Quem caminha pelo núcleo antigo de Schwanheim, hoje um bairro de Frankfurt am Main, encontra uma paisagem que parece imediatamente “alemã”: pequenas ruas, telhados inclinados e casas com vigas de madeira aparentes formando desenhos geométricos sobre paredes claras. É a arquitetura conhecida na Alemanha como Fachwerk e no Brasil como enxaimel.
A associação é quase automática. Vemos uma dessas casas e pensamos: arquitetura alemã.
Mas historicamente a questão é mais complexa – e justamente por isso muito mais interessante.
As casas de Fachwerk que ainda sobrevivem em Schwanheim foram construídas, em grande parte, séculos antes da formação do Estado nacional alemão de 1871 e antes da consolidação daquela germanidade coletiva moderna que posteriormente seria designada e cultivada como Deutschtum.
O que vemos hoje como “alemão” não necessariamente foi construído originalmente para expressar uma identidade nacional alemã.
A arquitetura veio primeiro.
Sua transformação em patrimônio representativo da germanidade veio depois.
Uma placa que reúne mais de mil anos de história

A placa existente em Schwanheim e reproduzida na fotografia acima oferece uma entrada particularmente interessante para essa história. Ela recorda a comemoração dos 1.100 anos da localidade em 1980 e remete à primeira menção documental de Schwanheim, em 880, numa carta do rei franco Ludwig der Jüngere – Luís, o Jovem – na qual o lugar aparece sob uma antiga forma de seu nome, Sueinheim.¹
Essa informação precisa ser compreendida dentro de seu próprio tempo.
O ano 880 não pertence à história de uma Alemanha nacional semelhante à Alemanha moderna. Estamos no mundo carolíngio, décadas depois da divisão do império de Carlos Magno. Existiam reinos, senhorios, instituições e populações que posteriormente seriam incorporados à narrativa da história alemã, mas seria anacrônico imaginar os habitantes daquele período como integrantes de uma Alemanha nacional já existente.
O mesmo cuidado é necessário ao olhar para as casas de Fachwerk de Schwanheim.
Entre a primeira referência documental de 880 e muitas das construções hoje visíveis no antigo núcleo transcorreram aproximadamente sete ou oito séculos.
As casas que vemos pertencem sobretudo aos séculos XVII e XVIII
Schwanheim preserva construções particularmente importantes dos séculos XVII e XVIII. Já em 1888, ao estudar documentos municipais da localidade, Wilhelm Kobelt chamou atenção para uma casa que apresentava em uma viga a data 1619.² A própria cidade de Frankfurt identifica atualmente na Vierhäusergasse um importante conjunto histórico e destaca a casa de número 10, construída em 1657, com ampliação de 1806, como exemplo do Fachwerk barroco da região.³
Essas datas são fundamentais.
A casa de 1619 surgiu justamente no início da Guerra dos Trinta Anos. A história oficial de Schwanheim registra que a localidade sofreu duramente durante o conflito de 1618–1648. A casa de 1657 pertence, portanto, ao período imediatamente posterior à grande devastação.⁴
Não estamos diante de edificações produzidas no Império Alemão de Bismarck.
Não estamos sequer diante de construções pertencentes a um Estado denominado Alemanha.
Naquele período, Schwanheim estava sob domínio do Arcebispado de Mainz, dentro da complexa estrutura política do Sacro Império Romano. Somente em 1803 passou para o território que viria a integrar o Ducado de Nassau; em 1866 tornou-se prussiana; e apenas em 1928 foi incorporada à cidade de Frankfurt am Main.⁵
As casas sobreviveram a todos esses sistemas políticos.
O Fachwerk é ainda mais antigo
Também a própria técnica construtiva é muito anterior às casas de Schwanheim.
O Fachwerk consiste essencialmente numa estrutura portante de madeira, cujos espaços intermediários – os Gefache – são preenchidos por materiais como barro, alvenaria ou tijolos. As construções em estrutura de madeira possuem longa história europeia; os mais antigos edifícios de Fachwerk ainda conservados em pé na Alemanha e em outras partes da Europa remontam à segunda metade do século XIII.⁶
Na Alemanha, o período entre aproximadamente os séculos XIV e XVII constituiu uma época particularmente importante para essa técnica. As formas construtivas foram sendo aperfeiçoadas, e elementos inicialmente estruturais passaram também a receber funções decorativas. No início da Idade Moderna aparecem com maior frequência cruzes, losangos, vigas curvas e outros elementos ornamentais.⁷
É exatamente nesse longo desenvolvimento técnico e artesanal que as casas antigas de Schwanheim devem ser inicialmente compreendidas.
Elas foram construídas porque a madeira era um material disponível, porque artesãos dominavam determinada técnica, porque ela correspondia às necessidades econômicas e habitacionais da população e porque determinadas formas regionais de construção haviam se desenvolvido ao longo de gerações.
Elas não foram originalmente concebidas como manifesto nacional alemão.
O que era então “alemão” nessas casas?
Isso não significa que não existissem língua alemã, referências culturais comuns ou alguma consciência de pertencimento entre populações germanófonas antes do século XIX.
Significa algo mais preciso: não se deve projetar retroativamente sobre o século XVII a concepção nacional de Deutschtum que se consolidaria muito mais tarde.
O proprietário de uma casa de Schwanheim em 1657 podia compreender-se por meio de inúmeros pertencimentos simultâneos: família, aldeia, religião, território, senhorio, profissão, região e língua.
Schwanheim, por exemplo, permaneceu católica devido à sua vinculação ao território de Mainz. A localidade possuía uma história política diferente daquela da vizinha Frankfurt, apesar da proximidade geográfica.
Por isso, dizer simplesmente que alguém construía uma “casa alemã” em 1657 elimina grande parte da realidade histórica.
Seria mais correto dizer que construía uma casa pertencente a uma tradição construtiva regional existente em territórios de língua alemã e em outras regiões da Europa Central.
A transformação dessa arquitetura em símbolo especificamente nacional é uma história posterior.
O século XIX mudou o significado do passado
É no século XIX que ocorre uma transformação decisiva.
Depois da Revolução Francesa, das guerras napoleônicas e do desaparecimento do Sacro Império em 1806, intensificou-se entre intelectuais e segmentos da burguesia a busca por aquilo que poderia definir uma cultura alemã comum. A ideia de uma Kulturnation, uma comunidade ligada por língua, história e cultura mesmo antes da existência de um Estado alemão unificado, adquiriu importância crescente.⁸
Nesse processo, o passado foi reinterpretado.
Construções antigas passaram a ser observadas não somente como edifícios pertencentes a determinada cidade, principado ou região, mas também como testemunhos de uma suposta continuidade histórica da nação.
Isso aconteceu de maneira particularmente clara com a arquitetura medieval. A própria arquitetura gótica, embora possuísse origens francesas, chegou a ser estilizada durante o século XIX como uma “deutsche Bauweise” – uma maneira alemã de construir. O passado arquitetônico tornou-se material para a construção simbólica da nação.⁹
O Fachwerk foi progressivamente submetido a processo semelhante.
Quando se começou a procurar o “alemão” dentro do Fachwerk
Há um detalhe particularmente revelador.
A pesquisa sistemática sobre a arquitetura Fachwerk começou justamente em meados do século XIX, isto é, durante o mesmo período no qual se intensificavam a formação da consciência nacional e a busca por características especificamente alemãs.
Arquitetos e pesquisadores passaram a classificar o Fachwerk em categorias como “niedersächsisch”, “fränkisch” e “alemannisch” – baixo-saxão, franco e alemânico. Pesquisas posteriores mostraram que muitas dessas classificações étnico-geográficas eram excessivamente simplificadoras. A Denkmalstiftung Baden-Württemberg observa expressamente que essa interpretação baseada em supostas tradições tribais evoluiu posteriormente para uma maneira de pensar völkisch, alcançando seu ponto extremo durante o nacional-socialismo.¹⁰
Isso é extremamente importante para compreender a relação entre arquitetura e Deutschtum.
O edifício do século XVII não mudou. O olhar lançado sobre ele mudou.
As mesmas vigas que haviam sido colocadas por carpinteiros para construir uma residência passaram, séculos depois, a ser interpretadas como expressão de uma determinada comunidade histórica alemã.
A arquitetura transformou-se em portadora de identidade.
Heimat, Volkstum e arquitetura
Por volta de 1900, essa relação entre construção, território, tradição e pertencimento tornou-se ainda mais explícita com a Heimatschutzbewegung.
O movimento não pretendia apenas conservar grandes monumentos. Ele valorizava também casas tradicionais, paisagens, formas regionais de construção, costumes, artesanato e outras expressões daquilo que era entendido como Heimat e Volkstum.
Pesquisas recentes sobre a arquitetura do Heimatschutz mostram como parte desse pensamento procurou conscientemente relacionar formas arquitetônicas à preservação de uma identidade coletiva alemã. Em algumas de suas vertentes, chegou-se a conceber uma verdadeira “germanização da arquitetura”.¹¹
Aqui a ligação com o Deutschtum torna-se muito mais direta.
Aquilo que havia surgido séculos antes como técnica construtiva regional passava agora a ser preservado, classificado, valorizado e reproduzido porque era percebido como parte de uma herança alemã.
Esse mecanismo é típico do Deutschtum: não é necessário que determinado objeto tenha sido originalmente criado para expressar uma identidade alemã. Ele pode posteriormente ser incorporado ao conjunto das coisas percebidas como alemãs e, por isso, tornar-se objeto de preservação, valorização e continuidade.
Schwanheim oferece um exemplo quase perfeito dessa transformação
A própria história recente de Schwanheim permite observar esse processo.
Em 1979, uma casa situada na Martinskirchstraße, junto à confluência com Alt-Schwanheim, foi restaurada e seu Fachwerk novamente exposto. Em 1980, Schwanheim celebrou oficialmente seus 1.100 anos de existência. Em 1982, o antigo Schützenhof ou Zehnthof, construção do século XVII em Alt-Schwanheim 12, apareceu novamente restaurado.¹²
Esses acontecimentos estão separados por apenas três anos.
Não são a construção original da paisagem histórica.
São atos modernos de preservação da paisagem histórica.
A placa mostrada na fotografia pertence precisamente a esse universo de memória. Ela conecta a Schwanheim contemporânea ao ano 880, à monarquia franca e a mais de mil anos de continuidade local.
As casas restauradas fazem algo semelhante por meio da arquitetura.
Elas tornam o passado visível no presente.
Não foram construídas em 1980, mas foi a sociedade contemporânea que decidiu recordá-las, restaurá-las, expor novamente suas vigas e apresentá-las como patrimônio digno de continuidade.
É nessa escolha que a relação com o Deutschtum se torna especialmente interessante.
O Deutschtum não construiu originalmente essas casas – mas pôde incorporá-las
Portanto, é necessário distinguir três momentos históricos.
Primeiro: surge a técnica construtiva. O Fachwerk desenvolve-se durante muitos séculos como solução arquitetônica e artesanal.
Segundo: casas como as de Schwanheim são construídas, sobretudo nos séculos XVII e XVIII, dentro de uma sociedade local, rural, territorialmente fragmentada e muito anterior ao Estado nacional alemão.
Terceiro: a partir do século XIX, o processo de formação nacional passa a reinterpretar partes desse passado como elementos de uma história, uma cultura e uma identidade alemãs comuns.
É principalmente nesse terceiro momento que o Fachwerk passa a integrar o universo simbólico do Deutschtum.
A casa antiga deixa de ser apenas uma casa velha de Schwanheim.
Ela transforma-se também em:
deutsche Baukultur,
deutsches Kulturerbe,
deutsche Tradition,
Heimat.
Em outras palavras: torna-se algo que deve ser identificado como alemão, valorizado como alemão e preservado porque é percebido como parte da continuidade alemã.
Quando o passado material entra no “nós”
É justamente aqui que a arquitetura ajuda a compreender algo essencial sobre o Deutschtum.
O Deutschtum não consiste apenas em uma pessoa dizer “sou alemão”.
Ele pode manifestar-se também na apropriação coletiva do passado:
nossas casas, nossos artesãos, nossas cidades, nossa arquitetura, nossas tradições, nossa história.
O objeto material passa a integrar o Wir.
Não porque as vigas possuam nacionalidade, mas porque uma coletividade passa a reconhecê-las como parte de seu próprio patrimônio.
É por isso que essas casas continuam produzindo uma reação imediata no observador contemporâneo.
Vemos o Fachwerk e pensamos na Alemanha.
Mas a história mostra que devemos formular a relação de maneira inversa:
essas construções não nasceram necessariamente como expressão do Deutschtum. Foi o desenvolvimento histórico do pertencimento alemão que ajudou a transformá-las em símbolos da germanidade.
A arquitetura permaneceu.
Seu significado mudou.
E talvez seja justamente essa capacidade de incorporar elementos antigos, preservá-los e transmiti-los como partes de uma continuidade coletiva que constitui uma das manifestações mais visíveis do próprio Deutschtum.
Notas
1. Hessisches Landesamt für geschichtliche Landeskunde, Historisches Ortslexikon: Schwanheim. A fonte registra a primeira menção em 880 sob a forma Sueinheim e informa que Ludwig der Jüngere confirmou uma transferência anterior de propriedades e direitos ligados à igreja local. A cidade de Frankfurt igualmente registra 880 como a primeira menção documental de Schwanheim.
2. Wilhelm Kobelt, “Beiträge zur Geschichte des Kreises Höchst. I. Schwanheim im XVII. Jahrhundert”, Annalen des Vereins für Nassauische Altertumskunde und Geschichtsforschung, Bd. 20, 1888, p. 97. Kobelt menciona expressamente uma casa de Schwanheim com a data 1619 inscrita numa viga.
3. Stadt Frankfurt am Main, “Vierhäusergasse”. A cidade data o imóvel da Vierhäusergasse 10 em 1657, com ampliação em 1806, e descreve sua estrutura como hessisch-fränkisches Fachwerk.
4. Stadt Frankfurt am Main, Chronik von Schwanheim. A cronologia registra a destruição sofrida por Schwanheim durante a Guerra dos Trinta Anos, 1618–1648.
5. Stadt Frankfurt am Main, Chronik von Schwanheim: domínio de Mainz; passagem para Nassau em 1803; incorporação ao território prussiano em 1866; integração a Frankfurt em 1928.
6. Michael Goer, “Fachwerk”, Denkmalstiftung Baden-Württemberg. Os edifícios de Fachwerk ainda existentes mais antigos na Alemanha e na Europa são datados da segunda metade do século XIII.
7. Freilichtmuseum Hessenpark, Kompetenzzentrum Fachwerk, “Geschichte Fachwerkbau in Deutschland”; Michael Goer, “Fachwerk”. As fontes descrevem o desenvolvimento das técnicas construtivas e ornamentais e situam uma fase particularmente importante do Fachwerk entre a Idade Média tardia e o século XVII.
8. Christine Bach, “Wie sich die deutsche Nation erfand”, Die Politische Meinung, Konrad-Adenauer-Stiftung, 2016; Peter Alter, “Nationalbewußtsein und Nationalstaat der Deutschen”, Aus Politik und Zeitgeschichte, Bundeszentrale für politische Bildung, 1986. Ambos situam a formação ampla da consciência nacional alemã moderna sobretudo no contexto dos séculos XVIII e XIX.
9. Christine Bach, op. cit. A autora mostra como, depois de 1800, o passado medieval foi incorporado à imaginação nacional alemã e como a arquitetura gótica chegou a ser estilizada como deutsche Bauweise.
10. Michael Goer, “Fachwerk”, Denkmalstiftung Baden-Württemberg. A pesquisa sobre Fachwerk a partir de meados do século XIX estabeleceu categorias como “niedersächsisch”, “fränkisch” e “alemannisch”; a fonte observa que a interpretação tribal-geográfica que sustentava essas classificações tornou-se posteriormente parte de concepções völkisch e é hoje considerada cientificamente insustentável em sua forma rígida.
11. Rainer Schmitz, Heimat. Volkstum. Architektur. Sondierungen zum volkstumsorientierten Bauen der Heimatschutz-Bewegung im Kontext der Moderne und des Nationalsozialismus, Bielefeld: transcript, 2022; Deutsche Forschungsgemeinschaft, resultados do projeto “Das Architekturprogramm der deutschen Heimatschutzbewegung”. A pesquisa demonstra as relações entre Volkstum, identidade coletiva e programas arquitetônicos da Heimatschutzbewegung em torno de 1900 e nas décadas seguintes.
12. Stadt Frankfurt am Main, Chronik von Schwanheim: exposição do Fachwerk de uma casa em 1979, comemoração dos 1.100 anos de Schwanheim em 1980 e restauração do Schützenhof/Zehnthof em 1982.
