rendimentos e posições institucionais. Executivo, Legislativo e Judiciário não foram responsáveis isoladamente pela crise econômica; isso seria uma simplificação. Mas seus integrantes e suas estruturas não estavam submetidos à mesma impotência institucional do cidadão comum.
A legislação do próprio período permite demonstrar essa diferença sem recorrer a exageros. Em dezembro de 1981, o Decreto-Lei nº 1.902 estabeleceu para servidores civis do Poder Executivo dois reajustes sucessivos de 40% em 1982, um em janeiro e outro em maio, com o segundo incidindo sobre o valor já reajustado. O Decreto-Lei nº 1.903 fez o mesmo para membros da Magistratura Federal, do Distrito Federal e Territórios e do Tribunal de Contas da União. O Decreto-Lei nº 1.906 aplicou os mesmos dois reajustes aos servidores da Secretaria do Supremo Tribunal Federal. Na Câmara dos Deputados, o Ato da Mesa nº 104 reajustou também em 40% em janeiro e mais 40% em maio os subsídios, a ajuda de custo e o auxílio-transporte dos deputados federais. Em 1984, o Ato da Mesa nº 32 determinou novo reajuste de 65% dos subsídios e da ajuda de custo dos deputados. O Executivo recebeu igualmente reajuste de 65% previsto pelo Decreto-Lei nº 2.079 para o início daquele ano.¹³
Esses números não autorizam afirmar que cada integrante dos três Poderes ficou integralmente protegido da inflação ou obteve necessariamente ganho real. Autoriza-se, porém, uma conclusão institucional muito mais séria: o Estado possuía mecanismos jurídicos para reorganizar e recompor a remuneração de suas próprias estruturas enquanto o cidadão comum dependia das condições do mercado de trabalho, da capacidade financeira da empresa, da negociação coletiva e de regras salariais que o próprio Estado estabelecia. A legislação salarial de 1983 chegou a determinar percentuais diferenciados de reposição do INPC conforme as faixas salariais e, para períodos posteriores, previa reposições correspondentes a apenas 0,7, 0,6 e 0,5 da variação semestral do índice, complementáveis sob determinadas condições por negociação.¹⁴ A assimetria não está, portanto, na afirmação simplista de que “todo funcionário público ganhou e todo trabalhador perdeu”; está no fato de que quem controlava o aparelho normativo possuía formas de autoproteção que quem estava fora dele não podia criar para si.
Um trabalhador desempregado não podia decretar o próprio salário. Uma família cuja renda desaparecia não podia editar uma norma obrigando a sociedade a recompor sua perda. Um agricultor que perdera a produção durante a seca não podia criar para si uma ajuda de custo permanente. Uma pequena empresa arruinada pela recessão não podia transferir compulsoriamente seu prejuízo aos contribuintes. Já as instituições públicas continuavam capazes de produzir atos legais que definiam vencimentos, subsídios, proventos, vantagens e despesas financiadas pela arrecadação. É nessa diferença de poder que se encontra uma das raízes da percepção de duas sociedades: uma submetida aos resultados e outra dotada de instrumentos para amortecer parte deles.
A mesma lógica estava presente no exterior em escala muito maior. Os grandes bancos emprestavam, cobravam juros e, quando a crise ameaçou seus balanços, negociaram coletivamente com Estados devedores e participaram de soluções organizadas com governos e organismos multilaterais. O Brasil, por sua vez, precisava obter novos recursos para manter pagamentos anteriores, renegociar vencimentos e preservar acesso ao sistema financeiro. Os fluxos deixaram de representar apenas financiamento de novos projetos; em parte crescente, tornaram-se mecanismos para administrar obrigações acumuladas. A dívida adquiria sua própria dinâmica: dívida exigia juros, juros consumiam divisas, escassez de divisas exigia refinanciamento e o refinanciamento mantinha o devedor dentro da estrutura construída nos anos de abundância.
Por isso, a dureza com que a crise deve ser narrada não exige invenção. Os documentos já são duros. O Brasil foi incentivado a crescer com capital externo num sistema em que bancos dos países industrializados tinham recursos abundantes para emprestar. Grandes empresas estrangeiras, inclusive alemãs, consolidaram posições extraordinariamente fortes dentro da economia brasileira. Quando as condições internacionais mudaram, os credores passaram a exigir pagamento, austeridade e sacrifício. A Alemanha, cuja presença empresarial no Brasil se tornaria a maior de sua indústria no exterior, não atuava contra seus próprios interesses ao exigir disciplina financeira; atuava justamente em defesa deles. O problema não está em reconhecer que Estados e empresas defendem seus interesses. Está em chamar essa relação de parceria sem perguntar qual parceiro tinha o poder de impor condições e qual sociedade arcava com a maior parte das consequências quando o sistema fracassava.
Também seria incorreto absolver as elites brasileiras atribuindo toda a responsabilidade aos estrangeiros. Elas foram parte do mecanismo. Governos autorizaram o endividamento, empresas públicas e privadas contrataram créditos, dirigentes definiram prioridades, decisões foram tomadas em Brasília e grupos econômicos brasileiros participaram dos benefícios da expansão. A estrutura não pode ser descrita como Alemanha contra Brasil, Estados Unidos contra Brasil ou bancos contra brasileiros. Ela colocou interesses financeiros e empresariais estrangeiros em associação com setores politicamente e economicamente poderosos dentro do próprio Brasil, enquanto a capacidade de transferir perdas para a população permanecia muito maior do que a capacidade da população de participar das decisões que produziram essas perdas.
É nesse sentido que a expressão “duas sociedades” adquire significado histórico. Não se trata de duas nacionalidades nem de uma divisão jurídica formal. Trata-se de duas experiências profundamente diferentes do mesmo país. Uma sociedade possui proximidade com o poder, patrimônio, proteção jurídica, acesso ao sistema financeiro e capacidade de influenciar ou produzir regras. A outra recebe a conta. Uma discute remuneração, contratos, spreads, benefícios e renegociações. A outra enfrenta inflação, desemprego, falência, seca e redução do poder de compra. Uma consegue transformar interesses em normas. A outra é chamada a fazer “sacrifícios”.
O “Milagre Econômico” foi real enquanto crescimento do produto e da capacidade industrial. Também foi real a modernização de partes importantes da economia brasileira. Mas igualmente reais foram a concentração de renda, a dependência crescente de financiamento externo, o peso posterior da dívida e a exposição do país às decisões tomadas nos grandes centros financeiros. O erro consiste em contar apenas a primeira metade dessa história. Um crescimento financiado por dívida não desaparece quando a obra é inaugurada. A dívida permanece. O contrato permanece. O credor permanece. E, quando o ambiente internacional muda, alguém precisa suportar a diferença entre aquilo que foi prometido e aquilo que a economia consegue pagar.
O Brasil dos anos 1980 mostrou quem era esse alguém. Enquanto bancos internacionais protegiam seus créditos, empresas estrangeiras preservavam posições estratégicas e estruturas do Estado brasileiro mantinham mecanismos legais de recomposição, milhões de brasileiros atravessavam uma das experiências econômicas e sociais mais destrutivas de sua história contemporânea. Não receberam participação proporcional nas decisões que criaram a dívida. Não receberam proteção proporcional quando ela se tornou crise. Mas receberam inflação, recessão, desemprego, arrocho e a obrigação coletiva de continuar financiando o Estado.
Essa não é uma acusação contra um povo estrangeiro, contra todos os alemães, contra todo servidor público ou contra a existência dos três Poderes. É uma análise sobre poder econômico e institucional. A história precisa identificar quem decidiu, quem financiou, quem lucrou, quem conseguiu proteger-se e quem suportou as consequências. Sem isso, “parceria”, “cooperação”, “desenvolvimento” e “milagre” tornam-se palavras capazes de esconder exatamente aquilo que deveriam ajudar a compreender.
A pergunta histórica decisiva, portanto, não é se o capital alemão, norte-americano ou internacional trouxe benefícios ao Brasil. Evidentemente trouxe alguns. A pergunta séria é outra: qual foi o saldo completo dessa relação, quem apropriou seus benefícios, quem acumulou poder e patrimônio e quem pagou quando os riscos se materializaram? São Paulo, transformada no maior centro de empresas alemãs fora da própria Alemanha, demonstra que o Brasil não foi economicamente irrelevante para a Alemanha. Os arquivos dos bancos demonstram que o Brasil foi mercado financeiro. A documentação do BMZ demonstra que cooperação e interesse comercial alemão coexistiam. As manchetes de 1983 e 1984 demonstram que, quando a crise chegou, credores alemães não substituíram contratos por compaixão: exigiram juros, austeridade e sacrifícios. E a legislação brasileira demonstra que, enquanto a população absorvia os resultados da crise, partes essenciais da estrutura estatal possuíam instrumentos para proteger suas próprias remunerações.
A realidade é suficientemente dura sem qualquer necessidade de exagerá-la. Durante o “Milagre”, havia dinheiro para emprestar e muito interesse em emprestá-lo. Durante a crise, havia dívida para cobrar e muito interesse em cobrá-la. Durante a década perdida, havia sacrifício a exigir e pouca disposição para que o peso recaísse sobre aqueles que tinham maior capacidade econômica e institucional de se defender. O trabalhador, o pequeno empresário, o agricultor, o desempregado e a família atingida pela inflação não estavam sentados à mesa dos bancos em Frankfurt, Londres ou Nova York, nem nas mesas onde Brasília definia salários, empréstimos e prioridades. Mesmo assim, foram eles que carregaram grande parte do fardo. Esta é a dimensão que qualquer história profissional dessas décadas precisa preservar: o Brasil não viveu apenas uma crise econômica. Viveu uma distribuição profundamente desigual dos benefícios, dos riscos e das consequências de um modelo de desenvolvimento no qual os mais poderosos possuíam instrumentos para proteger seus interesses, enquanto a maioria possuía principalmente a obrigação de pagar a conta.
FN 1 — Banco Central do Brasil, Sistema Gerenciador de Séries Temporais, série 3560, “Dívida externa registrada”: US$ 3,780 bilhões em 1968; US$ 12,5715 bilhões em 1973; US$ 49,9041 bilhões em 1979; US$ 70,1975 bilhões em 1982; US$ 107,5142 bilhões em 1987.
FN 2 — Statistisches Bundesamt, “Bruttoinlandsprodukt von 1950 bis 2022 im Durchschnitt 3,1 % pro Jahr gewachsen”, 1º jun. 2023; Bundesministerium für Wirtschaft und Klimaschutz, “Die Wirtschaft schwächelt, der Wohlstand wächst trotzdem – 1966–1982”. O Destatis registra crescimento de até 12,1% em 1955 e situa em 1967 o encerramento da longa fase de expansão do Wirtschaftswunder; o ministério informa crescimento médio de 8,2% ao ano na Alemanha Ocidental durante a década de 1950.
FN 3 — Christian Russau, Abstauben in Brasilien. Deutsche Konzerne im Zwielicht, Rosa-Luxemburg-Stiftung/VSA/medico international, 2016, 240 p., ISBN 978-3-89965-721-0. A apresentação da obra pela Fundação identifica São Paulo como a cidade com a maior concentração industrial alemã fora da República Federal; o DWIH caracteriza a metrópole como o maior centro de empresas alemãs no exterior.
FN 4 — Deutsche Bank, “Histórico” das atividades no Brasil: escritório de representação em 1956; participação no Investbanco em 1967; filial em São Paulo em 1969; participações adicionais em 1973; atuação como principal gerenciador de empréstimo de 100 milhões de marcos ao governo brasileiro em 1976.
FN 5 — International Monetary Fund, IMF Timeline, seção “1980s / International Debt Crisis”; IMF, The IMF and the Silent Revolution. O Fundo documenta a reciclagem dos petrodólares, a forte expansão dos empréstimos dos bancos comerciais aos países em desenvolvimento e a procura ativa dos bancos por crédito soberano diante da elevada liquidez internacional.
FN 6 — International Monetary Fund, Money Matters: Debt and Transition (1981–1989); A History of the International Monetary System in Five Crises. As fontes registram a forte elevação dos juros a partir de 1979 e o efeito das taxas flutuantes sobre os empréstimos dos países em desenvolvimento.
FN 7 — Biblioteca Digital do Senado Federal, acervo de William Waack: Jornal do Brasil, “Banqueiros europeus dão pouco crédito ao Brasil”, 17 jul. 1983; “Banqueiro alemão admite a moratória negociada do Brasil”, 18 ago. 1983; “Alemanha não quer Brasil sem pagar juro da dívida”, 25 ago. 1983, p. 20; “Alemanha pede mais sacrifício a países endividados”, 15 jun. 1984, p. 13.
FN 8 — Bundesministerium für wirtschaftliche Zusammenarbeit und Entwicklung (BMZ), “Geschichte des BMZ” e “Projektgebundene Hilfe und Entwicklungsländer-Steuergesetz”. O próprio ministério registra a preservação de interesses alemães de comércio exterior entre os objetivos da política dos anos 1960, a vinculação de determinados financiamentos à contratação de empresas alemãs até os anos 1970 e os incentivos tributários criados em 1963 para investimentos privados em países em desenvolvimento.
FN 9 — Russau, Christian, Abstauben in Brasilien. Deutsche Konzerne im Zwielicht, op. cit. A Rosa-Luxemburg-Stiftung apresenta a obra como investigação da atuação de empresas alemãs no Brasil, inclusive em relação à ditadura militar, direitos humanos, meio ambiente e estratégias corporativas de imagem pública.
FN 10 — International Monetary Fund, External Debt Policy, seção sobre a estratégia para as dívidas bancárias comerciais de 1982–1988. O Fundo registra que uma preocupação imediata da estratégia era evitar defaults amplos capazes de ameaçar os mecanismos internacionais de pagamentos e a estabilidade dos bancos credores excessivamente expostos.
FN 11 — Banco Central do Brasil, “30 Anos do Real”: a inflação anual brasileira chegou a 1.972,91% em 1989.
FN 12 — Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) e Governo do Estado do Ceará: entre 1910 e 2016, apenas dois períodos registraram cinco anos consecutivos de seca no Ceará, sendo o primeiro 1979–1983. A Secretaria dos Recursos Hídricos identifica igualmente 1979–1983 como período prolongado de escassez de chuvas.
FN 13 — Poder Executivo: Decreto-Lei nº 1.902, de 22 dez. 1981, reajustes sucessivos de 40% em janeiro e maio de 1982; Decreto-Lei nº 2.079, de 20 dez. 1983, reajuste de 65% para 1984. Poder Legislativo: Ato da Mesa da Câmara dos Deputados nº 104, de 7 jan. 1982, reajustes sucessivos de 40% nos subsídios, ajuda de custo e auxílio-transporte dos deputados; Ato da Mesa nº 32, de 26 jun. 1984, reajuste de 65% nos subsídios e ajuda de custo. Poder Judiciário: Decreto-Lei nº 1.903, de 22 dez. 1981, dois reajustes sucessivos de 40% para membros da Magistratura Federal e outras categorias; Decreto-Lei nº 1.906, de 23 dez. 1981, mecanismo equivalente para servidores da Secretaria do STF. Câmara dos Deputados, Legislação Informatizada.
FN 14 — Decreto-Lei nº 2.065, de 26 out. 1983, política salarial: reposição diferenciada da variação do INPC segundo faixas de salários e previsão, para períodos posteriores, de fatores de 0,7, 0,6 e 0,5 da variação semestral, com possibilidade de parcela suplementar sujeita às condições previstas na norma. Câmara dos Deputados, Legislação Informatizada.
