
Quem percorre determinadas regiões do Sul do Brasil encontra casas de estrutura de madeira aparente, preenchida por tijolos ou outros materiais, imediatamente associadas à imigração alemã. No vocabulário brasileiro, a palavra enxaimeltornou-se tão fortemente relacionada à presença histórica alemã que, para grande parte dos observadores, uma casa desse tipo é simplesmente percebida como “arquitetura alemã”.
Essa associação não surgiu por acaso. Em Santa Catarina, o próprio Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional identifica a estrutura enxaimel entre as influências arquitetônicas introduzidas pelos imigrantes alemães instalados na região a partir do século XIX. O IPHAN incorporou dezenas de residências rurais, edifícios comerciais, escolas, instituições e conjuntos urbanos e rurais vinculados à imigração ao patrimônio cultural brasileiro.¹
Mas a casa que hoje vemos não conta, sozinha, toda a história.
Ver a casa sem ver o mundo que existia ao seu redor
O visitante contemporâneo pode admirar uma construção enxaimel pela técnica, pela beleza da madeira, pelo telhado ou pela harmonia com a paisagem. Pode fotografá-la e concluir: “uma casa alemã”.
O que ele frequentemente não vê é que aquela construção originalmente não estava isolada.
Ela fazia parte de um ambiente social.
Ao redor da casa podiam existir famílias que falavam alemão ou dialetos de origem alemã, igrejas nas quais a comunidade se reunia, escolas que ensinavam em alemão, associações, clubes, sociedades de canto, organizações recreativas, comerciantes, redes familiares e profissionais e outras instituições através das quais uma comunidade reproduzia suas relações e transmitia sua cultura às gerações seguintes.
Em outras palavras: o enxaimel era apenas a parte materialmente visível de uma estrutura social muito maior.
A história de localidades catarinenses mostra essa conexão. O patrimônio reconhecido pelo IPHAN não é constituído apenas por casas, mas também por arquitetura religiosa, escolas, estabelecimentos comerciais, edifícios recreativos e institucionais e paisagens rurais vinculadas ao processo de imigração.² Em comunidades como São João do Oeste, a continuidade histórica chegou ao presente através da língua: o Hunsrückisch permanece no cotidiano, enquanto o alemão padrão é ensinado institucionalmente.³
É nesse contexto que a arquitetura pode ser relacionada ao Deutschtum.
Não porque vigas de madeira possuam identidade nacional, mas porque a casa foi construída, habitada e preservada dentro de um universo social no qual a origem, a língua, as relações comunitárias e a transmissão intergeracional do que era percebido como alemão possuíam importância.
A arquitetura pode sobreviver ao Deutschtum que a produziu
Aqui surge uma distinção essencial.
Patrimônio arquitetônico e continuidade cultural não são a mesma coisa.
Uma casa pode permanecer durante duzentos anos enquanto as pessoas, relações sociais, idiomas e formas de identificação existentes ao seu redor se transformam completamente.
O enxaimel pode, portanto, sobreviver ao ambiente de Deutschtum no qual determinada construção foi originalmente produzida.
Isso é particularmente importante para compreender o Brasil.
Uma pessoa pode atualmente comprar uma antiga casa enxaimel sem possuir ascendência alemã. Um edifício pode transformar-se em restaurante, pousada, museu ou atração turística. Uma comunidade pode preservar construções associadas à imigração alemã enquanto sua população se torna progressivamente mais heterogênea e integrada à sociedade brasileira.
A memória arquitetônica permanece.
O ambiente social original, entretanto, pode ter se transformado profundamente.
Por isso, olhar para uma casa enxaimel hoje não é suficiente para afirmar que existe ali Deutschtum vivo. A construção constitui evidência material de uma história. Para reconhecer continuidade social do Deutschtum, é necessário observar também as pessoas e suas relações: língua, memória, associações, redes familiares, mecanismos de pertencimento, instituições, transmissão intergeracional e a importância ainda atribuída ao caráter alemão dessas estruturas.
Pomerode oferece um exemplo interessante porque, ali, a ligação entre ambos ainda é particularmente visível. O IPHAN descreve a paisagem local como marcada pelas tradições alemãs materializadas na arquitetura enxaimel e registra também a continuidade de língua, culinária, artesanato, celebrações e técnicas construtivas.⁴ Nesse caso, não encontramos apenas paredes antigas: encontramos elementos materiais e imateriais que continuam relacionados.
Na Alemanha, a leitura da paisagem era diferente
Na própria Alemanha, naturalmente, o Fachwerk possui uma história muito anterior à imigração alemã para o Brasil. É uma forma construtiva secular, desenvolvida regionalmente de maneiras distintas e ainda extremamente presente em cidades e aldeias. O Freilichtmuseum Hessenpark observa que essas construções continuam marcando muitas regiões e constituindo parte importante da identidade local de cidades e povoados.⁵ A Deutsche Fachwerkstraße estima em mais de 2,5 milhões o número de edifícios em Fachwerk existentes no país.⁶
Também seria historicamente incorreto transformar o Fachwerk numa espécie de arquitetura etnicamente alemã exclusiva. Técnicas de construção em estrutura de madeira existiram em diversas regiões europeias, e até a tradicional classificação alemã entre formas “niedersächsisch”, “fränkisch” e “alemannisch” foi posteriormente revista pela pesquisa arquitetônica por suas simplificações de caráter étnico-geográfico.⁷
A relação com o Deutschtum deve, portanto, ser procurada em outro lugar.
Durante muito tempo, sobretudo em pequenas localidades alemãs caracterizadas por grande continuidade populacional, havia uma correspondência maior entre paisagem construída e paisagem humana.
Casas antigas permaneciam nas mesmas localidades; famílias podiam estar estabelecidas na região havia várias gerações; dialetos continuavam presentes; igrejas, associações, festas locais, empresas familiares e relações de vizinhança transmitiam vínculos de uma geração para outra.
Nesse contexto, entrar numa pequena localidade formada por casas tradicionais de Fachwerk podia significar entrar não apenas numa paisagem arquitetonicamente alemã, mas num meio social alemão historicamente contínuo.
O Deutschtum não estava no edifício isoladamente.
Estava na combinação entre casa, família, língua, memória, associação, comunidade, pertencimento e continuidade.
Era essa combinação que permitia ao observador reconhecer algo que uma fotografia da fachada, isoladamente, não consegue transmitir.
Quando a paisagem e a população deixam de contar exatamente a mesma história
Essa correspondência tornou-se progressivamente menos automática.
A transformação não começou em 2015. A Alemanha Ocidental já experimentava imigração em grande escala desde os acordos de recrutamento de trabalhadores estrangeiros iniciados em 1955. Entre o final dos anos 1950 e 1973, milhões de trabalhadores estrangeiros chegaram à República Federal; muitos permaneceram e posteriormente trouxeram suas famílias. Nas décadas seguintes vieram outras formas de imigração, incluindo refugiados, requerentes de asilo e Aussiedler e Spätaussiedler.⁸
2015 foi, entretanto, um marco extraordinariamente visível dessa transformação.
Em 4 e 5 de setembro daquele ano, diante da situação dos refugiados retidos na Hungria e de uma emergência humanitária crescente, os governos alemão e austríaco permitiram sua continuação da viagem e entrada. A decisão tomada por Angela Merkel e pelo chanceler austríaco Werner Faymann tornou-se um dos acontecimentos definidores da chamada crise dos refugiados. Ela não criou do nada uma Alemanha multicultural nem constituiu o início da imigração para o país, mas contribuiu para uma fase de entrada excepcionalmente elevada de refugiados e para uma transformação política e social de grande alcance.⁹
Os números mostram que a diversidade alemã já existia antes desse momento. Em 2015, cerca de 17,1 milhões de pessoas residentes na Alemanha possuíam, segundo a definição estatística então utilizada, Migrationshintergrund, aproximadamente 21% da população. No ano seguinte, esse número chegou a cerca de 18,6 milhões, e o próprio órgão estatístico atribuiu o forte aumento sobretudo à elevada imigração de estrangeiros, inclusive refugiados, em 2015 e 2016.¹⁰
Assim, seria historicamente simplificador afirmar que Angela Merkel transformou em 2015 uma sociedade anteriormente homogênea numa sociedade multicultural.
Mas seria igualmente equivocado negar a dimensão histórica daquele momento.
2015 acelerou, ampliou e tornou muito mais visível uma transformação demográfica que já vinha acontecendo havia décadas.
Uma casa alemã já não revela necessariamente quem vive ao redor dela
É justamente aqui que a comparação com o Brasil se torna particularmente esclarecedora.
No Brasil, aprendemos há muito tempo a separar a construção de seus habitantes atuais.
Vemos uma casa enxaimel e reconhecemos nela uma origem histórica alemã, embora não saibamos quem mora dentro dela, que língua essa pessoa fala, com quem se identifica ou quais redes sociais frequenta.
A arquitetura tornou-se memória material.
Na Alemanha, em numerosas pequenas localidades historicamente estáveis, essa separação entre forma arquitetônica e composição social demorou mais a tornar-se evidente. Uma paisagem tradicional podia coincidir em grande medida com uma população cuja história familiar, língua regional, associações e pertencimentos estavam profundamente enraizados naquele mesmo território.
Hoje essa correspondência já não pode ser presumida.
Um povoado pode conservar praticamente intacto seu centro histórico de Fachwerk e, ao mesmo tempo, receber novos habitantes vindos de outras regiões da Alemanha ou de outros países. Casas permanecem; populações mudam. A mobilidade econômica, a urbanização, o envelhecimento demográfico, deslocamentos internos e sucessivas formas de imigração alteram a sociedade sem necessariamente alterar imediatamente sua arquitetura.
A fachada continua contando a história de quem a construiu.
Ela não necessariamente conta a história de quem hoje vive atrás dela.
O Deutschtum não está nas vigas
Essa distinção ajuda também a evitar uma interpretação superficial do Deutschtum.
O Deutschtum não está na madeira, no tijolo, no telhado ou no formato de uma casa.
Esses elementos podem ser expressões materiais de um mundo social.
O fenômeno torna-se reconhecível quando, por trás ou ao redor deles, encontramos continuidade coletiva: pessoas que atribuem significado à origem alemã, preservam língua e memória, mantêm instituições, reproduzem redes, transmitem pertencimento aos filhos, distinguem um “nós” alemão e continuam atribuindo valor especial àquilo que identificam como alemão.
Por isso, uma construção enxaimel no Brasil pode revelar muito sobre o passado e pouco sobre o presente.
E uma rua de Fachwerkhäuser na Alemanha pode continuar visualmente quase idêntica à de cem anos atrás enquanto a estrutura social ao seu redor se transforma.
A arquitetura é capaz de preservar uma memória depois que a sociedade que a produziu já começou a mudar.
É justamente por isso que compreender o Deutschtum exige olhar além da fachada.
É preciso perguntar quem construiu, quem habitou, quais instituições existiam, que língua era falada, quais relações eram preservadas, quem pertencia ao “nós”, como esse pertencimento era transmitido e o que restou dessa estrutura através das gerações.
Somente então o enxaimel deixa de ser apenas uma bela “arquitetura alemã” e volta a tornar-se aquilo que historicamente também foi: um vestígio material de uma sociedade, de suas relações e de uma forma de continuidade coletiva.
Notas
1. Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), Superintendência de Santa Catarina, Santa Catarina; e IPHAN, Roteiros Nacionais de Imigração. O Instituto relaciona expressamente a estrutura enxaimel à imigração alemã em Santa Catarina e protege conjuntos arquitetônicos rurais, urbanos, religiosos, escolares, comerciais e institucionais associados ao processo migratório.
2. IPHAN, Roteiros Nacionais de Imigração. Os estudos realizados entre 2007 e 2014 resultaram no tombamento de mais de sessenta bens vinculados à imigração, abrangendo residências rurais, arquitetura religiosa, comercial, escolar, recreativa e institucional, além de núcleos urbanos e rurais.
3. Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina, São João do Oeste e a preservação do dialeto dos pioneiros, 2024. A documentação registra o uso cotidiano do Hunsrückisch e a continuidade institucional do ensino da língua alemã.
4. IPHAN, Pomerode (SC) recebe projeto para preservação de Conjunto Histórico. O Instituto relaciona expressamente a paisagem enxaimel de Pomerode às tradições dos imigrantes e à continuidade da língua, culinária, artesanato, celebrações e técnicas construtivas.
5. Freilichtmuseum Hessenpark, Kompetenzzentrum Fachwerk, Geschichte Fachwerkbau in Deutschland. O museu destaca a longa história do Fachwerk e sua importância para a identidade local de numerosas cidades e aldeias alemãs.
6. Arbeitsgemeinschaft Deutsche Fachwerkstädte e.V., Fachwerk in Deutschland. A Deutsche Fachwerkstraße informa a existência de mais de 2,5 milhões de edifícios em Fachwerk no país e ressalta a variedade regional das formas construtivas.
7. Denkmalstiftung Baden-Württemberg, Michael Goer, Fachwerk. O texto discute criticamente antigas classificações étnico-regionais do Fachwerk e observa que parte delas foi posteriormente considerada cientificamente insustentável.
8. Bundeszentrale für politische Bildung (bpb), Historische Entwicklung der Migration nach und aus Deutschland; e Migration und Integration. A imigração laboral organizada começou na República Federal em 1955 e foi seguida por permanência, reunificação familiar e outras ondas migratórias.
9. Bundeszentrale für politische Bildung, Vor dem 5. September e Das Jahr 2015: Flucht und Flüchtlinge im Fokus. Na noite de 4 para 5 de setembro de 2015, Alemanha e Áustria aceitaram a continuação da viagem dos refugiados então retidos na Hungria, decisão que se tornou um marco da crise migratória de 2015.
10. Statistisches Bundesamt, Bevölkerung mit Migrationshintergrund auf Rekordniveau, 16 de setembro de 2016; e Bevölkerung mit Migrationshintergrund um 8,5 % gestiegen, 1º de agosto de 2017. Segundo o Mikrozensus, aproximadamente 17,1 milhões de pessoas tinham Migrationshintergrund em 2015; em 2016, o número alcançou aproximadamente 18,6 milhões.
