
O Deutschtum continua perceptível em determinados padrões de comportamento, de pertencimento e de autocompreensão na sociedade alemã, em meios alemães e nas atitudes de muitos alemães. Também pode ser reconhecido em comunidades de descendentes de alemães no exterior, sobretudo onde a origem alemã, a memória dos antepassados, determinadas tradições culturais e a continuidade de vínculos simbólicos com a Alemanha continuam sendo fortemente valorizadas. No Sul do Brasil, por exemplo, essa permanência pode ser observada com particular clareza em determinados grupos e ambientes de descendentes de alemães.
Isso não significa que essas comunidades simplesmente reproduzam o Deutschtum dos séculos XIX e XX. Suas formas contemporâneas foram transformadas pelo tempo e pela progressiva integração à sociedade brasileira. O elemento de continuidade encontra-se sobretudo na valorização consciente da germanidade (Deutschtum) como herança coletiva, em sua transmissão entre gerações e, em certos casos, na preservação de espaços sociais destinados ao cultivo dessa identidade.
Um arcabouço comportamental do Deutschtum deve, portanto, servir para reconhecer situações em que essa orientação se manifesta nas atitudes, avaliações, escolhas e relações sociais de uma pessoa – não simplesmente por ela possuir nacionalidade alemã ou ascendência alemã.
Um arcabouço comportamental do Deutschtum pode ser estruturado da seguinte maneira:
- Autorreferência coletiva alemã.
A pessoa não se compreende apenas como indivíduo de nacionalidade ou origem alemã, mas recorre com frequência à categoria coletiva de wir Deutsche – “nós, alemães” – para interpretar pessoas, acontecimentos, comportamentos ou relações. O pertencimento alemão torna-se uma referência relevante para distinguir o próprio grupo dos demais. - Valorização particular do coletivo alemão.
Qualidades como disciplina, organização, confiabilidade, trabalho, pontualidade, educação, eficiência, capacidade técnica ou respeito às regras são associadas ao ser alemão e apresentadas como características do próprio coletivo. Em determinadas manifestações do Deutschtum, essa valorização pode assumir também a forma de uma percepção de superioridade cultural, organizacional, técnica ou moral. - Utilização da Alemanha como referência normativa.
Comportamentos, instituições e práticas são avaliados a partir de uma referência alemã: “na Alemanha fazemos assim”, “isso é tipicamente alemão” ou “isso não corresponde à maneira alemã”. A Alemanha e aquilo que é percebido como alemão passam a funcionar como padrão de comparação e avaliação. - Consciência de continuidade.
Existe preocupação em manter através do tempo aquilo que é percebido como especificamente alemão: língua, memória, costumes, tradições, história familiar, formas de associação, instituições e referências culturais. O pertencimento deixa de ser apenas uma condição presente e passa a ser concebido como algo que deve continuar existindo. - Preservação das fronteiras identitárias.
Mesmo em sociedades internacionais ou multiculturais e apesar de elevados graus de integração, permanece socialmente relevante a distinção entre o coletivo alemão e os demais: wir Deutsche e die anderen. Essa fronteira não exige necessariamente hostilidade, mas mantém perceptível a existência de um “nós” alemão distinto dos “outros”. - Valorização e fortalecimento preferencial daquilo que é alemão.
Instituições, organizações, empresas, produtos culturais, meios de comunicação, escolas, igrejas, associações, redes profissionais, eventos ou iniciativas identificadas como alemãs podem receber atenção e apoio especiais precisamente por serem percebidos como pertencentes ao próprio universo alemão. O elemento decisivo não é simplesmente utilizá-los, mas atribuir valor específico ao seu caráter alemão e contribuir para seu fortalecimento ou continuidade. - Vinculação pessoal ao destino e à imagem do coletivo alemão.
Realizações, críticas, conflitos, derrotas ou representações da Alemanha e dos alemães podem ser percebidos como tendo relação com o próprio pertencimento. O indivíduo reage não apenas como observador externo, mas como alguém que se sente, em alguma medida, ligado ao destino, à reputação ou aos interesses do coletivo. - Reprodução social da germanidade.
O indivíduo participa de mecanismos destinados a conservar e reproduzir a identidade alemã: transmitir a língua aos filhos, preservar histórias familiares, manter associações, celebrar tradições, apoiar instituições, sustentar redes culturais ou participar de atividades voltadas à continuidade da germanidade entre as gerações. - Utilização do pertencimento alemão como critério de confiança, escolha e preferência.
A germanidade ou a origem alemã pode funcionar como critério relevante para proximidade, cooperação, confiança, contratação, nomeação, promoção, representação ou ingresso em redes sociais, profissionais e institucionais. Nesse caso, pessoas percebidas como pertencentes ao próprio universo alemão recebem preferência não simplesmente por suas qualificações individuais, mas também porque são reconhecidas como integrantes do próprio círculo de pertencimento.Esse mecanismo pode manifestar-se em empresas, associações empresariais, instituições, organizações e outras estruturas ligadas à Alemanha. O indicador de Deutschtum não é a simples presença de alemães nesses espaços, mas o fato de o pertencimento alemão contribuir para determinar quem é percebido como “um dos nossos”, quem recebe confiança e quem é incorporado às redes existentes. - Percepção de um patrimônio coletivo alemão.
História, língua, cultura, realizações científicas, industriais, filosóficas, técnicas ou artísticas não são percebidas somente como fatos históricos ou realizações de indivíduos, mas como parte de um patrimônio coletivo alemão ao qual a pessoa sente pertencer. - Responsabilidade perante o coletivo alemão.
O Deutschtum não precisa manifestar-se exclusivamente por meio de exaltação ou defesa da Alemanha. Pode também assumir uma forma crítica. Uma pessoa pode sentir obrigação de preservar, reformar, defender ou confrontar aspectos da história e da sociedade alemãs precisamente porque os considera parte de seu próprio coletivo. - Continuidade transnacional.
A germanidade pode permanecer estruturalmente ativa mesmo quando o indivíduo ou seus descendentes vivem fora da Alemanha. Língua, memória, instituições, relações com alemães, vínculos familiares e redes sociais ou econômicas podem continuar funcionando como componentes relevantes de pertencimento muitas gerações depois da emigração.
O Deutschtum pode ser reconhecido como padrão
O Deutschtum não precisa ser declarado, e a própria pessoa não precisa conhecer ou utilizar essa palavra. Ele se torna perceptível quando o pertencimento alemão aparece repetidamente como referência para a maneira como alguém compreende a si mesmo, interpreta o próprio grupo, estabelece relações e se posiciona diante daqueles que não pertencem a esse coletivo.
Não é necessário encontrar todos os doze elementos apresentados acima. Tampouco um único comportamento basta para caracterizar o fenômeno. O elemento decisivo encontra-se na convergência de vários sinais e na função que a germanidade passa a exercer nas relações, escolhas e avaliações da pessoa.
Falar alemão, apreciar tradições alemãs, manter contato com a Alemanha ou possuir amigos alemães, isoladamente, não caracteriza Deutschtum. O fenômeno torna-se mais claramente reconhecível quando essas práticas se inserem em uma percepção coletiva mais ampla: nós alemães, nossa maneira de fazer as coisas, nossas qualidades, nossas instituições, nossa história, nossas realizações, nossos interesses, nossa continuidade e nossa relação com aqueles que não pertencem ao mesmo coletivo.
Nesse sentido, o Deutschtum torna-se particularmente perceptível quando a germanidade deixa de constituir apenas uma informação sobre nacionalidade ou ascendência e passa a funcionar como referência de pertencimento, avaliação, confiança, preferência e continuidade coletiva.
Ela pode aparecer na maneira de:
- organizar relações de pertencimento, confiança e proximidade em torno da germanidade, distinguindo aqueles percebidos como integrantes do próprio coletivo alemão daqueles que permanecem fora dele;
- atribuir ao coletivo alemão qualidades particulares e, em determinados contextos, uma posição de superioridade cultural, organizacional, técnica ou moral;
- utilizar a Alemanha e aquilo que é percebido como alemão como padrão de comparação;
- preservar, fortalecer e transmitir aquilo que é entendido como alemão;
- utilizar o pertencimento alemão como critério de confiança, escolha ou favorecimento, privilegiando “os nossos” em redes sociais, profissionais ou institucionais e contribuindo para a reprodução dessas redes;
- manter fronteiras entre wir Deutsche e os demais;
- relacionar realizações, valores, instituições ou interesses alemães ao próprio pertencimento;
- reproduzir essa identidade e suas estruturas de pertencimento mesmo fora da Alemanha e através das gerações.
A combinação desses elementos pode ultrapassar a esfera da identidade cultural. Quando pertencimento, preferência, confiança e reprodução de redes convergem de maneira persistente, podem surgir mecanismos de inclusão dos próprios e de exclusão dos demais, capazes de produzir formas de segregação na vida social, nas associações, nas instituições, nas redes profissionais e também no mercado de trabalho.
Isso não significa necessariamente uma segregação formalmente estabelecida ou declarada. Ela pode ocorrer de maneira muito mais discreta: pela escolha recorrente daqueles percebidos como pertencentes ao próprio grupo, pela circulação de oportunidades dentro das mesmas redes, pelo estabelecimento preferencial de confiança entre “os nossos” ou pela dificuldade de pessoas externas ingressarem em determinados círculos.
O ponto fundamental é que o Deutschtum não precisa ser consciente.
Um alemão ou descendente de alemães pode agir de acordo com esses padrões sem jamais ter estudado o conceito, sem utilizar a palavra Deutschtum e até mesmo rejeitando a ideia de que ela descreva algum aspecto de seu comportamento. Isso é próprio de fenômenos culturais profundamente internalizados. Aquilo que foi transmitido durante gerações pode deixar de ser percebido como construção histórica e passar a ser entendido simplesmente como normalidade.
Por isso, a análise do Deutschtum não deve depender da pergunta:
“Você possui a cultura do Deutschtum?”
A pergunta relevante é outra:
Que papel o pertencimento alemão exerce na maneira como uma pessoa que se compreende como integrante do coletivo alemão por nacionalidade, origem ou ascendência pensa, avalia, estabelece vínculos, escolhe, preserva continuidades e distingue o próprio grupo dos demais?
Não é necessário que o comportamento seja exclusivamente alemão
Muitos dos comportamentos descritos também podem ser encontrados entre integrantes de outras sociedades. Solidariedade coletiva, preservação cultural, orgulho nacional, transmissão da língua, preferência por redes próprias ou valorização de instituições nacionais não são invenções exclusivamente alemãs.
O que confere especificidade histórica ao Deutschtum é a formação concreta de uma germanidade coletiva identificada e cultivada como tal e a importância extraordinária atribuída ao fortalecimento, à preservação e à reprodução de tudo aquilo que era – e, em determinadas formas, continua sendo – entendido como alemão.
Esse impulso de fortalecimento não se limita à cultura em sentido estrito. Pode abranger a língua, os costumes, a memória histórica e as tradições, mas também empresas, instituições, associações, redes econômicas e profissionais, o Estado alemão e o próprio indivíduo percebido como integrante do coletivo alemão por nacionalidade, origem ou ascendência.
O elemento central é que aquilo que é percebido como alemão adquire um valor próprio e passa a ser objeto de preservação, fortalecimento, preferência e continuidade.
Em determinadas concepções de Deutschtum, não se tratava somente de conservar língua, costumes ou tradições, mas de criar e manter espaços sociais próprios nos quais a germanidade pudesse ser cultivada de maneira concentrada, fortalecida e transmitida entre gerações. Escolas, associações, igrejas, imprensa, clubes, redes empresariais e outras instituições podiam desempenhar essa função.
Essa preservação podia estar associada à convicção, presente em determinados meios e períodos históricos, de que características atribuídas aos alemães – disciplina, trabalho, organização, cultura, educação, confiabilidade ou capacidade técnica – possuíam valor especial ou mesmo superior. Nesse contexto, preservar o Deutschtum não significava simplesmente conservar uma diferença cultural, mas proteger, fortalecer e reproduzir aquilo que seus defensores consideravam especialmente valioso na germanidade.
E essa orientação não permaneceu restrita à esfera privada.
O Deutschtum produziu instituições, organizações, redes transnacionais, conceitos de pertencimento e movimentos destinados à conservação e ao fortalecimento de comunidades alemãs dentro e fora da Alemanha. A capacidade de transformar pertencimento cultural em continuidade coletiva organizada constitui justamente uma de suas características historicamente mais importantes.
O Deutschtum nas redes de representação consular
Um exemplo particularmente revelador do funcionamento dessas redes de pertencimento encontra-se no campo dos consulados honorários. A comparação entre Brasil e Alemanha revela uma assimetria significativa.
O Estado brasileiro confiou amplamente sua representação honorária na Alemanha a cidadãos alemães. O Brasil escolheu, portanto, pessoas pertencentes à sociedade do país anfitrião para representar interesses brasileiros em território alemão.
A Alemanha seguiu, no Brasil, uma lógica diferente. Na escolha de seus cônsules honorários, o Estado alemão recorreu repetidamente a descendentes de alemães e integrantes do meio teuto-brasileiro, utilizando justamente redes sociais caracterizadas por origem alemã, língua, pertencimento cultural e vínculos institucionais com o universo alemão.
A diferença é significativa: o Brasil entregou sua representação honorária na Alemanha a alemães, embora já vivessem naquele país, desde o início da década de 1980, numerosos brasileiros. A Alemanha, por sua vez, escolheu no Brasil, em numerosos casos, pessoas oriundas do meio alemão ou de descendência alemã para representar os interesses alemães.
Enquanto o Brasil incorporava integrantes da sociedade alemã à sua própria estrutura de representação, a Alemanha recorria, de maneira consistente, a pessoas que podiam ser reconhecidas como pertencentes ao seu próprio espaço de origem, cultura e vínculos sociais.
É justamente nesse ponto que se torna visível uma dimensão institucional do Deutschtum. O pertencimento alemão não permaneceu restrito à língua, à cultura ou à identidade privada. Ele também pôde funcionar como estrutura de confiança, seleção e reprodução, por meio da qual pessoas pertencentes ao próprio meio cultural e genealógico eram incorporadas a funções destinadas à representação e à continuidade de interesses estatais, econômicos e sociais alemães no exterior.
Os consulados honorários mostram, assim, de maneira particularmente concreta, como o Deutschtum pôde reproduzir-se institucionalmente através das gerações e para além das fronteiras territoriais da Alemanha: pela incorporação preferencial de pessoas pertencentes ao próprio meio em funções, redes e estruturas destinadas à representação e ao fortalecimento de interesses alemães.
É justamente essa capacidade de transformar um sentimento de pertencimento em continuidade coletiva organizada, transmitida e institucionalmente reproduzida que permite compreender fenômenos históricos como o Auslandsdeutschtum e, ao mesmo tempo, reconhecer formas contemporâneas pelas quais a germanidade continua podendo estruturar vínculos, preferências, redes e fronteiras de pertencimento.
