Publicado em Leipzig-Gohlis, em 1911, pela Bruno Volger Verlagsbuchhandlung, Gross-Deutschland: Die Arbeit des 20. Jahrhunderts é um dos documentos mais impressionantes do imaginário expansionista pangermânico anterior à Primeira Guerra Mundial. A obra possui cerca de 280 páginas e apareceu sob o nome Otto Richard Tannenberg. Um dado importante, entretanto, precisa acompanhar qualquer leitura cientificamente rigorosa do livro: “Tannenberg” era provavelmente um pseudônimo, e pesquisas historiográficas mais recentes consideram a verdadeira identidade do autor ainda não definitivamente esclarecida.[1] A obra deve, portanto, ser atribuída bibliograficamente a Otto Richard Tannenberg, mas não é prudente construir uma biografia segura do autor a partir desse nome.
O título já contém seu programa. Gross-Deutschland não significa simplesmente a Alemanha existente em 1911, mas uma Alemanha territorial, demográfica e politicamente ampliada. O subtítulo — Die Arbeit des 20. Jahrhunderts, “A tarefa do século XX” ou, literalmente, “O trabalho do século XX” – transforma essa expansão em missão histórica. O que o autor apresenta não aparece como fantasia distante, mas como aquilo que a geração alemã deveria realizar. Essa diferença é decisiva para compreender o livro: Tannenberg não pergunta se uma ampliação radical do espaço alemão seria desejável; parte da convicção de que ela seria necessária e dedica a obra a imaginar os meios, territórios, guerras e rearranjos políticos pelos quais essa transformação poderia ocorrer.
A própria organização do livro revela essa lógica. Tannenberg inicia pela questão da colonização alemã na Prússia Ocidental e em Posen, passa pela relação do povo alemão com a Casa de Habsburgo, examina a Holanda, a Rússia e outros espaços europeus e culmina em capítulos significativamente intitulados Das Deutsche Volk und der Kampf um die Weltmacht – “O povo alemão e a luta pelo poder mundial” -, a guerra contra Rússia e França, as condições de paz posteriores à vitória, um tratado entre Alemanha e Inglaterra e, finalmente, Groß-Deutschland. Não é uma coleção desordenada de comentários nacionalistas. Existe uma progressão narrativa: parte-se do problema das fronteiras e das populações alemãs; identifica-se aquilo que o autor considera obstáculos ao desenvolvimento da nação; imagina-se a guerra capaz de removê-los; redesenha-se o mapa; chega-se finalmente à Grande Alemanha.[2]
É precisamente essa estrutura que dá ao livro parte de sua força literária. Tannenberg escreve como alguém que descreve antecipadamente uma realidade futura. O texto combina geografia, estatísticas populacionais, extensão territorial, economia, relações internacionais e afirmações sobre características nacionais. Números e mapas conferem aparência técnica a conclusões essencialmente políticas e ideológicas. Territórios aparecem como quantidades calculáveis; populações tornam-se obstáculos ou recursos; fronteiras existentes deixam de constituir limites jurídicos e passam a ser problemas a serem solucionados.
A linguagem é afirmativa, frequentemente imperativa. O autor não constrói sua argumentação através da dúvida, mas da certeza. A Alemanha é apresentada como potência que não teria recebido espaço mundial correspondente à dimensão, capacidade e suposta superioridade de seu povo. Dessa premissa deriva uma interpretação competitiva das relações internacionais: povos e Estados disputam terra, população, mercados e poder; quem não se expande corre o risco de ser comprimido pelos outros. A alternativa torna-se, assim, brutalmente binária: ascensão à condição de potência mundial ou decadência.
Essa concepção encontra sua expressão mais radical quando Tannenberg transforma guerra, anexação e deslocamento populacional em instrumentos normais de engenharia política. A historiografia contemporânea classifica o autor como pertencente ao universo völkisch-alldeutsch. Em sua representação de uma futura vitória alemã sobre as potências da Entente, territórios franceses deveriam ser anexados, e aproximadamente 1,2 milhão de franceses dessas áreas seriam submetidos a uma política de transferência populacional. A pesquisa moderna chama atenção justamente para essa naturalização de grandes deslocamentos de população como instrumento da futura reorganização étnico-territorial da Europa.[3]
Há, portanto, no livro uma conexão profunda entre território e Volk. Estado e povo não são concebidos como categorias necessariamente coincidentes. Onde existiriam alemães, poderia existir uma questão alemã; onde o autor considerava necessária a expansão alemã, fronteiras existentes poderiam perder legitimidade diante daquilo que ele entendia como interesse superior do povo alemão. Essa lógica é fundamental para compreender por que Gross-Deutschland ultrapassa largamente uma obra sobre fronteiras europeias.
É precisamente nesse ponto que o livro adquire extraordinária importância para a história do Brasil.
Tannenberg projeta sua geopolítica também para a América do Sul. Não considera as comunidades alemãs estabelecidas fora da Europa simplesmente como grupos de emigrantes que haviam passado a integrar definitivamente outras sociedades nacionais. Elas podiam representar, dentro de sua visão, uma base humana e cultural para a projeção futura da Alemanha.
No esquema sul-americano atribuído à obra, Argentina e Chile poderiam conservar sua língua e certa autonomia, embora o alemão devesse ocupar espaço no ensino. Para o Sul do Brasil, Paraguai e Uruguai, a formulação era mais ambiciosa. Tannenberg os apresenta como países ou espaços da cultura alemã e afirma que ali o alemão deveria tornar-se a língua nacional.[4] A passagem tornou-se conhecida em compilações contemporâneas da Primeira Guerra Mundial precisamente por sua radicalidade:
“German should there be the national language.”
Não é necessário exagerar o significado da frase. Ela já é suficientemente contundente. Um autor alemão, escrevendo em 1911 sobre a “tarefa do século XX”, não estava simplesmente desejando que descendentes de imigrantes preservassem a língua familiar. Imaginava partes da América do Sul politicamente reorganizadas de maneira que a cultura e a língua alemãs assumissem posição dominante.
O Sul brasileiro possuía particular relevância porque ali a imaginação geopolítica encontrava uma realidade demográfica e institucional concreta: populações numerosas de origem alemã, escolas, igrejas, imprensa, associações, clubes de tiro, sociedades de canto, organizações econômicas e redes transatlânticas haviam criado condições excepcionalmente favoráveis à conservação do Deutschtum. Pesquisa recente sobre as relações germano-brasileiras observa que Tannenberg estava entre os publicistas coloniais que consideravam o Brasil particularmente promissor para a influência alemã na América do Sul; especificamente, classificava o Sul brasileiro como espaço de cultura alemã.[5]
Isso torna Gross-Deutschland extremamente importante para interpretar o debate em torno da assimilação dos emigrantes. Na perspectiva do autor, uma comunidade alemã que continuasse falando alemão, preservasse suas instituições, mantivesse consciência de origem e se concentrasse territorialmente podia representar algo muito diferente de uma simples minoria cultural. Podia transformar-se em matéria-prima de uma futura reorganização geopolítica.
É necessária, contudo, uma distinção historiográfica. Gross-Deutschland não constituía um programa oficial aprovado pelo governo imperial alemão, e as fronteiras concretas imaginadas por Tannenberg não podem ser automaticamente atribuídas ao Reich. Seria igualmente equivocado, porém, apresentar sua visão expansionista como algo estranho ou simplesmente indesejável ao Estado alemão. Tannenberg radicalizava tendências que se desenvolviam no próprio ambiente da Weltpolitik: expansão econômica e colonial, projeção ultramarina do poder alemão, proteção estatal dos interesses e comunidades alemãs no exterior, desenvolvimento de uma grande frota e procura de novos espaços de influência. O próprio Kaiser Wilhelm II apresentava a expansão do comércio alemão pelo mundo como tarefa do Reich e do imperador, falava na abertura e conquista de novos mercados pela “nova Hansa” e vinculava essa expansão à proteção proporcionada pelo poder naval alemão.[6] O que distinguia Tannenberg não era a ideia de que a Alemanha deveria ampliar radicalmente sua presença e seu poder no mundo, mas a extrema concretude territorial com que levava essa lógica às últimas consequências, redesenhando fronteiras e imaginando inclusive uma reorganização alemã de partes da América do Sul.
Essa distinção, porém, não diminui a importância do livro. Pelo contrário. Ela permite compreendê-lo pelo que realmente é: não a ata secreta de uma reunião do governo alemão, mas um documento extraordinariamente explícito sobre aquilo que podia ser pensado, publicado e colocado em circulação dentro de setores do nacionalismo alemão poucos anos antes da Primeira Guerra Mundial.
Também é significativo que a obra tenha adquirido enorme notoriedade depois de 1914. Uma tradução francesa apareceu já em 1916 sob o título Le rêve allemand! La plus grande Allemagne: l’œuvre du XXe siècle. Autores aliados utilizaram intensamente Tannenberg como prova das ambições pangermânicas e frequentemente interpretaram suas previsões como antecipação do que a Alemanha efetivamente procuraria realizar durante a guerra.[7] Essa recepção exige igualmente cautela: propaganda de guerra tinha interesse evidente em apresentar as posições mais radicais como representação do conjunto da Alemanha. Mas o uso propagandístico posterior do livro não torna seu conteúdo original menos real. A questão metodológica correta é separar aquilo que Tannenberg efetivamente escreveu da interpretação que seus adversários posteriormente fizeram de suas palavras.
Há ainda um elemento particularmente revelador: o Brasil percebeu cedo a relevância da obra. Já em 1915, a imprensa brasileira discutia Gross-Deutschland, mencionava seu mapa e relacionava-o a temores de uma “Alemanha austral” formada no Sul do continente. O acervo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro conserva inclusive documentação intitulada A Maior Alemanha e a América do Sul, especificamente dedicada a comentar o livro de Tannenberg e o destino que ele projetava para a América do Sul.[8] Portanto, não estamos diante de uma obra obscura cuja conexão com o Brasil tenha sido inventada retrospectivamente. O livro já circulava no debate brasileiro contemporâneo.
Literariamente, Gross-Deutschland é perturbador justamente porque a violência de suas conclusões frequentemente aparece revestida de normalidade administrativa. O autor mede, soma, transfere, incorpora e redistribui. Países inteiros entram em esquemas de proteção ou influência; milhões de pessoas são convertidos em categorias demográficas; guerras aparecem como etapas de uma construção futura. O efeito produzido é o de uma enorme planta arquitetônica política: um mundo existente deve ser desmontado para que outro possa ser construído.
O livro também permite enxergar algo fundamental sobre o nacionalismo expansionista da época. O imperialismo não dependia apenas de exércitos e governos. Antes que uma fronteira fosse deslocada, ela podia ser deslocada intelectualmente. Mapas imaginários, estatísticas, livros, sociedades geográficas, associações nacionalistas e publicistas tornavam determinados futuros pensáveis. Tannenberg participa precisamente desse trabalho: ele transforma a expansão em imagem, a imagem em programa e o programa em tarefa histórica.
É por isso que Gross-Deutschland continua relevante mais de um século depois. Seu valor atual não está em suas previsões, muitas das quais evidentemente não se realizaram, nem em qualquer mérito científico de suas hierarquias nacionais. Está na excepcional transparência com que revela um modo de pensar. O livro permite observar como nacionalismo, Deutschtum, demografia, território, poder militar e imperialismo podiam ser articulados dentro de uma única visão de mundo.
Para a história das relações entre Alemanha e Brasil, sua importância é ainda maior. Tannenberg ajuda a explicar por que a persistência de comunidades alemãs culturalmente pouco assimiladas no Sul do Brasil podia adquirir significado geopolítico aos olhos de determinados círculos alemães. A comunidade emigrada deixa de ser somente lembrança da Alemanha; torna-se, no imaginário expansionista, uma possível extensão futura dela.
Nesse sentido, uma das maiores contribuições documentais de Gross-Deutschland é também uma das mais inquietantes: demonstrar que a ideia de uma “Nova Alemanha” na América do Sul não nasceu retrospectivamente das suspeitas brasileiras durante as guerras mundiais. Antes de 1914 já havia autores alemães colocando no papel, em mapas e em programas para o século XX, uma reorganização internacional na qual o Sul do Brasil ocupava lugar próprio.
Gross-Deutschland não é, portanto, apenas um livro sobre uma Alemanha maior. É um livro sobre um mundo que seu autor acreditava que deveria ser reorganizado para tornar a Alemanha maior. E é justamente essa inversão – do Estado adaptando-se ao mundo para o mundo sendo redesenhado segundo as necessidades imaginadas de uma nação – que faz da obra um documento central para compreender a vertente mais radical do pangermanismo imperial.
A atualidade histórica de Tannenberg não está em supor que seu programa territorial de 1911 continue sendo defendido hoje nos mesmos termos, mas em observar a permanência de alguns dos fenômenos sociais sobre os quais ele procurava construir sua visão: transmissão intergeracional de identidade alemã, forte consciência regional e delimitação simbólica entre um “nós” local e aqueles considerados de fora. Casos contemporâneos do Sul do Brasil mostram que essas questões não desapareceram, embora devam ser analisadas sem estabelecer equivalências ideológicas automáticas com o pangermanismo do início do século XX. Sobre essa continuidade e seus limites, ver: A atualidade de Tannenberg: cultura, pertencimento e território.
Notas
[1] TANNENBERG, Otto Richard. Gross-Deutschland: Die Arbeit des 20. Jahrhunderts. Leipzig-Gohlis: Bruno Volger, 1911. Catálogos bibliográficos registram aproximadamente 280 páginas. Pesquisa historiográfica recente identifica “Tannenberg” como pseudônimo e considera não esclarecida definitivamente a identidade do autor. Cf. SCHWARTZ, Michael. Ethnische „Säuberungen“ in der Moderne: Globale Wechselwirkungen nationalistischer und rassistischer Gewaltpolitik im 19. und 20. Jahrhundert. München: Oldenbourg, 2013. Schwartz caracteriza-o como autor völkisch-alldeutsch e registra as diferentes hipóteses acerca de sua verdadeira identidade.
[2] O índice da edição de 1911 inclui, entre outros, Die Deutsche Ansiedlung in Westpreußen und Posen, Das Deutsche Volk und das Haus Habsburg, Holland in Not, Rußland, Das Deutsche Volk und der Kampf um die Weltmacht, o capítulo sobre a guerra contra Rússia e França, Staatsvertrag zwischen Deutschland und England e, como seção final, Groß-Deutschland.
[3] SCHWARTZ, Michael, op. cit. O autor analisa Gross-Deutschland no contexto das concepções völkisch-alldeutschde reorganização étnico-territorial e registra o projeto de Tannenberg de anexações territoriais e transferência de cerca de 1,2 milhão de franceses depois de uma vitória alemã imaginada.
[4] TANNENBERG, Otto Richard, op. cit., especialmente p. 250 e 265–266. A compilação norte-americana Conquest and Kultur reproduziu em 1918 as passagens segundo as quais Chile e Argentina conservariam língua e autonomia, enquanto o Sul do Brasil, Paraguai e Uruguai seriam espaços da cultura alemã e o alemão deveria tornar-se ali a língua nacional.
[5] RITZ-DEUTSCH, Ute. “Germans and Indians in Brazil: The Transatlantic Construction of Ethnic Identity”. In: KulturConfusão: On German-Brazilian Interculturalities. A autora situa Tannenberg entre publicistas alemães que enxergavam grande potencial para a influência germânica no Brasil e cita diretamente Gross-Deutschland, p. 266, para sua caracterização do Sul brasileiro como espaço de cultura alemã. O estudo mostra também a densidade de escolas, igrejas, associações e outras instituições alemãs existentes na região.
[6] KAISER WILHELM II. Discurso de despedida ao príncipe Heinrich, Kiel, 16 dez. 1897. Ao tratar da missão alemã na Ásia Oriental, Wilhelm II afirmou que ela representava a primeira manifestação do recém-unificado Império Alemão em suas “tarefas ultramarinas” (überseeischen Aufgaben) e declarou ser seu dever seguir a “nova Hansa alemã” e proporcionar-lhe a proteção que ela podia exigir do Reich e do Kaiser. Cf. FRANZIUS, Georg. Kiautschou: Deutschlands Erwerbung in Ostasien. Berlin, 1898, reprodução do discurso. Cf. também KAISER WILHELM II. Discurso à Norddeutscher Regatta-Verein, 1901. O imperador declarou que a Alemanha havia conquistado um “lugar ao sol”, que sua tarefa seria conservá-lo e que a “nova Hansa” deveria procurar e adquirir novos mercados; como chefe do Reich, saudou os hanseáticos que buscassem novos pontos no exterior para a projeção alemã. Uma reprodução contemporânea registra: “unsere neue Hanse wird Bahnen ziehen, die ihr neue Absatzgebiete erkämpfen und erwerben”.
[7] A tradução francesa apareceu em 1916: TANNENBERG, Otto Richard. Le rêve allemand! La plus grande Allemagne: l’œuvre du XXe siècle. Tradução e prefácio de Maurice Millioud. Lausanne/Paris: Payot, 1916, 338 p. A obra tornou-se importante na literatura aliada sobre o pangermanismo durante a Primeira Guerra Mundial.
[8] A imprensa brasileira já relacionava Gross-Deutschland ao debate sobre o Sul do Brasil em 1915, mencionando expressamente o mapa existente na p. 255 da obra. O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro conserva ainda o documento A Maior Alemanha e a América do Sul. Comentário sobre o livro “Gross-Deutschland”, de Otto Richard Tannenberg, acompanhado de cópia do capítulo O povo alemão e a luta pelo império do mundo.
