A relação entre cristianismo e a linhagem germânica que mais tarde seria apropriada pela identidade alemã é antiga. Mas o Deutschtum não é antigo nesse mesmo sentido. Essa distinção é essencial.¹

Os francos, os saxões, os bávaros, os alamanos e outros povos germânicos não eram “alemães” no sentido moderno. Eles também não eram portadores de um Deutschtum já formado. O termo, a consciência nacional moderna e a carga político-cultural associada à germanidade pertencem a uma época muito posterior, sobretudo ao século XIX. Ainda assim, esses povos e suas tradições foram mais tarde incorporados à narrativa alemã como origem, memória e legitimidade histórica.²
Por isso, a formulação correta não é dizer que o Deutschtum começou com os francos. Isso seria um anacronismo. O ponto correto é outro: o Deutschtum moderno alimentou-se de uma memória germânica e franco-germânica muito mais antiga, reinterpretando-a como raiz histórica do povo alemão.³
Essa diferença muda toda a análise.
A cristianização dos povos germânicos pertence à longa pré-história religiosa e política da futura tradição alemã. O Deutschtum, por sua vez, é uma construção moderna de germanidade. E o conflito decisivo surge quando essa construção moderna passa a querer determinar se o cristianismo era ou não compatível com o povo alemão.⁴
A linhagem germânica antes do Deutschtum
Muito antes da existência de uma Alemanha nacional, diversos povos germânicos foram sendo integrados ao cristianismo e a novas formas de poder. Entre eles, os francos tiveram papel decisivo.⁵
A conversão de Clóvis ao cristianismo romano, entre o fim do século V e o início do século VI, marcou uma etapa fundamental na aproximação entre poder germânico e cristianismo. A partir desse momento, a fé cristã não funcionou apenas como religião pessoal. Ela passou a participar da legitimação da realeza, da organização do poder, da disciplina social, da construção jurídica e da integração de populações diversas sob uma mesma ordem política.⁵
Mais tarde, com Carlos Magno, essa ligação tornou-se ainda mais forte. A expansão franca, a cristianização forçada de povos como os saxões, a formação imperial e a autoridade religiosa foram articuladas dentro de uma mesma visão de ordem. Cristianizar significava também dominar, integrar, reorganizar e submeter.⁶
Isso ainda não era Deutschtum. Mas fazia parte de um conjunto de experiências históricas que, séculos depois, seria reinterpretado como linhagem germânica, franca, cristã e imperial do mundo alemão.⁷
A memória dos francos, dos saxões, da cristianização, do Sacro Império Romano-Germânico, da língua, do direito, das tribos e das tradições regionais seria mais tarde mobilizada por intelectuais, nacionalistas e ideólogos como prova de uma suposta continuidade histórica alemã. Essa continuidade, porém, não existia como Deutschtum na época dos francos. Ela foi construída retrospectivamente em várias camadas: começou a ganhar forma mais consciente com o humanismo dos séculos XV e XVI; recebeu nova força com a Reforma; foi reorganizada culturalmente no século XVIII; tornou-se projeto nacional no século XIX; e depois foi radicalizada pelo nacionalismo imperial e pelo pensamento völkisch.⁸
Antes de 1871, os alemães estavam politicamente fragmentados em diversos Estados, reinos, principados e cidades. Para afirmar que existia uma nação alemã antes mesmo de existir um Estado alemão unificado, intelectuais e nacionalistas recorreram à língua, à cultura, à memória dos povos germânicos, à cristianização, ao Sacro Império, ao direito antigo, aos mitos, às tradições populares e às guerras contra inimigos externos. Assim, uma história plural, regional, dinástica, religiosa e imperial foi reorganizada como se fosse a longa preparação de uma nação alemã moderna.⁹
O surgimento moderno do Deutschtum
O Deutschtum pertence ao mundo moderno. Isso não significa que antes não houvesse língua, cultura, memória ou formas de pertencimento entre povos germânicos e populações de língua alemã. Esses elementos existiam havia séculos, em formas regionais, religiosas, jurídicas, dinásticas e imperiais. A diferença decisiva é que, no século XIX, eles passaram a ser reinterpretados como fundamento de uma comunidade nacional alemã moderna.⁹
Antes de 1871, não existia um Estado nacional alemão unificado. Havia diversos Estados, reinos, principados, cidades livres e territórios de língua alemã. Por isso, a germanidade foi sendo construída como uma ideia cultural, linguística, histórica e política que ultrapassava os limites dos Estados existentes. A língua, a literatura, os costumes, a origem, a memória germânica, a religião, o direito e a história foram mobilizados como sinais de pertencimento a uma comunidade alemã imaginada antes mesmo de sua unificação estatal.¹⁰
Só se pode falar de Deutschtum, em sentido próprio, no contexto nacional moderno do século XIX. Termos anteriores como “deutsch” ou formas mais antigas como “diutisc” referiam-se inicialmente à língua, à língua do povo ou a formas de pertencimento dentro de ordens pré-modernas. Eles ainda não significavam Deutschtum. O Deutschtum surgiu quando língua, cultura, origem, história e memória passaram a ser interpretadas como expressão de uma comunidade nacional alemã.¹¹
Com a fundação do Império Alemão em 1871, essa ideia ganhou nova força. O Estado nacional não criou do nada o sentimento de pertencimento alemão, mas deu a ele uma forma política, militar, escolar, simbólica e administrativa. A partir daí, o Deutschtum passou a significar mais do que língua ou cultura. Ele podia expressar uma forma de germanidade que envolvia povo, história, missão, disciplina, trabalho, educação, família, religião, memória e destino coletivo.¹²
Para os Auslandsdeutsche, os alemães fora da Alemanha, o Deutschtum tornou-se também uma categoria de pertencimento transnacional. Ele podia ligar comunidades emigradas à língua, à escola, à igreja, à imprensa, aos clubes, às associações, à memória da origem e a uma ideia de continuidade alemã além das fronteiras do Reich.¹³
Esse ponto é fundamental para compreender a presença alemã no Brasil. O Deutschtum não aparecia apenas como preservação cultural ou saudade da terra de origem. Em determinados contextos, podia funcionar como uma forma organizada de manter língua, escola, igreja, imprensa, redes comunitárias e lealdades simbólicas vinculadas à germanidade, mesmo em território brasileiro.¹⁴
Cristandade, germanidade e inversão moderna
Durante séculos, o cristianismo havia sido uma das grandes linguagens de legitimação da ordem. Reis, impérios, guerras, leis, educação e pertencimento coletivo podiam ser justificados em nome da fé, da Igreja, da missão cristã ou da ordem cristã do mundo.¹⁵
Na linhagem germânico-cristã, o cristianismo ajudou a moldar estruturas de poder e integração. Mas, na modernidade, algo novo aconteceu: a identidade nacional começou a disputar com a religião o lugar de fundamento superior da comunidade.¹⁶
No caso alemão, essa tensão cresceu durante o século XIX. A nação, o povo, a língua, a cultura, o Reich e a origem passaram a ocupar um espaço cada vez mais central. O cristianismo continuou importante, mas já não era o único horizonte de pertencimento. Em alguns ambientes, ele passou a ser medido pela sua utilidade para a nação.¹⁷
A pergunta mudou.
Durante muito tempo, a questão era: como o poder e o povo se ordenam dentro de um mundo cristão?
Na fase nacionalista e völkisch, a pergunta passou a ser: o cristianismo serve ao povo alemão? Ele é compatível com a germanidade? Ele fortalece ou enfraquece o Volkstum?¹⁸
Essa foi a inversão decisiva.
Quando o Deutschtum passou a ser mais importante que o cristianismo?
Não existe uma única data. Foi um processo. Mas é possível indicar uma linha histórica.
O primeiro momento decisivo ocorre no século XIX, especialmente nas décadas anteriores e posteriores à fundação do Império Alemão em 1871. Nesse período, a germanidade moderna ganhou força cultural, política e simbólica. A língua, a história, a memória dos povos germânicos, a ideia de povo e a formação do Estado nacional alemão criaram uma nova hierarquia de pertencimento. Ser alemão passou a carregar um significado político e cultural cada vez mais forte.¹²
O segundo momento ocorre entre o final do século XIX e o início do século XX, quando correntes völkisch passaram a radicalizar a ideia de povo alemão. O Volk já não era apenas uma comunidade cultural ou linguística. Em muitos discursos, tornou-se uma comunidade orgânica, racial, espiritual e histórica. Povo, sangue, solo, origem, raça, cultura, destino e missão foram reunidos em uma visão fechada de pertencimento.¹⁸
Nesse ambiente, o cristianismo começou a ser julgado por critérios de germanidade. Já não bastava ser cristão. Era preciso perguntar se aquele cristianismo era suficientemente alemão, suficientemente popular, suficientemente ariano, suficientemente ligado ao Volkstum.¹⁹
O terceiro momento ocorre após a Primeira Guerra Mundial e especialmente na crise da República de Weimar. A derrota de 1918, o Tratado de Versalhes, o medo do comunismo, a instabilidade econômica, o ressentimento nacional e a ascensão do nacional-socialismo criaram um ambiente em que a identidade nacional e völkisch passou a exigir submissão total.²⁰
Por volta de 1930, essa tensão já era explícita. Textos como “Deutschtum und Christentum”, de Lic. Pohlmann, publicado originalmente em 1930, mostram que a questão não era mais apenas religiosa. Tratava-se de decidir se o cristianismo podia ou não permanecer dentro de uma ordem definida pelo Deutschtum.²¹
Esse texto é importante não porque represente o início da relação entre cristianismo e linhagem germânica. Essa relação é muito mais antiga. Ele é importante porque mostra uma fase posterior, na qual o Deutschtum moderno e völkisch passou a querer julgar a própria fé cristã.²¹
A pergunta escondida era: quem deve ocupar o lugar superior — Cristo ou o povo alemão?
O cristianismo diante do tribunal da germanidade
Nos debates völkisch, surgiram diferentes respostas para essa pergunta.²¹
Uma primeira corrente via o cristianismo como religião estrangeira, universalista e marcada por suas raízes judaicas. Para essa visão, o cristianismo não pertencia verdadeiramente ao mundo germânico. Ele deveria ser superado, substituído ou absorvido por uma religião alemã, germânica, racial ou nacional.²¹
Uma segunda corrente não queria abandonar totalmente o cristianismo, mas transformá-lo. Defendia um cristianismo “alemão”, “ariano”, “heroico”, “popular” ou “desjudaizado”. Nessa interpretação, Jesus podia ser separado de sua origem judaica, o Antigo Testamento podia ser rejeitado ou diminuído, e a fé cristã podia ser reinterpretada segundo critérios de raça, povo e germanidade.¹⁹
Uma terceira corrente tentava harmonizar cristianismo e Deutschtum. Ela afirmava que o cristianismo encontraria na alma alemã sua forma mais profunda, interior ou autêntica. Essa posição parecia menos radical, mas também podia reduzir o cristianismo a uma expressão da identidade nacional.²²
Em todos os casos, a pressão era a mesma: o cristianismo precisava provar sua compatibilidade com o povo alemão.
A fé universal era submetida a uma identidade nacional. A religião era filtrada por critérios de origem, sangue, cultura, raça e pertencimento. O cristianismo deixava de ser fundamento superior e passava a ser material de adaptação.¹⁹
Protestantes e católicos: quem cultivou mais conscientemente essa nova ordem?
A resposta precisa ser diferenciada. Não se pode dizer que todos os protestantes aderiram ao nacionalismo völkisch, nem que todos os católicos resistiram a ele. Também não se deve transformar confissões inteiras em blocos homogêneos. Houve protestantes nacionalistas, protestantes resistentes, católicos nacionalistas, católicos resistentes, oportunistas, críticos, acomodados e vítimas.²³
Mas, historicamente, a tentativa mais consciente de criar um cristianismo alemão, nacional, racializado e alinhado à nova ordem apareceu com mais força no campo protestante.²³
Isso tem razões históricas. O protestantismo alemão estava mais profundamente ligado às igrejas territoriais, aos Estados regionais, à autoridade política e à tradição de proximidade entre trono e altar. Depois de 1871, muitos setores protestantes se identificaram fortemente com o Império Alemão, com a Prússia, com a monarquia e com a missão nacional alemã.²³
Quando o Império caiu em 1918, parte desse protestantismo nacional entrou em crise. A República de Weimar foi percebida por muitos como ruptura, humilhação ou desordem. Nesse contexto, setores protestantes tornaram-se especialmente receptivos a uma recomposição nacional, autoritária, anticomunista e völkisch.²³
Os “Deutsche Christen”, os “Cristãos Alemães”, expressaram essa tendência de forma extrema. Eles buscaram adaptar o protestantismo alemão ao nacional-socialismo, defenderam a pureza racial como critério de pertencimento e quiseram separar a Igreja evangélica de suas raízes judaicas. Nesse ambiente, o Deutschtum não era apenas identidade cultural. Ele se tornava princípio de reorganização da própria fé.²³
No campo católico, a situação foi diferente. A Igreja Católica tinha uma estrutura transnacional, vinculada a Roma, e não podia ser transformada com a mesma facilidade em uma igreja nacional alemã. O catolicismo político, especialmente em torno do Zentrum e de ambientes católicos próprios, manteve durante muito tempo uma distância maior em relação ao nacional-socialismo.²⁴
Isso, porém, não significa inocência. Houve católicos nacionalistas, antissemitas, acomodados, silenciosos ou colaboradores. Também houve o peso do antijudaísmo cristão tradicional, que não deve ser confundido com o racismo biológico nazista, mas que contribuiu para criar ambientes de hostilidade histórica contra os judeus. O Reichskonkordat de 1933 mostra ainda que a Igreja Católica buscou proteger institucionalmente seus direitos por meio de negociação com o regime, o que teve consequências políticas importantes.²⁴
Portanto, a diferença não está em dizer que protestantes foram culpados e católicos inocentes. A diferença está na forma da adaptação.
No protestantismo völkisch, especialmente entre os “Deutsche Christen”, houve uma tentativa mais explícita de construir um cristianismo alemão submetido ao povo, à raça e ao Estado nacional. No catolicismo, houve maior resistência estrutural a uma completa nacionalização da Igreja, mas também houve acomodação, nacionalismo, antijudaísmo, silêncio e colaboração em diferentes níveis.²³ ²⁴
Assim, ambos os campos participaram da nova ordem em graus e formas diferentes. Mas a formulação consciente de um “cristianismo alemão” submetido ao Deutschtum apareceu com mais clareza no campo protestante völkisch.²³
O ponto central: a inversão da hierarquia
A linhagem germânica cristianizada mostra uma longa relação entre cristianismo, poder e pertencimento. Mas essa relação não deve ser confundida com Deutschtum.¹
O Deutschtum moderno surgiu muito depois. Ele se alimentou de memórias antigas, apropriou-se da linhagem germânica e franco-germânica, reinterpretou a história como continuidade alemã e transformou língua, cultura, origem e povo em fundamentos de identidade.³
A inversão perigosa ocorreu quando essa germanidade moderna passou a ocupar o lugar de medida suprema. A partir daí, o cristianismo já não era apenas uma fé recebida, vivida ou disputada teologicamente. Ele passou a ser examinado politicamente: é alemão o suficiente? É ariano o suficiente? É popular o suficiente? Serve ao Volkstum? Fortalece ou enfraquece o povo?¹⁹
Nesse momento, o Deutschtum tornou-se mais importante que o cristianismo para setores nacionalistas e völkisch. Não necessariamente porque todos tenham abandonado a fé cristã, mas porque passaram a subordiná-la a uma identidade de povo.¹⁸ ¹⁹
Essa é a chave da questão.
Quando o cristianismo precisa ser “autorizado” pela germanidade, a fé deixa de orientar a identidade e passa a ser moldada por ela. Quando Cristo é reinterpretado segundo sangue, raça e origem, a religião é transformada em instrumento de exclusão. Quando a Bíblia é filtrada por critérios nacionais, o cristianismo deixa de ser universal e passa a ser nacionalizado.¹⁹
A pergunta “Deutschtum e cristianismo são compatíveis?” escondia, em muitos casos, uma pergunta mais profunda: quem manda — a fé cristã ou o povo alemão entendido como comunidade de sangue e destino?
Por que isso importa para Brasil e Alemanha?
Essa discussão não pertence apenas à história interna da Alemanha. Ela ajuda a compreender como ideias alemãs de povo, origem, pertencimento, língua, religião e missão cultural circularam fora da Alemanha, inclusive no Brasil.¹³ ¹⁴
No Sul do Brasil, o Deutschtum apareceu frequentemente como preservação da língua alemã, da escola, da igreja, da imprensa, das associações, da família, do trabalho e da memória comunitária. Muitas dessas práticas podiam ser apresentadas como cultura, tradição ou preservação identitária. Mas, em determinados contextos históricos, elas também podiam fazer parte de uma visão mais ampla de pertencimento alemão fora da Alemanha.¹⁴
A igreja teve papel central nesse processo. Ela podia ser espaço de fé, assistência, educação e vida comunitária. Mas também podia funcionar como lugar de preservação linguística, disciplina social, separação simbólica e continuidade cultural alemã. Em comunidades de origem alemã, religião, escola e língua frequentemente caminhavam juntas.¹⁴
O problema não está em ter origem alemã, falar alemão, preservar memórias familiares ou manter tradições religiosas. O problema surge quando língua, fé, origem, sangue, escola, igreja e pertencimento são reunidos em uma visão fechada de povo, separação e superioridade.¹⁴ ¹⁸
Por isso, a relação entre Deutschtum e cristianismo é essencial para compreender a história Alemanha-Brasil. Ela mostra que o Deutschtum não foi apenas folclore, culinária, música, trabalho ou nostalgia. Ele podia ser uma forma abrangente de organizar identidade, comunidade e lealdade. E, em suas versões radicalizadas, podia subordinar até a religião à ideia de povo.¹⁴ ¹⁹
Conclusão
A germanidade moderna foi construída a partir da apropriação de uma linhagem muito mais antiga: povos germânicos, cristianização, francos, saxões, Carlos Magno, Sacro Império Romano-Germânico, língua, direito, memória e tradição. Esses elementos pertenciam a épocas diferentes e a ordens políticas diversas, mas foram posteriormente reunidos e reinterpretados como se formassem a longa preparação de uma identidade alemã moderna.¹ ³
Essa apropriação foi decisiva. Ela permitiu que o Deutschtum moderno se apresentasse não apenas como cultura contemporânea, mas como continuidade histórica profunda.³
No século XIX, especialmente com a formação do Império Alemão em 1871, essa germanidade ganhou força política. Entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, setores völkisch radicalizaram essa ideia e passaram a interpretar povo, origem, sangue, raça, solo, cultura e destino como fundamentos superiores da comunidade.¹² ¹⁸
Foi nesse contexto que o Deutschtum começou, em determinados ambientes, a tornar-se mais importante que o cristianismo. A fé cristã passou a ser julgada por sua compatibilidade com a germanidade. Alguns quiseram rejeitá-la como estrangeira. Outros quiseram desjudaizá-la. Outros tentaram germanizá-la. Outros a reduziram a expressão da alma alemã.¹⁹ ²¹
A inversão foi profunda: o cristianismo, que durante séculos havia participado da legitimação da ordem, passou a ser colocado diante do tribunal do povo.¹⁵ ¹⁹
Essa é uma das questões centrais da história do Deutschtum. Quando a identidade nacional ou racial se torna mais importante que a fé, a religião pode ser transformada em instrumento de poder, exclusão e radicalização.¹⁸ ¹⁹ ²³
E é por isso que essa história precisa ser tratada com precisão. Não para confundir francos com alemães modernos. Não para projetar o Deutschtum sobre a Idade Média. Mas para mostrar como uma construção moderna de germanidade se apropriou de uma linhagem germânica antiga e, em determinado momento, passou a querer julgar até o cristianismo.¹ ³ ¹⁹
Notas e referências
Para a distinção entre identidades medievais, linhagens germânicas, construções retrospectivas e nacionalismos modernos, ver GEARY, Patrick J. The Myth of Nations: The Medieval Origins of Europe. Princeton: Princeton University Press, 2002; SCALES, Len. The Shaping of German Identity: Authority and Crisis, 1245–1414. Cambridge: Cambridge University Press, 2012.
Sobre francos, saxões, bávaros, alamanos e outras formações germânicas antes da existência de uma Alemanha nacional moderna, ver GEARY, Patrick J. Before France and Germany: The Creation and Transformation of the Merovingian World. Oxford: Oxford University Press, 1988; REUTER, Timothy. Germany in the Early Middle Ages, c. 800–1056. London/New York: Longman, 1991.
Sobre a apropriação posterior da memória germânica, a recepção de Tácito e a transformação dessa memória em narrativa de origem nacional alemã, ver KREBS, Christopher B. A Most Dangerous Book: Tacitus’s Germania from the Roman Empire to the Third Reich. New York/London: W. W. Norton, 2011; GEARY, Patrick J. The Myth of Nations: The Medieval Origins of Europe. Princeton: Princeton University Press, 2002; MOSSE, George L. The Crisis of German Ideology: Intellectual Origins of the Third Reich. New York: Grosset & Dunlap, 1964.
Sobre Deutschtum, völkische Weltanschauung e a tensão moderna entre germanidade, religião e identidade nacional, ver MOSSE, George L. The Crisis of German Ideology: Intellectual Origins of the Third Reich. New York: Grosset & Dunlap, 1964; PUSCHNER, Uwe. „Die völkische Bewegung“. Bundeszentrale für politische Bildung, 07.07.2016.
Sobre o papel dos francos na formação política do mundo pós-romano ocidental e sobre Clóvis, sua conversão e a relação entre cristianismo, realeza e integração política, ver GREGOR VON TOURS. Historiae / Zehn Bücher Geschichten; WOOD, Ian. The Merovingian Kingdoms, 450–751. London/New York: Longman, 1994; GEARY, Patrick J. Before France and Germany: The Creation and Transformation of the Merovingian World. Oxford: Oxford University Press, 1988.
Sobre Carlos Magno, cristianização, expansão franca, império e violência missionária contra os saxões, ver EINHARD. Vita Karoli Magni; Annales regni Francorum; FRIED, Johannes. Karl der Große: Gewalt und Glaube. München: C. H. Beck, 2013; McKITTERICK, Rosamond. Charlemagne: The Formation of a European Identity. Cambridge: Cambridge University Press, 2008.
Sobre a formação posterior de tradições ostfrâncicas, imperiais e alemãs a partir de experiências políticas medievais diversas, ver REUTER, Timothy. Germany in the Early Middle Ages, c. 800–1056. London/New York: Longman, 1991; SCALES, Len. The Shaping of German Identity: Authority and Crisis, 1245–1414. Cambridge: Cambridge University Press, 2012.
Sobre a construção retrospectiva da continuidade germânico-alemã desde o humanismo, a recepção de Tácito, a Reforma, o romantismo, o nacionalismo e a radicalização völkisch, ver KREBS, Christopher B. A Most Dangerous Book: Tacitus’s Germania from the Roman Empire to the Third Reich. New York/London: W. W. Norton, 2011; FICHTE, Johann Gottlieb. Reden an die deutsche Nation. Berlin, 1808; MOSSE, George L. The Crisis of German Ideology: Intellectual Origins of the Third Reich. New York: Grosset & Dunlap, 1964.
Sobre a fragmentação política alemã antes de 1871 e a transformação de língua, cultura, memória e história em fundamentos de uma comunidade nacional alemã moderna, ver SHEEHAN, James J. German History 1770–1866. Oxford: Oxford University Press, 1989; WINKLER, Heinrich August. Der lange Weg nach Westen. Deutsche Geschichte vom Ende des Alten Reiches bis zum Untergang der Weimarer Republik. München: C. H. Beck, 2000; SCALES, Len. The Shaping of German Identity: Authority and Crisis, 1245–1414. Cambridge: Cambridge University Press, 2012.
Sobre nacionalismo, comunidade imaginada e construção cultural da nação antes do Estado nacional alemão, ver ANDERSON, Benedict. Imagined Communities: Reflections on the Origin and Spread of Nationalism. London/New York: Verso, 1983; BREUILLY, John. Nationalism and the State. 2. Aufl. Manchester: Manchester University Press, 1993; SHEEHAN, James J. German History 1770–1866. Oxford: Oxford University Press, 1989.
Para o sentido moderno de “Deutschtum” e sua diferença em relação a formas anteriores de “deutsch” ou “diutisc”, ver DUDEN. „Deutschtum“, definição lexical: “Gesamtheit der für die Deutschen typischen Lebensäußerungen; deutsche Wesensart”, “Zugehörigkeit zum deutschen Volk” e “Gesamtheit der deutschen Volksgruppen im Ausland”. Como apoio histórico-conceitual, ver também SCALES, Len. The Shaping of German Identity: Authority and Crisis, 1245–1414. Cambridge: Cambridge University Press, 2012.
Sobre a fundação do Império Alemão em 1871, o papel da Prússia e a forma política, militar, escolar, simbólica e administrativa dada à identidade nacional alemã, ver WINKLER, Heinrich August. Der lange Weg nach Westen. Deutsche Geschichte vom Ende des Alten Reiches bis zum Untergang der Weimarer Republik. München: C. H. Beck, 2000; NIPPERDEY, Thomas. Deutsche Geschichte 1866–1918. Machtstaat vor der Demokratie. München: C. H. Beck, 1992.
Sobre Auslandsdeutsche, nacionalismo transnacional e a organização de vínculos alemães fora das fronteiras do Reich, ver CONRAD, Sebastian. Globalisation and the Nation in Imperial Germany. Cambridge: Cambridge University Press, 2010; OSTERHAMMEL, Jürgen. Die Verwandlung der Welt: Eine Geschichte des 19. Jahrhunderts. München: C. H. Beck, 2009; DUDEN. „Deutschtum“.
Sobre germanismo, Deutschtum, escola, igreja, imprensa, associações, identidade teuto-brasileira e presença alemã no Sul do Brasil, ver SEYFERTH, Giralda. Nacionalismo e identidade étnica: a ideologia germanista e o grupo étnico teuto-brasileiro numa comunidade do Vale do Itajaí. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1981; GERTZ, René E. O fascismo no sul do Brasil: germanismo, nazismo, integralismo. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987; DREHER, Martin N. Igreja e germanidade: estudo crítico da história da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. São Leopoldo: Sinodal, 1984; DIETRICH, Ana Maria. Nazismo tropical? O Partido Nazista no Brasil. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2007.
Sobre cristianismo, poder, realeza, império e legitimação da ordem na tradição franca e medieval, ver REUTER, Timothy. Germany in the Early Middle Ages, c. 800–1056. London/New York: Longman, 1991; FRIED, Johannes. Karl der Große: Gewalt und Glaube. München: C. H. Beck, 2013.
Sobre a emergência moderna da nação como fundamento de pertencimento e como concorrente de antigas formas religiosas, dinásticas e imperiais de legitimidade, ver SMITH, Anthony D. The Ethnic Origins of Nations. Oxford: Blackwell, 1986; ANDERSON, Benedict. Imagined Communities: Reflections on the Origin and Spread of Nationalism. London/New York: Verso, 1983; BREUILLY, John. Nationalism and the State. 2. Aufl. Manchester: Manchester University Press, 1993.
Sobre nacionalismo alemão no século XIX, Reich, cultura, religião e crise da ideologia alemã, ver WINKLER, Heinrich August. Der lange Weg nach Westen. München: C. H. Beck, 2000; MOSSE, George L. The Crisis of German Ideology: Intellectual Origins of the Third Reich. New York: Grosset & Dunlap, 1964.
Sobre Volkstum, völkisch, radicalização do conceito de povo, sangue, solo, origem, raça, cultura e destino, ver MOSSE, George L. The Crisis of German Ideology. New York: Grosset & Dunlap, 1964; PUSCHNER, Uwe. „Die völkische Bewegung“. Bundeszentrale für politische Bildung, 07.07.2016.
Sobre cristianismo, germanidade, arianização de Jesus, “desjudaização” do cristianismo, filtragem racial da Bíblia e julgamento da religião por critérios nacionais e raciais, ver BERGEN, Doris L. Twisted Cross: The German Christian Movement in the Third Reich. Chapel Hill/London: University of North Carolina Press, 1996; HESCHEL, Susannah. The Aryan Jesus: Christian Theologians and the Bible in Nazi Germany. Princeton/Oxford: Princeton University Press, 2008; Deutsches Historisches Museum. „Deutsche Christen“.
Sobre a crise da República de Weimar, a derrota de 1918, o ressentimento nacional, a instabilidade política e a ascensão do nacional-socialismo, ver PEUKERT, Detlev J. K. The Weimar Republic: The Crisis of Classical Modernity. New York: Hill and Wang, 1992; WEITZ, Eric D. Weimar Germany: Promise and Tragedy. Princeton: Princeton University Press, 2007.
Sobre o texto de Lic. Pohlmann e as diferentes posições völkisch diante da relação entre Deutschtum e cristianismo, ver POHLMANN, Lic. Deutschtum und Christentum. Bordesholm: Heliand-Verlag, 1930. Sonderdruck aus der Landeskirche, Nr. 46; wiederabgedruckt, gekürzt, in: KÖPKE, Matthias (Hg.). Deutschtum und Christentum. Unüberbrückbare Gegensätze? Eine Sammlung von Aufsätzen. 5. erw. Aufl. Eigenverlag, 2020, S. 63–79. A edição de Köpke deve ser usada apenas como local de acesso documental à fonte histórica republicada, não como literatura secundária neutra ou autoridade acadêmica.
Sobre tentativas de harmonizar cristianismo, cultura alemã, interioridade religiosa e tradição intelectual protestante alemã, ver HARNACK, Adolf von. Das Wesen des Christentums. Leipzig: J. C. Hinrichs, 1900/1902; RINGER, Fritz K. The Decline of the German Mandarins: The German Academic Community, 1890–1933. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1969.
Sobre protestantismo, “Deutsche Christen”, cristianismo nacional e racializado, vínculo entre igreja territorial, Estado, Prússia, nacionalismo e nacional-socialismo, ver BERGEN, Doris L. Twisted Cross: The German Christian Movement in the Third Reich. Chapel Hill/London: University of North Carolina Press, 1996; GAILUS, Manfred. Protestantismus und Nationalsozialismus: Studien zur nationalsozialistischen Durchdringung des protestantischen Sozialmilieus in Berlin. Köln/Weimar/Wien: Böhlau, 2001; Deutsches Historisches Museum. „Deutsche Christen“.
Sobre catolicismo político, Zentrum, estrutura transnacional da Igreja Católica, antijudaísmo cristão, acomodação, resistência e Reichskonkordat de 1933, ver BLASCHKE, Olaf. Die Kirchen und der Nationalsozialismus. Stuttgart: Reclam, 2014; GAILUS, Manfred. „Das Verhältnis zwischen Kirche und Staat im nationalsozialistischen Deutschland“. Bundeszentrale für politische Bildung, 01.11.2018; Deutsches Historisches Museum. „Reichskonkordat 1933“.
Literatrur:
Die vollständige Literaturliste (Fußnoten 1–24), wie sie in Ihrem Dokument enthalten ist, lautet:
- GEARY, Patrick J. The Myth of Nations: The Medieval Origins of Europe. Princeton: Princeton University Press, 2002; SCALES, Len. The Shaping of German Identity: Authority and Crisis, 1245–1414. Cambridge: Cambridge University Press, 2012.
- GEARY, Patrick J. Before France and Germany: The Creation and Transformation of the Merovingian World. Oxford: Oxford University Press, 1988; REUTER, Timothy. Germany in the Early Middle Ages, c. 800–1056. London/New York: Longman, 1991.
- KREBS, Christopher B. A Most Dangerous Book: Tacitus’s Germania from the Roman Empire to the Third Reich. New York/London: W. W. Norton, 2011; GEARY, Patrick J. The Myth of Nations. Princeton: Princeton University Press, 2002; MOSSE, George L. The Crisis of German Ideology: Intellectual Origins of the Third Reich. New York: Grosset & Dunlap, 1964.
- MOSSE, George L. The Crisis of German Ideology. New York: Grosset & Dunlap, 1964; PUSCHNER, Uwe. „Die völkische Bewegung“. Bundeszentrale für politische Bildung, 07.07.2016.
- GREGOR VON TOURS. Historiae / Zehn Bücher Geschichten; WOOD, Ian. The Merovingian Kingdoms, 450–751. London/New York: Longman, 1994; GEARY, Patrick J. Before France and Germany. Oxford: Oxford University Press, 1988.
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