Hoje, grande parte do legado deixado pelos imigrantes alemães e por seus descendentes é apresentada como contribuição alemã à cultura brasileira. Escolas, associações, igrejas, imprensa, empresas, arquitetura, festas, costumes, música e formas de organização comunitária são frequentemente incorporadas a uma narrativa positiva sobre a diversidade cultural e o desenvolvimento do Brasil.

Mas essa interpretação parte do resultado histórico, não necessariamente da intenção original.
Uma parcela importante dessas estruturas não foi criada, em primeiro lugar, para enriquecer deliberadamente uma cultura brasileira comum. Muitas nasceram das necessidades concretas dos próprios imigrantes: educar os filhos, praticar sua religião, obter informação, organizar ajuda mútua, desenvolver atividades econômicas e preservar formas conhecidas de convivência comunitária. Ao mesmo tempo, língua, escola, igreja, imprensa, empresas e associações tornaram-se instrumentos fundamentais para preservar, reproduzir e fortalecer aquilo que era entendido como alemão dentro do Brasil. Organizações, igrejas e instituições sediadas na Alemanha passaram a apoiar e utilizar essas estruturas precisamente para conservar o Deutschtum – a germanidade – entre os emigrantes e seus descendentes.¹
Essa diferença muda profundamente a leitura dessa história.
Aquilo que hoje aparece como contribuição à cultura brasileira foi, em muitos casos, construído originalmente para assegurar a continuidade de um mundo alemão no Brasil. E, em determinados círculos nacionalistas, colonialistas, econômicos e diplomáticos alemães, esse objetivo foi ainda mais longe: a população de origem alemã no Sul do Brasil passou a ser vista como base potencial para ampliar a influência econômica, cultural e política alemã na América do Sul e, em algumas concepções, para a formação de uma Neudeutschland, uma “Nova Alemanha”.²
O projeto político não se realizou. O Sul permaneceu brasileiro. Mas muitas das estruturas construídas para preservar e fortalecer a germanidade permaneceram, transformaram-se e, ao longo das gerações, foram incorporadas ao próprio patrimônio cultural brasileiro.
É justamente essa transformação – de estruturas originalmente destinadas à conservação de um mundo alemão em elementos hoje celebrados como contribuição ao Brasil – que precisa ser compreendida para que essa parte da história seja contada por inteiro.
A parte visível e a parte submersa
A imagem de um iceberg ajuda a compreender essa diferença.
Acima da superfície encontra-se aquilo que hoje é facilmente reconhecido: cidades marcadas pela imigração alemã, arquitetura, festas, gastronomia, música, associações, escolas históricas, empresas, tradições familiares e inúmeras outras manifestações incorporadas à cultura brasileira. É essa parte que aparece com frequência nas celebrações da imigração e nas narrativas sobre a contribuição alemã para o Brasil.
Abaixo da superfície, porém, encontra-se uma história muito menos conhecida.
Ali estão as razões pelas quais muitas dessas instituições foram mantidas e desenvolvidas, as organizações que as apoiaram, as redes que as conectavam à Alemanha, os interesses econômicos associados a elas e as concepções de pertencimento que pretendiam preservar.
A historiografia mostra que esse universo não se limitava à iniciativa espontânea das famílias. A partir do século XIX formou-se um amplo campo de atores interessado na população alemã do Sul do Brasil. Igrejas, associações, professores, pastores, publicistas, organizações coloniais, entidades dedicadas aos alemães no exterior, empresários e, em determinados momentos, órgãos do próprio Estado alemão envolveram-se naquilo que passou a ser chamado de Deutschtumsarbeit – literalmente, “trabalho em favor da germanidade”.³
Escolas e igrejas ocupavam posição particularmente importante. A escola era considerada, juntamente com a igreja, um dos principais instrumentos da política de preservação do Deutschtum. Isso não significa que as primeiras escolas comunitárias tivessem surgido como instrumentos de uma política imperial alemã: muitas haviam sido fundadas pelos próprios imigrantes, por iniciativa local e às próprias custas. Com o tempo, porém, parte desse sistema escolar recebeu professores, livros, material didático e recursos provenientes da Alemanha, e instituições alemãs passaram a considerá-lo estratégico para a continuidade da germanidade no exterior.⁴
A dimensão alcançada por esse sistema é reveladora. Em 1914, das aproximadamente 900 escolas alemãs existentes no exterior em todo o mundo, cerca de 600 encontravam-se no Brasil. Igrejas, associações e imprensa complementavam essa infraestrutura. A Alemanha forneceu apoio financeiro a escolas e utilizou crescentemente a política cultural como instrumento de influência internacional.⁵
Não se tratava, portanto, apenas de famílias preservando privadamente algumas tradições.
Havia uma infraestrutura organizada de continuidade cultural.
Ao mesmo tempo, é fundamental não transformar toda a população de origem alemã num bloco homogêneo. Os imigrantes e seus descendentes possuíam interesses, religiões, posições políticas e identidades diferentes. Muitos resistiram às expectativas formuladas por atores da Alemanha e desenvolveram identidades propriamente teuto-brasileiras. A própria pesquisa histórica mostra que as tentativas de transformar essas populações em “alemães” idealizados e utilizá-las integralmente para objetivos alemães encontraram conflitos, apropriações locais, transformações e resistência.⁶
É justamente por isso que a dimensão do iceberg não deve ser procurada numa suposta conspiração coletiva dos imigrantes.
Ela se encontra sobretudo na estrutura de ideias, organizações, redes e interesses que se formou em torno deles.
Alguns desses grupos eram numericamente pequenos. Isso, porém, não significa que sua importância fosse igualmente pequena. Comerciantes, banqueiros, jornalistas, profissionais, professores, pastores, representantes de empresas, dirigentes associativos e diplomatas podiam exercer influência muito superior ao seu peso numérico. A questão histórica relevante não é, portanto, apenas quantas pessoas pertenciam a determinados círculos, mas quais instituições controlavam, quais recursos mobilizavam, com quem se relacionavam e quais objetivos procuravam alcançar.⁷
O imigrante não deveria simplesmente deixar de ser alemão
Um dos elementos fundamentais do Deutschtum no exterior era a resistência à ideia de que a emigração significasse necessariamente a perda da germanidade.
O indivíduo podia deixar a Alemanha – ou um dos Estados alemães antes de 1871 – sem que, nessa concepção, deixasse de pertencer ao universo alemão.
A preocupação com a assimilação tornou-se, por isso, central. Para os atores da Deutschtumspolitik, a adoção integral da língua, dos costumes e da identidade do país de imigração podia representar não apenas integração, mas uma perda para a comunidade alemã.
Escolas, igrejas, imprensa e associações adquiriram tamanha importância justamente porque permitiam transmitir língua, cultura, memória e pertencimento aos filhos e netos dos imigrantes, inclusive quando estes já haviam nascido no Brasil.
A historiografia é particularmente clara nesse ponto. Frederik Schulze demonstra que o argumento central em favor do Sul do Brasil como destino de emigrantes era a possibilidade de preservar ali o Deutschtum: os emigrados poderiam permanecer culturalmente alemães. Stefan Rinke mostra que, entre pangermanistas e expansionistas, os chamados Auslandsdeutsche chegaram a ser tratados como um recurso que deveria ser preservado da assimilação por sua possível utilidade para interesses imperiais alemães.⁸
Assim formava-se uma situação particular: uma pessoa podia ser juridicamente brasileira e, ao mesmo tempo, ser incluída por determinados atores alemães numa comunidade cultural ou étnica alemã que ultrapassava as fronteiras do Reich.
Esse princípio permitia conceber as comunidades de origem alemã no exterior não apenas como consequência da emigração, mas como extensões permanentes do Deutschtum fora da Alemanha.
E essa continuidade não possuía apenas valor cultural.
Do Deutschtum ao interesse econômico
A manutenção da germanidade também possuía um valor econômico muito concreto.
Comunidades que continuavam falando alemão, lendo jornais em alemão, frequentando instituições alemãs e mantendo relações com a Alemanha podiam permanecer mais próximas de produtos, empresas, comerciantes, bancos, companhias de navegação e outros interesses econômicos alemães.
A ligação entre emigração, preservação do Deutschtum e comércio exterior está documentada desde o século XIX.
Schulze mostra que a conservação da germanidade dos emigrados interessava precisamente porque dela se esperavam vantagens para o comércio exterior alemão. Em diferentes projetos, comunidades alemãs concentradas no exterior deveriam manter relações comerciais com a antiga pátria, consumir produtos alemães, favorecer a navegação alemã e abrir mercados para a indústria do país.⁹
A preservação cultural e o interesse econômico podiam, portanto, reforçar-se mutuamente.
Uma comunidade que continuava lendo em alemão, educando parte de seus filhos em instituições de língua alemã, mantendo contato com organizações alemãs e adquirindo produtos provenientes da Alemanha era mais do que uma comunidade de memória.
Ela podia constituir uma ponte econômica permanente com a Alemanha.
Rinke mostra igualmente que um dos principais argumentos utilizados para justificar a importância dos alemães no Brasil era justamente seu potencial como compradores de produtos e serviços alemães e como intermediários da presença do Império Alemão. Empresas, companhias de navegação, bancos e outras organizações econômicas passaram a integrar esse universo de interesses.¹⁰
No final do século XIX, essa relação ganhou importância adicional porque o recém-fundado Império Alemão procurava conquistar mercados e ampliar sua presença internacional.
O Sul do Brasil oferecia condições particularmente interessantes: uma população de origem alemã relativamente concentrada em determinadas regiões, instituições próprias, ligações econômicas já estabelecidas e a percepção, na Alemanha, de que ali a assimilação seria menos intensa do que nos Estados Unidos.
Foi nesse contexto que uma ideia ainda mais ambiciosa se desenvolveu.
Neudeutschland: uma “Nova Alemanha” no Sul do Brasil
Para alguns defensores da colonização e do nacionalismo alemão, preservar pequenas comunidades dispersas não era suficiente.
O ideal seria concentrar a emigração em determinadas regiões, permitindo que os emigrantes e seus descendentes permanecessem suficientemente numerosos para conservar língua, costumes, instituições e vínculos econômicos.
O Sul do Brasil tornou-se um dos principais espaços imaginados para esse propósito.
A ideia antecede inclusive a formação do Império Alemão. Durante o século XIX circularam projetos de concentração da emigração alemã que relacionavam colonização, conservação da nacionalidade e interesses comerciais. Aos poucos, o Sul do Brasil e particularmente o Rio Grande do Sul adquiriram um lugar central nessas concepções.¹¹
Em 1864, F. Epp publicou em Mannheim uma obra cujo título não deixa dúvida sobre a ideia que pretendia transmitir:
Rio Grande do Sul oder Neudeutschland – Rio Grande do Sul ou Nova Alemanha.
A obra existe e está preservada pela Bayerische Staatsbibliothek; sua publicação em Mannheim, por Franz Bender, em 1864, está documentalmente registrada. Na própria obra, Epp justificava a utilização do nome Neudeutschland para aquela região. A historiografia mostra ainda que ele apresentava o Rio Grande do Sul como possibilidade de uma nova pátria alemã no ultramar.¹²
A expressão Neudeutschland não designava simplesmente um local onde casualmente viviam muitos alemães.
Ela fazia parte de uma concepção segundo a qual a emigração poderia ser territorialmente concentrada de modo que os alemães não fossem absorvidos pela sociedade receptora, mas continuassem reproduzindo sua nacionalidade e sua germanidade durante gerações.
Schulze demonstra que o argumento era explícito: o Sul do Brasil poderia tornar-se um “novo Deutschland” porque os imigrantes permaneceriam alemães; isso, por sua vez, asseguraria influência alemã e mercados para produtos alemães.¹³
O projeto não desapareceu com a fundação do Império Alemão em 1871.
Pelo contrário: agora existia um Estado nacional poderoso por trás da germanidade espalhada pelo mundo.
No Congresso Colonial Alemão de 1902, chegou-se a aprovar uma resolução recomendando que a emigração alemã fosse direcionada aos territórios de clima temperado da América do Sul, especialmente ao Sul do Brasil, e que os emigrantes fossem concentrados nessas regiões. O Handbuch des Deutschtums im Auslande descrevia o Brasil como o principal território de emigração alemã da América do Sul.¹⁴
As concepções existentes variavam bastante. Muitos defendiam sobretudo influência econômica e cultural, não anexação territorial. Outros, porém, foram mais longe.
Projetos de uma Neudeutschland podiam incluir expectativas de obtenção de maioria populacional, influência sobre a política regional, predominância cultural e, nas formulações mais radicais, controle político.
Schulze documenta propostas nas quais uma imigração alemã organizada deveria alcançar gradualmente maioria e poder político. Ao mesmo tempo, sua pesquisa mostra que os projetos abertamente expansionistas constituíam apenas uma corrente do universo mais amplo da Deutschtumspolitik e enfrentavam resistência inclusive entre teuto-brasileiros.¹⁵
Essa diferenciação é essencial.
Não existiu um único projeto compartilhado por todos os alemães e descendentes no Brasil.
Mas existiram projetos.
E alguns deles chegaram muito além da preservação de língua e costumes.
Quando a “Nova Alemanha” chegou aos círculos oficiais
A dimensão política dessa história torna-se particularmente importante quando as ideias de Neudeutschland deixam de aparecer apenas em livros, associações ou círculos colonialistas e chegam também a representantes oficiais do Império Alemão.
O diplomata Rudolf Friedrich Le Maistre, representante alemão no Brasil, chegou a considerar a transformação progressiva do Sul brasileiro – particularmente do Rio Grande do Sul – num território alemão, uma brasilianisches Neudeutschland.
Sua concepção era ainda mais abrangente: caso o Império brasileiro viesse algum dia a se desintegrar, o território previamente germanizado poderia, segundo essa visão, acabar incorporado à Alemanha como uma colônia praticamente já constituída.¹⁶
A importância histórica desse documento é difícil de minimizar.
Ele mostra que considerações de anexação do Sul brasileiro chegaram a círculos oficiais alemães.
Mas também é necessário registrar o que ocorreu em seguida: Bismarck não aceitou essa ideia. Horst Gründer documenta tanto as considerações de Le Maistre quanto a reação negativa do chanceler e observa que a política oficial rejeitou projetos dessa natureza.¹⁶
Portanto, afirmar a existência dessas propostas não significa afirmar que o Império Alemão tenha adotado uma política contínua e operacional destinada a anexar o Sul do Brasil.
Essa distinção fortalece, e não enfraquece, a conclusão histórica.
Porque a ausência de uma política formal de anexação não eliminou outros instrumentos de influência.
Na virada do século, o próprio Ministério das Relações Exteriores alemão examinou se uma forma mais intensa de controle indireto sobre o Sul do Brasil seria viável. Rinke destaca ao mesmo tempo que os pangermanistas e nacionalistas radicais nunca dominaram a política externa alemã. Sua pressão, entretanto, repercutiu na diplomacia.¹⁷
É justamente aqui que a diferença entre domínio territorial e influência informal se torna decisiva.
Não era necessário transformar o Rio Grande do Sul numa colônia formal para que comunidades, instituições, escolas, imprensa, comércio, bancos, empresas e redes de origem alemã fossem consideradas úteis à projeção dos interesses alemães.
Schulze resume essa lógica de maneira particularmente clara em sua investigação: redes coloniais procuravam conservar os emigrados para a “nação” com o objetivo de garantir influência informal e vantagens comerciais; igrejas e escolas reforçavam essa Deutschtumsarbeit.¹⁸
Essa constatação leva de volta ao ponto de partida deste artigo.
O resultado foi brasileiro – mas essa não era necessariamente a finalidade original
A Neudeutschland não se tornou realidade.
O Sul permaneceu parte do Brasil. Os imigrantes e seus descendentes passaram por processos complexos de integração, adaptação, conflito e construção de novas identidades. Muitos desenvolveram formas de pertencimento teuto-brasileiro que não correspondiam às expectativas daqueles que, na Alemanha, pretendiam mantê-los como membros de uma comunidade alemã transnacional.
As estruturas, entretanto, não desapareceram automaticamente quando os projetos que lhes atribuíam determinados significados políticos fracassaram.
Escolas deixaram marcas. Associações sobreviveram ou foram reorganizadas. Empresas permaneceram. Igrejas continuaram suas atividades. Arquitetura, culinária, música, festas, tradições, memórias e formas de sociabilidade foram transmitidas e transformadas.
Ao longo das gerações, muitos desses elementos passaram a integrar novas identidades teuto-brasileiras e, finalmente, o patrimônio cultural brasileiro. A historiografia sobre o período posterior à Segunda Guerra Mundial mostra precisamente processos de reformulação da germanidade e das identidades teuto-brasileiras dentro de novos contextos nacionais.¹⁹
Essa transformação não torna ilegítimo chamar o resultado de “contribuição alemã ao Brasil”.
O resultado é real.
O problema surge quando o resultado posterior é projetado retrospectivamente sobre o passado e passa a substituir a investigação das finalidades originais.
Uma escola criada para manter crianças de origem alemã dentro da língua e da cultura alemãs pode, cem anos depois, fazer parte da história da educação brasileira.
Uma associação criada para preservar o Deutschtum pode tornar-se parte do patrimônio associativo de uma cidade brasileira.
Uma tradição mantida para impedir a assimilação pode, gerações depois, ser celebrada como expressão da diversidade cultural do Brasil.
Uma empresa fundada dentro de redes comerciais de origem alemã pode tornar-se parte da economia brasileira.
Nada disso é contraditório.
Mas resultado histórico e intenção original são duas coisas diferentes.
Por isso, dizer hoje que determinadas instituições, atividades e tradições constituem uma contribuição dos imigrantes alemães ao Brasil pode ser correto quanto ao resultado. Não significa, porém, que tenham sido necessariamente concebidas como uma contribuição voluntária à construção de uma cultura brasileira comum.
Em muitos casos ocorreu algo historicamente mais complexo: o Brasil acabou incorporando ao seu próprio patrimônio estruturas e manifestações que haviam sido criadas ou mantidas originalmente para preservar a germanidade e evitar sua dissolução pela assimilação.
E, para determinados atores, essa preservação tinha uma finalidade ainda maior: manter os emigrantes úteis à Alemanha, ampliar mercados e influência e, nas concepções mais ambiciosas, contribuir para a formação de uma Neudeutschland no Sul do Brasil.
O que hoje vemos acima da superfície do iceberg – festas, arquitetura, associações, costumes, instituições, empresas e tradições – é real.
Mas não é a história inteira.
A parte submersa revela por que muitas dessas estruturas foram construídas, quem procurou fortalecê-las, quais interesses foram associados a elas e até onde chegaram algumas das ambições formuladas em torno da presença alemã no Brasil.
É essa parte que permite compreender por que a contribuição dos imigrantes alemães ao Brasil foi, em muitos casos, originalmente não concebida para o Brasil, mas para a preservação e o fortalecimento do próprio Deutschtum no Brasil.
Referências bibliográficas
¹ SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt: „Deutschtum“ und Kolonialdiskurse im südlichen Brasilien (1824–1941). Köln/Weimar/Wien: Böhlau, 2016, especialmente p. 14–17, 87–90 e 289–305. Schulze demonstra que a Deutschtumsarbeit constituía um projeto desenvolvido por redes de atores e instituições, embora numerosas estruturas comunitárias – particularmente escolas – tivessem inicialmente surgido por iniciativa dos próprios imigrantes. O ponto historiograficamente importante é distinguir origem comunitária de posterior instrumentalização e apoio institucional para a preservação da germanidade.
² SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt, especialmente p. 105–126; RINKE, Stefan. “Germany and Brazil, 1870–1945: A Relationship between Spaces”. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 20, n. 2, 2013, p. 653–673, especialmente p. 656–657. Schulze dedica um capítulo específico ao Rio Grande do Sul como “colônia substituta” alemã, ao comércio exterior e à influência política; Rinke mostra como emigrantes e descendentes foram percebidos por círculos expansionistas como recursos potenciais para interesses alemães.
³ SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt, p. 14–17, 46–104. Segundo o autor, um conjunto heterogêneo e transnacional de atores — associações, igrejas, publicistas, professores, pastores e instituições estatais — participou da produção e execução da Deutschtumspolitik no Rio Grande do Sul. Sua pesquisa baseia-se, entre outras fontes, no Bundesarchiv, no Politisches Archiv des Auswärtigen Amts e em arquivos eclesiásticos alemães e brasileiros.
⁴ SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt, p. 87–90. Schulze caracteriza a atividade escolar, juntamente com a atividade eclesiástica, como um dos instrumentos mais importantes da Deutschtumspolitik. Ressalta, entretanto, que as primeiras escolas comunitárias haviam sido criadas autonomamente pelos imigrantes e que tipos de escolas, mantenedores e materiais variavam consideravelmente. Instituições alemãs passaram posteriormente a enviar recursos, professores, livros e materiais.
⁵ RINKE, Stefan. “Germany and Brazil, 1870–1945”, p. 656–657. Rinke registra que, das aproximadamente 900 escolas alemãs existentes mundialmente em 1914, cerca de 600 se encontravam no Brasil; escolas e igrejas eram consideradas instrumentos centrais para sustentar a germanidade, e as escolas receberam apoio financeiro alemão. SCHULZE, Auswanderung als nationalistisches Projekt, p. 87–90, documenta igualmente a expansão do sistema escolar e o apoio proveniente da Alemanha.
⁶ SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt, p. 14–17 e 342–349; id. “‘Auslandsdeutschtum’ in Brazil (1919–1941): Global Discourses and Local Histories”. German History, v. 33, n. 3, 2015, p. 405–422. Schulze enfatiza a heterogeneidade dos emigrantes, os conflitos com os atores da Deutschtumsarbeit e o fracasso das tentativas de transformá-los integralmente em “alemães” idealizados utilizáveis para objetivos coloniais alemães.
⁷ RINKE, Stefan. “Germany and Brazil, 1870–1945”, especialmente p. 655–657. Rinke chama atenção para grupos numericamente pequenos de comerciantes, banqueiros, jornalistas, militares e especialistas cuja importância qualitativa decorria da influência exercida sobre elites e instituições brasileiras.
⁸ SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt, especialmente p. 111–114 e 192–204; RINKE, Stefan. “Germany and Brazil, 1870–1945”, p. 656–657. Schulze demonstra que a possibilidade de conservação do Deutschtum era um argumento central para direcionar a emigração ao Sul do Brasil; Rinke registra que expansionistas viam os Auslandsdeutsche como pessoas que deveriam ser preservadas da assimilação por sua potencial utilidade para ambições imperiais.
⁹ SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt, p. 121–124. O autor demonstra a ligação direta, formulada desde o século XIX, entre concentração da emigração, conservação do Deutschtum e comércio exterior. Em diferentes textos, emigrantes eram imaginados como consumidores duradouros das exportações alemãs e como meios para abertura e consolidação de mercados.
¹⁰ RINKE, Stefan. “Germany and Brazil, 1870–1945”, p. 655–657. Rinke analisa a expansão de casas comerciais, bancos, companhias de navegação e empresas alemãs e registra que o potencial dos alemães no Brasil como compradores de produtos e serviços e intermediários do Império era apresentado como argumento para sua importância.
¹¹ SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt, p. 105–114; GRÜNDER, Horst. Geschichte der deutschen Kolonien. 8., aktualisierte Auflage. Paderborn: Brill | Schöningh, 2023, p. 17–24, 109–119. Gründer situa já nas décadas de 1840 e seguintes projetos de Neudeutschland e mostra como Sul do Brasil e região do Prata se tornaram centros de projetos de emigração, comércio e expansão alemã.
¹² EPP, F. Rio Grande do Sul oder Neudeutschland. Mannheim: Franz Bender, 1864, especialmente p. III; SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt, p. 51–52 e 112–113. O exemplar digitalizado pela Bayerische Staatsbibliothek confirma título, autor, local, editora e ano da publicação. Schulze registra que Epp considerava justificável aplicar o nome Neudeutschland ao Rio Grande do Sul e o apresentava como uma nova pátria alemã.
¹³ SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt, p. 111–114. O autor sintetiza o argumento dos discursos coloniais: no Sul do Brasil os emigrados poderiam permanecer “alemães”; essa conservação asseguraria influência alemã e mercados para produtos alemães.
¹⁴ SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt, p. 111–112. O Congresso Colonial Alemão de 1902 aprovou resolução defendendo o direcionamento da emigração alemã para regiões temperadas da América do Sul, especialmente o Sul do Brasil, e sua concentração nessas áreas; o Handbuch des Deutschtums im Auslandeposteriormente descreveu o Brasil como principal região de emigração alemã na América do Sul.
¹⁵ SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt, p. 124–126. O autor documenta propostas que ligavam imigração organizada, obtenção de maioria e poder político, mas ressalta que as correntes radicalmente expansionistas não representavam todo o campo da Deutschtumspolitik e enfrentavam oposição.
¹⁶ GRÜNDER, Horst. Geschichte der deutschen Kolonien. 8. ed. Paderborn: Brill | Schöningh, 2023, p. 117–119; HELL, Jürgen. Die Politik des Deutschen Reiches zur Umwandlung Südbrasiliens in ein überseeisches Neudeutschland (1890–1914). Dissertation, Universität Rostock, 1966, p. 66. Gründer documenta que as considerações de anexação chegaram a círculos oficiais e reproduz o projeto do enviado alemão Le Maistre de transformar gradualmente o Sul — especialmente o Rio Grande do Sul — num território alemão, uma brasilianisches Neudeutschland. O mesmo trecho registra a reação negativa de Bismarck e a rejeição oficial a projetos de anexação.
¹⁷ RINKE, Stefan. “Germany and Brazil, 1870–1945”, p. 656–657. Rinke ressalta que pangermanistas e nacionalistas radicais não dominaram a política externa alemã, mas exerceram pressão sobre a diplomacia; na virada do século, o Ministério das Relações Exteriores alemão examinou a viabilidade de uma forma mais forte de controle indireto sobre o Sul do Brasil.
¹⁸ SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt, p. 14–15. Na formulação central de sua investigação, Schulze mostra que redes coloniais procuravam conservar os emigrados para a “nação” a fim de garantir influência informal e vantagens comerciais; a preservação do Deutschtum era reforçada por práticas institucionais, especialmente igrejas e escolas.
¹⁹ GOODMAN, Glen S. “The Enduring Politics of German-Brazilian Ethnicity”. German History, v. 33, n. 3, 2015, p. 423–438. Sobre a transformação e reformulação das identidades alemã e teuto-brasileira no período posterior à Segunda Guerra Mundial; cf. também SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt, especialmente a análise das identidades híbridas e da emancipação dos teuto-brasileiros em relação às expectativas formuladas na Alemanha, p. 232–255.
