Entre todos os países europeus, nenhum influenciou de maneira tão profunda o destino moderno da França quanto a Alemanha – primeiro por meio dos diferentes Estados germânicos, sobretudo da Prússia; depois, por meio do Império Alemão constituído em 1871; mais tarde, por meio da Alemanha nacional-socialista; e, após 1945, pela República Federal da Alemanha, que se tornaria o principal parceiro francês na construção de uma nova ordem europeia.

Durante séculos, a França exerceu, de maneira natural e não como resultado de um projeto deliberado de dominação, enorme influência cultural, política e social sobre os diferentes Estados do espaço germânico. Essa influência decorria do prestígio alcançado por sua língua, sua literatura, sua filosofia, suas artes, sua arquitetura, sua moda, sua corte e suas instituições políticas. As elites dos Estados germânicos adotaram voluntariamente muitos desses elementos porque reconheciam na França uma das principais referências culturais e políticas da Europa.
A admiração pela cultura francesa não desapareceu quando a Prússia começou a crescer como potência militar. Paralelamente, porém, a monarquia prussiana passou a buscar maior poder no sistema europeu, a impor sua liderança sobre os demais Estados germânicos e a alterar a relação de forças no continente.
A rivalidade que posteriormente se desenvolveu não nasceu de qualquer projeto francês destinado a submeter os Estados germânicos. Ela resultou da expansão do poder prussiano e da decisão de construir a unidade alemã sob a hegemonia de Berlim.
Nesse processo, era sobretudo a posição da França – uma das principais potências políticas, militares e culturais da Europa continental – que a Prússia procurava reduzir. A França não era responsável pelas divisões existentes entre os Estados germânicos, mas seria deliberadamente transformada em adversário externo de uma unificação conduzida pela pressão política, pela provocação diplomática e pela guerra.
A história franco-alemã moderna percorreu, assim, um caminho extraordinário: da admiração cultural à instrumentalização política da França, da provocação à invasão, da guerra à ocupação e, somente depois das catástrofes causadas pelo poder alemão, à reconciliação e à construção conjunta da Europa.
A França como referência cultural dos Estados germânicos
Antes da formação do Estado nacional alemão, o espaço de língua alemã era composto por numerosos reinos, principados, ducados, cidades livres e territórios de diferentes dimensões e tradições políticas.
A França não mantinha relações com uma “Alemanha” unificada, porque essa Alemanha ainda não existia. Relacionava-se separadamente com Prússia, Baviera, Saxônia, Hannover, Württemberg e muitos outros Estados.
Durante séculos, comerciantes, artistas, intelectuais, artesãos, diplomatas e refugiados circularam entre os dois lados do Reno. Produtos franceses eram consumidos nas cortes germânicas, enquanto manufaturas, matérias-primas e mercadorias dos territórios alemães chegavam ao mercado francês.
A influência da França alcançou especialmente as elites. O francês tornou-se língua de comunicação diplomática, cultura aristocrática e distinção social em grande parte da Europa. A literatura, a filosofia, a moda, a arquitetura e os costumes franceses eram admirados e adotados por diversas cortes germânicas.
Na Prússia, Frederico II escrevia grande parte de suas obras em francês, correspondia-se com intelectuais franceses e procurava inserir sua corte no universo cultural dominado pelo prestígio de Paris. Ele próprio se apresentava como filósofo: intitulou uma edição de seus escritos, publicada em 1750, Oeuvres du philosophe de Sans-Souci – “Obras do filósofo de Sanssouci”. Antes de subir ao trono, havia escrito o Anti-Machiavel, no qual procurava apresentar uma concepção racional e moral do exercício do poder. Sua autodefinição como filósofo e sua proximidade com Voltaire mostram até que ponto a corte prussiana desejava participar do universo intelectual francês, embora sua posterior política como monarca também tenha sido marcada pela guerra, pela expansão territorial e pelo fortalecimento militar da Prússia.
Essa influência não foi imposta militarmente pela França às elites alemãs. Resultou da atração exercida por uma cultura que havia alcançado elevada projeção europeia.
A França foi admirada porque havia produzido algo que os diferentes Estados germânicos reconheciam como valioso: uma língua internacional, uma intensa vida intelectual, uma arquitetura de prestígio, instituições centralizadas e uma cultura capaz de irradiar-se para além de suas fronteiras.
A ascensão da Prússia e a transformação da relação
A influência cultural francesa continuou existindo. A relação política, contudo, modificou-se à medida que a Prússia ampliou seu território, fortaleceu seu exército e passou a disputar a hegemonia no espaço germânico.
Depois das guerras napoleônicas, a Prússia realizou reformas administrativas e militares e consolidou progressivamente sua posição na Europa Central.
A unificação alemã não ocorreu pela simples reunião espontânea de todos os povos de língua alemã. Ela foi conduzida pela monarquia prussiana e avançou por meio de guerras que eliminaram ou subordinaram os principais obstáculos à sua liderança.
A guerra contra a Dinamarca, em 1864, ampliou a influência prussiana. A guerra de 1866 afastou a Áustria do processo de unificação, dissolveu a antiga Confederação Germânica e estabeleceu a hegemonia da Prússia sobre os Estados situados ao norte do rio Meno.
A Prússia também anexou territórios de Estados alemães que haviam combatido ao lado da Áustria, destronou seus governantes e constituiu, em 1867, a Confederação da Alemanha do Norte, dotada de política externa, estrutura militar e instituições comuns sob direção prussiana.
Os principais Estados do sul – Baviera, Württemberg, Baden e parte de Hesse-Darmstadt – permaneceram formalmente fora dessa estrutura. Preservavam suas dinastias, instituições e parte de sua soberania. Alguns de seus governantes e setores de suas sociedades desconfiavam da predominância prussiana e não desejavam simplesmente submeter-se a Berlim.
Uma guerra contra uma potência externa poderia modificar essa situação. Ela permitiria ativar alianças militares, colocar exércitos de diferentes Estados sob comando prussiano e apresentar a união política como necessidade de defesa nacional.
Foi nesse contexto que a França se tornou útil ao projeto de Bismarck.
A França utilizada para resolver um problema interno alemão
A França não tinha responsabilidade pelas dificuldades enfrentadas pela Prússia para incorporar os Estados alemães do sul. Não cabia aos franceses resolver as divergências entre Prússia, Baviera, Württemberg, Baden ou Hesse-Darmstadt. Tampouco era dever da França facilitar a formação de um novo Estado poderoso em sua fronteira oriental.
Ainda assim, Bismarck percebeu que um conflito com a França poderia transformar as divisões internas alemãs em unidade militar sob liderança prussiana.
O mecanismo era claro: uma ameaça externa comum permitiria mobilizar sentimentos nacionais, ativar os tratados defensivos existentes e reduzir a resistência dos Estados do sul à hegemonia de Berlim.
A França foi, assim, convertida em instrumento de um projeto que não lhe pertencia.
Não foi escolhida por ser culturalmente hostil aos alemães. Pelo contrário: era uma potência admirada, prestigiosa e reconhecida internacionalmente. Justamente por isso, sua derrota proporcionaria à Prússia uma vitória de enorme valor político e simbólico.
Derrotar a França significaria não apenas vencer um exército vizinho, mas superar uma das principais referências de poder, cultura e prestígio da Europa.
A crise provocada por Bismarck
A crise imediata de 1870 começou com a candidatura do príncipe Leopoldo de Hohenzollern-Sigmaringen, ligado à dinastia prussiana, ao trono da Espanha.
Para a França, a possibilidade de haver um Hohenzollern na Espanha e outro governando a Prússia representava o risco de um cerco dinástico e estratégico.
A candidatura foi retirada depois dos protestos franceses. Essa retirada poderia ter encerrado a crise.
Em julho de 1870, porém, o embaixador francês Vincent Benedetti encontrou-se em Bad Ems com o rei Guilherme I da Prússia. Benedetti solicitou que o rei garantisse que a candidatura dos Hohenzollern ao trono espanhol não seria renovada no futuro.
Guilherme I rejeitou essa exigência de maneira cortês, e o episódio foi comunicado a Bismarck em um telegrama de tom relativamente moderado.
Antes de divulgar a mensagem à imprensa, Bismarck reduziu e endureceu deliberadamente seu conteúdo. A versão publicada retirava o contexto conciliatório e fazia parecer que o embaixador francês havia pressionado de forma humilhante o rei prussiano e que este havia dispensado de maneira ofensiva o representante da França.
A comparação documental entre o texto original e a versão divulgada mostra claramente a intervenção de Bismarck. A própria documentação histórica alemã afirma que ele estava decidido a provocar uma guerra, consultou os responsáveis militares prussianos e editou o despacho de modo calculado para provocar a reação francesa.
Bismarck conseguiu fazer a Prússia aparecer perante os Estados alemães como vítima de agressão. A versão editada convenceu aliados prussianos e parte da opinião pública alemã de que a França havia apresentado ao rei uma exigência degradante e inadmissível. Ao mesmo tempo, na França, a mensagem foi interpretada como uma rejeição deliberadamente ofensiva de uma tentativa de solução diplomática.
A França declarou formalmente guerra à Prússia em 19 de julho de 1870. Esse ato formal não pode, porém, ser isolado da estratégia que o produziu e apresentado como causa autônoma da guerra. A declaração francesa foi precisamente a reação que Bismarck procurara provocar.
Reduzir toda a causalidade do conflito à frase “a França declarou guerra” significa reproduzir a aparência política construída pelo próprio Bismarck: a de uma Prússia surpreendida por uma agressão e obrigada apenas a defender-se. Na realidade, Bismarck manipulou uma crise diplomática para fazer a França reagir, apresentar a Prússia como vítima e reunir os Estados alemães sob sua liderança. A documentação alemã reconhece que essa estratégia contribuiu substancialmente para que todos os Estados germânicos participassem da guerra e, depois da vitória, ingressassem no novo Império.
Da aliança militar à submissão política
Depois da declaração francesa, as alianças militares entre a Confederação da Alemanha do Norte e os Estados do sul foram ativadas. Baviera, Württemberg, Baden e Hesse-Darmstadt entraram na guerra ao lado da Prússia. Seus exércitos passaram a combater em uma estrutura militar dominada pelo comando prussiano. A guerra produziu a situação política desejada por Bismarck: Estados que ainda não haviam aceitado integrar um Estado nacional sob hegemonia de Berlim passaram a combater conjuntamente contra um inimigo externo.
A França foi, portanto, convertida em ameaça comum capaz de reduzir as divergências entre os próprios Estados alemães.
Depois das primeiras vitórias militares, Bismarck iniciou negociações para transformar a aliança de guerra em união política permanente. Baden e Hesse aproximaram-se mais rapidamente da Confederação do Norte; Baviera e Württemberg negociaram sua adesão preservando direitos especiais, como competências próprias em determinadas áreas administrativas e militares.
Os acordos concluídos em novembro de 1870 abriram o caminho para a entrada em vigor da nova estrutura estatal em 1º de janeiro de 1871. A proclamação imperial de 18 de janeiro transformou-se, porém, no principal símbolo da fundação do Império Alemão.
A França foi, assim, utilizada para resolver um problema interno do processo alemão de unificação. A declaração formal francesa de guerra, deliberadamente provocada por Bismarck, permitiu à Prússia apresentar-se como vítima e transformar a submissão à sua liderança em união necessária diante de uma ameaça externa.
Uma guerra alemã travada em território francês
A guerra não permaneceu na fronteira nem foi travada principalmente em território prussiano. Os exércitos dos Estados alemães avançaram sobre a França, derrotaram sucessivamente as forças francesas, capturaram Napoleão III em Sedan e penetraram profundamente no país. Paris foi cercada pelas tropas alemãs a partir de setembro de 1870. A população enfrentou fome, escassez de combustível, frio, doenças e bombardeios. A capital francesa permaneceu cercada por aproximadamente quatro meses e capitulou em 28 de janeiro de 1871.
A guerra causou enormes perdas humanas entre militares e civis franceses. Destruiu localidades, interrompeu atividades econômicas, submeteu populações à ocupação e transferiu para a França o custo humano e material de um projeto concebido para fortalecer a Prússia e concluir a unificação alemã.
Enquanto os franceses sofriam a invasão e Paris permanecia cercada, os governantes alemães negociavam e celebravam a constituição de seu novo Estado.
O Império Alemão proclamado em Versalhes
Em 18 de janeiro de 1871, Guilherme I da Prússia foi proclamado imperador alemão no Salão dos Espelhos do Palácio de Versalhes.
O Império já possuía fundamento constitucional desde 1º de janeiro, mas a proclamação em Versalhes tornou-se, na memória alemã, o verdadeiro ato simbólico de fundação nacional.
A escolha de Versalhes possuía também razões práticas: o palácio abrigava o quartel-general alemão, oferecia infraestrutura e se encontrava próximo o suficiente de Paris para dirigir o cerco.
Isso não elimina seu significado político. Versalhes era um dos lugares mais importantes da memória nacional francesa, associado ao reinado de Luís XIV, ao poder da monarquia e à projeção internacional da França. Proclamar o novo Império naquele espaço, em território francês ocupado e enquanto Paris ainda estava cercada, transformou a fundação alemã em demonstração de triunfo sobre uma França derrotada.
O próprio Museu Histórico Alemão reconhece que Versalhes era um lugar de identificação nacional francesa e que, para os franceses, a proclamação imperial ali realizada, juntamente com a perda da Alsácia-Lorena, significou vergonha e humilhação.
A França foi obrigada a entregar a Alsácia e parte da Lorena e a pagar uma indenização de cinco bilhões de francos.
A criação do novo Estado alemão foi, assim, acompanhada pela invasão da França, pelo cerco de sua capital, por enormes perdas humanas, pela anexação de seu território, pela cobrança de uma indenização extraordinária e pela utilização de um de seus maiores símbolos históricos como palco da elevação imperial alemã.
A Alemanha torna-se potência sobre uma França derrotada
Antes de 1871, a França tinha diante de si diversos Estados germânicos.
Depois da guerra, passou a enfrentar um Império Alemão unificado, demograficamente maior, militarmente poderoso, economicamente dinâmico e situado diretamente em sua fronteira oriental.
O novo Império já nasceu superior à França e à Áustria-Hungria em população, dimensão territorial, capacidade econômica e força militar.
A derrota francesa não foi apenas um acontecimento paralelo à fundação alemã. Ela constituiu parte do mecanismo político, militar e simbólico pelo qual a Prússia conseguiu transformar sua hegemonia sobre os Estados germânicos em um novo Estado imperial.
A vitória sobre uma das principais potências da Europa forneceu à Prússia:
- a mobilização nacional necessária para reunir os Estados alemães;
- o prestígio militar para impor sua liderança;
- a oportunidade política para negociar a adesão dos Estados do sul;
- a alteração do equilíbrio continental;
- e um mito fundador capaz de apresentar a unidade alemã como resultado de força, guerra e triunfo.
A ascensão alemã e o sofrimento francês não foram acontecimentos independentes.
O novo Império elevou-se politicamente por meio da derrota concreta da França. Sua fundação foi consumada enquanto a França estava invadida, Paris cercada e sua população submetida às consequências humanas da guerra.
Não se tratou apenas de vencer um vizinho. Tratou-se de utilizar a derrota de uma potência admirada e prestigiosa como degrau para a própria elevação alemã.
O nascimento de um Deutschtum imperial
O conceito de Deutschtum existia antes de 1871 e podia designar língua, cultura, costumes, pertencimento e consciência de germanidade.
A fundação do Império, contudo, modificou profundamente as possibilidades políticas desse conceito.
A germanidade já não estava ligada apenas a comunidades culturais dispersas ou aos diferentes Estados germânicos. Passou a poder ser associada a um Estado nacional unificado, a um imperador, a um exército comum, a uma vitória militar e à condição de grande potência.
É nesse sentido que a guerra de 1870–1871 contribuiu para a formação de um Deutschtum de grandeza imperial.
Essa conclusão não decorre de uma suposta “alma alemã” imutável. Decorre da maneira como os acontecimentos foram transformados em memória política e nacional.
A proclamação em Versalhes tornou-se, para grande parte da sociedade alemã, o principal símbolo da fundação do Reich. A vitória militar foi celebrada como realização dos desejos nacionais, e a unificação apareceu como ponto culminante da história alemã. O Museu Histórico Alemão registra que a maioria da população alemã viu a proclamação imperial como a realização da unidade nacional e como um dos grandes momentos de sua história.
A memória dessa vitória ajudou, portanto, a consolidar uma representação da germanidade na qual se uniam:
- pertencimento nacional;
- hegemonia prussiana;
- poder estatal;
- organização militar;
- vitória sobre uma grande potência;
- e elevação da Alemanha a uma posição dominante na Europa.
A derrota da França tornou-se parte constitutiva dessa narrativa de ascensão.
O novo Deutschtum imperial não se alimentava apenas do fato de a Alemanha haver demonstrado capacidade de vencer uma guerra. Alimentava-se de ter derrotado uma das potências mais admiradas, prestigiosas e influentes da Europa e de ter utilizado essa derrota para afirmar diante do mundo sua própria grandeza.
A França, que durante séculos havia irradiado cultura e prestígio de maneira natural, foi transformada pela política prussiana em objeto de uma vitória destinada a conferir grandeza ao novo Estado alemão.
A elevação imperial alemã foi, assim, simbolicamente construída sobre uma França invadida, vencida, mutilada territorialmente e humilhada em um de seus espaços históricos mais venerados.
A nova invasão de 1914
Em 1914, a França foi novamente invadida por forças alemãs. A Primeira Guerra Mundial resultou de uma crise europeia ampla, envolvendo alianças militares, nacionalismos, disputas entre potências e o conflito desencadeado nos Bálcãs. Esse contexto não reduz a responsabilidade da liderança do Império Alemão pela decisão de levar novamente a guerra ao território francês.
A estratégia militar alemã previa derrotar rapidamente a França antes de concentrar suas forças contra a Rússia. Para realizar esse plano, o exército alemão invadiu a Bélgica, violou sua neutralidade e avançou sobre o norte da França em direção a Paris. A invasão da Bélgica e da França não foi um acontecimento acidental. Integrava o planejamento militar do Império Alemão.
O avanço foi detido na Batalha do Marne, mas grande parte do nordeste da França permaneceu ocupada ou transformada em campo de batalha durante anos. Cidades, vilas, fábricas, estradas, campos agrícolas e infraestruturas francesas foram destruídos ou profundamente danificados.
Mais uma vez, a França teve de suportar em seu próprio território os efeitos de uma estratégia concebida pela liderança política e militar do Império Alemão e executada por seus exércitos.
A insegurança francesa depois de 1918
A vitória dos Aliados não eliminou o medo francês de uma nova invasão. A França havia sofrido, em menos de cinquenta anos, duas guerras conduzidas por forças alemãs em seu território, ocupações, destruições materiais e perdas humanas imensas. Sua preocupação com reparações, garantias territoriais e limitação da capacidade militar alemã não nasceu de uma hostilidade irracional contra os alemães. Resultou da experiência concreta de repetidas invasões.
Durante a República de Weimar, houve tentativas importantes de aproximação e cooperação, sobretudo na segunda metade da década de 1920. Essas iniciativas, porém, não conseguiram criar uma reconciliação suficientemente sólida para sobreviver à crise econômica, à desestabilização da democracia alemã e à ascensão do nacional-socialismo.
A invasão e a ocupação de 1940
Em 10 de maio de 1940, a Alemanha invadiu novamente a França. Dessa vez, o país agressor estava sob o domínio de uma ditadura racista, expansionista e genocida, empenhada em reorganizar a Europa pela guerra, pela exploração e pela perseguição de povos inteiros. As forças alemãs atravessaram os Países Baixos, a Bélgica e as Ardenas, romperam as linhas aliadas e avançaram rapidamente sobre o território francês. Paris foi ocupada em junho de 1940.
O armistício de 22 de junho dividiu a França em diferentes zonas. Grande parte do território ficou sob ocupação militar alemã direta; em novembro de 1942, as forças alemãs ocuparam também a região anteriormente administrada pelo regime de Vichy sem presença militar permanente do Reich. A ocupação significou perda de soberania, exploração econômica, requisição de alimentos e matérias-primas, trabalho forçado, prisões, torturas, execuções e perseguição política. Os órgãos militares, diplomáticos e policiais alemães atuaram diretamente na repressão. Participaram da perseguição, prisão e deportação de judeus e de outros grupos submetidos à violência nacional-socialista.
Paris permaneceu sob domínio alemão até agosto de 1944. A terceira grande invasão da França por forças alemãs desde 1870 atingiu uma dimensão ainda mais destrutiva e criminosa do que as anteriores.
Nos três conflitos que mais profundamente determinaram o destino francês entre 1870 e 1945, forças alemãs atravessaram as fronteiras e levaram a guerra ao território francês. Desde a formação do Estado alemão, a França foi repetidamente vítima de projetos alemães de poder que utilizaram provocação, invasão, guerra e ocupação como instrumentos políticos.
A ruptura histórica depois de 1945
Depois da derrota da Alemanha nacional-socialista, a relação entre França e Alemanha precisava ser reconstruída sobre bases inteiramente novas. A França havia sofrido três invasões conduzidas por forças alemãs desde 1870, sucessivas ocupações de partes de seu território e, entre 1940 e 1944, a submissão de Paris e de grande parte do país ao domínio do regime nacional-socialista.
A República Federal da Alemanha, criada em 1949, precisava demonstrar que seu futuro não seria novamente construído pela força militar, pela expansão territorial e pela derrota de seus vizinhos. A solução encontrada não consistiu em apagar o passado, mas em criar instituições que impedissem sua repetição.
Em 9 de maio de 1950, o ministro francês das Relações Exteriores, Robert Schuman, propôs colocar a produção francesa e alemã de carvão e aço sob uma autoridade comum. Carvão e aço eram recursos fundamentais para a indústria e para a capacidade de guerra. Sua administração conjunta deveria tornar uma nova guerra entre França e Alemanha não apenas impensável, mas materialmente impossível. A Comunidade Europeia do Carvão e do Aço tornou-se uma das origens institucionais da atual União Europeia.
Reconciliação não significa esquecimento
Em 22 de janeiro de 1963, Charles de Gaulle e Konrad Adenauer assinaram o Tratado do Eliseu.
A cooperação franco-alemã passou a abranger política externa, defesa, educação, juventude, economia e cultura.
Essa reconciliação possui enorme valor histórico precisamente porque não ocorreu depois de simples desentendimentos diplomáticos.
Ela ocorreu depois de três invasões da França por forças alemãs, de guerras, ocupações, destruições e perdas humanas causadas pelas políticas de poder da Prússia, do Império Alemão e da Alemanha nacional-socialista.
A reconciliação não absolveu retroativamente Bismarck, o Império Alemão ou o regime nacional-socialista.
Também não transformou agressões em conflitos neutros nem exigiu a distribuição artificial das responsabilidades.
Ela significou que a Alemanha democrática não deveria mais construir sua grandeza por meio da derrota da França e que a França aceitou construir com a nova Alemanha uma ordem baseada em democracia, cooperação e paz.
Da Alemanha agressora à Alemanha parceira
A República Federal da Alemanha representou uma ruptura institucional com os projetos anteriores de grandeza pela força.
Depois de 1945, a Alemanha ocidental vinculou sua reconstrução à democracia parlamentar, à integração europeia e ao entendimento com a França.
A antiga relação baseada na disputa pela predominância continental foi gradualmente substituída por uma parceria.
Paris e Bonn, e mais tarde Paris e Berlim, tornaram-se polos centrais da integração europeia.
Essa parceria não eliminou diferenças políticas, econômicas e estratégicas. Criou, porém, instituições capazes de tratar essas diferenças por meio de negociações e compromissos, em lugar da guerra.
O destino moderno da França e a Alemanha
O Reino Unido foi durante séculos um dos principais rivais marítimos, coloniais e imperiais da França. Espanha, Áustria, Rússia e outras potências também desempenharam papéis importantes em sua história. Para o destino continental da França desde o século XIX, contudo, nenhuma relação foi tão decisiva quanto a relação com a Alemanha.
- A França foi utilizada por Bismarck como adversário externo para concluir a unificação alemã.
- Foi invadida e profundamente destruída pelo Império Alemão durante a Primeira Guerra Mundial.
- Foi derrotada, ocupada, explorada e submetida à repressão da Alemanha nacional-socialista durante a Segunda Guerra Mundial.
- E foi com a República Federal da Alemanha que construiu, depois de 1945, o núcleo político da integração europeia.
A Alemanha foi, portanto, sucessivamente para a França espaço de admiração cultural, potência concorrente, agressora militar, ocupante e, finalmente, parceira democrática. Apesar de todo o sofrimento da franca e dos franceses, a Alemanha depois de tudo que Fey contra a franca foi amparada pela Franca para poder existir depois de 1945.
Um destino transformado
A história franco-alemã demonstra que a reconciliação não exige falsificação do passado.
Não é necessário distribuir artificialmente responsabilidades para tornar possível a amizade entre os povos.
Ao contrário: uma reconciliação verdadeira só pode existir quando as agressões, as vítimas e as responsabilidades são apresentadas com clareza.
A França não criou a guerra de 1870 para ajudar os alemães a formar seu Estado. Bismarck manipulou deliberadamente uma crise diplomática, provocou a reação francesa e utilizou a França como instrumento de seu projeto de unificação.
A França não levou a guerra à Alemanha em 1914. Foi invadida pelo exército do Império Alemão.
A França não ocupou Berlim em 1940. Paris foi ocupada pelas forças da Alemanha nacional-socialista.
Depois de 1945, franceses e alemães demonstraram que a história não precisava continuar presa a essa lógica.
A França, apesar das invasões e ocupações sofridas, aceitou construir uma comunidade política com uma Alemanha democrática.
A República Federal da Alemanha rompeu institucionalmente com a busca de grandeza pela guerra e vinculou seu futuro ao entendimento com o país que os regimes alemães anteriores haviam repetidamente invadido.
A verdadeira grandeza da reconciliação franco-alemã está nisso: ela não nasceu da inexistência de responsabilidade histórica, mas do reconhecimento de que a Alemanha não deveria voltar a construir sua força sobre a derrota da França.
Durante décadas, a Alemanha determinou parte do destino francês por meio da provocação, da invasão e da ocupação.
Depois de 1945, França e Alemanha decidiram determinar conjuntamente seu futuro por meio da democracia, da paz e da integração europeia.
Depois de três ocupações
A Alemanha foi, portanto, sucessivamente, para a França, objeto de admiração cultural, potência concorrente, agressora militar, ocupante e, finalmente, parceira democrática.
A transformação dessa relação adquire dimensão ainda maior quando se considera o sofrimento imposto à França e aos franceses. Depois de ter sido repetidamente invadida, parcialmente destruída, ocupada e submetida à exploração alemã, a França não respondeu procurando manter indefinidamente a Alemanha derrotada, isolada e politicamente impotente.
Ao contrário, a França desempenhou papel decisivo na reconstrução e na reintegração da Alemanha ocidental à comunidade das nações europeias. Apesar de tudo o que os regimes alemães anteriores haviam feito contra seu território, sua soberania e sua população, a França aceitou apoiar a formação de uma Alemanha democrática, economicamente recuperada e novamente reconhecida como parceira política.
A proposta francesa de colocar o carvão e o aço sob uma autoridade comum abriu à República Federal da Alemanha o caminho para participar, em condições de progressiva igualdade, da construção europeia. A França contribuiu, assim, não apenas para impedir uma nova guerra, mas também para devolver à Alemanha ocidental legitimidade internacional, confiança política e um lugar estável na Europa democrática.
Esse gesto não apagou as responsabilidades alemãs nem diminuiu o sofrimento francês. Pelo contrário: sua grandeza histórica decorre justamente do fato de a França ter estendido a mão ao país cujos regimes anteriores haviam repetidamente invadido seu território, ocupado sua capital e causado perdas humanas e materiais imensas.
Depois de ter sido utilizada como degrau para a ascensão imperial alemã e transformada em alvo de sucessivas agressões, a França ajudou a criar as condições para que uma nova Alemanha pudesse existir não como potência agressora, mas como Estado democrático, parceiro europeu e participante de uma ordem fundada na paz.
Bibliografia mínima para entender a verdade histórica
Doze obras principais:
- WAWRO, Geoffrey. The Franco-Prussian War. Cambridge University Press, 2003.
- CHRASTIL, Rachel. Bismarck’s War. Basic Books, 2023.
- STEEFEL, Lawrence D. Bismarck, the Hohenzollern Candidacy, and the Origins of the Franco-German War of 1870. Harvard University Press, 1962.
- PFLANZE, Otto. Bismarck and the Development of Germany. Princeton University Press, 1990.
- MITCHELL, Allan. Bismarck and the French Nation, 1848–1890. 1971.
- SCHULZE, Hagen. The Course of German Nationalism. Cambridge University Press, 1991.
- ROTH, François. La Guerre de 1870. Fayard, 1990.
- LEONHARD, Jörn. Bellizismus und Nation. Oldenbourg, 2008.
- VOGEL, Jakob. Nationen im Gleichschritt. Vandenhoeck & Ruprecht, 1997.
- CHICKERING, Roger. We Men Who Feel Most German. Allen & Unwin, 1984.
- JACKSON, Julian. France: The Dark Years, 1940–1944. Oxford University Press, 2001.
- LAUB, Thomas J. After the Fall. Oxford University Press, 2010.
Avaliação específica da tese sobre o Deutschtum
O fato de a vitória de 1870–1871 ter contribuído para a formação de um Deutschtum de grandeza imperial não se explica apenas pela história militar da guerra. Decorre também da construção de um Estado nacional alemão que transformou a vitória sobre a França em fundamento de unidade, orgulho e identidade coletiva.
O novo Império reuniu sob a liderança prussiana Estados que até então preservavam governos, exércitos e tradições próprias. A proclamação de Guilherme I como imperador alemão ofereceu a essa união uma figura soberana, instituições comuns, um exército nacional e uma narrativa histórica compartilhada. A unidade política passou a ser apresentada como resultado da força, da organização e da vitória alemãs.
A derrota de uma das principais potências políticas, militares e culturais da Europa conferiu ao novo Estado uma posição internacional que os diferentes Estados germânicos, isoladamente, jamais haviam possuído. O orgulho não decorria apenas da existência de uma Alemanha unificada, mas da forma como essa Alemanha havia surgido: pela vitória militar sobre a França, pela proclamação imperial em Versalhes e pela alteração do equilíbrio de poder europeu.
A guerra e a fundação do Estado reforçaram-se, assim, mutuamente. A vitória tornou possível a unificação sob hegemonia prussiana; o novo Império, por sua vez, transformou essa vitória em mito fundador, memória nacional e motivo de orgulho coletivo. Festas, monumentos, comemorações, ensino histórico e símbolos imperiais ajudaram posteriormente a integrar o acontecimento à cultura política alemã.
Nesse contexto, o Deutschtum adquiriu uma dimensão nova. Já não significava somente língua, cultura, costumes ou pertencimento germânico. Passou também a ser associado a um Estado poderoso, a uma monarquia imperial, à força militar, ao prestígio internacional e à convicção de que a Alemanha havia finalmente alcançado o lugar de grande potência que lhe seria devido.
O Deutschtum de grandeza imperial nasceu, portanto, da ligação entre unidade nacional, orgulho estatal, hegemonia prussiana e vitória sobre a França. A derrota francesa não foi apenas um episódio anterior à fundação do Império: foi incorporada à narrativa que explicava e celebrava a própria ascensão alemã.
Ela precisa da combinação de:
- Wawro e Chrastil: guerra, invasão e derrota da França;
- Pflanze e Schulze: unificação sob liderança prussiana;
- Retallack e Chickering: cultura política imperial;
- Leonhard e Vogel: guerra como formadora da nação;
- Frevert: militarização da sociedade;
- Chickering, We Men Who Feel Most German: transformação do pertencimento alemão em nacionalismo radical e expansionista;
- Eley: radicalização posterior da direita nacionalista.
Com esse conjunto, pode-se concluir de maneira historicamente fundamentada que a vitória sobre a França não foi apenas uma vitória militar: ela foi incorporada à memória nacional como ato fundador do Reich e ajudou a vincular Deutschtum, unidade estatal, poder prussiano, força militar e grandeza imperial.
As fontes abaixo são obras reais, publicadas por editoras acadêmicas ou historiadores reconhecidos. Elas sustentam os fatos centrais do artigo: influência cultural francesa, ascensão prussiana, unificação pela guerra, Despacho de Ems, invasão da França, cerco de Paris, proclamação em Versalhes, formação da cultura imperial alemã, invasões de 1914 e 1940 e reconciliação depois de 1945.
É importante distinguir: fontes comprovam os acontecimentos; já a formulação sobre um Deutschtum de grandeza imperial é uma conclusão histórica que precisa ser construída a partir de estudos sobre nacionalismo, militarismo, memória da guerra e cultura política imperial. O artigo faz essa relação entre a vitória sobre a França e a formação de uma identidade imperial alemã.
1. A obra central sobre a Guerra de 1870–1871
WAWRO, Geoffrey. The Franco-Prussian War: The German Conquest of France in 1870–1871. Cambridge: Cambridge University Press, 2003.
Esta deve ser uma das fontes principais do artigo. O próprio subtítulo — “The German Conquest of France” — identifica a guerra como conquista alemã da França. A obra trata:
- das causas da guerra;
- das guerras prussianas de unificação;
- da derrota da Áustria em 1866;
- da organização militar prussiana;
- da invasão da França;
- de Sedan;
- do cerco de Paris;
- das perdas humanas e materiais;
- da vitória alemã e da fundação do Império.
É uma obra acadêmica publicada pela Cambridge University Press e possui extensa documentação primária e bibliografia.
2. Uma obra recente centrada na experiência humana da guerra
CHRASTIL, Rachel. Bismarck’s War: The Franco-Prussian War and the Making of Modern Europe. New York: Basic Books, 2023.
É particularmente importante para os trechos sobre:
- sofrimento de militares e civis;
- invasão e ocupação da França;
- cerco de Paris;
- violência da guerra;
- refugiados, feridos e populações atingidas;
- transformação política da Europa;
- relação entre a guerra e a fundação alemã.
A obra foi publicada em 2023 e recebeu resenha acadêmica no American Historical Review.
3. Bismarck, a candidatura Hohenzollern e a provocação de 1870
STEEFEL, Lawrence Dinkelspiel. Bismarck, the Hohenzollern Candidacy, and the Origins of the Franco-German War of 1870. Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press, 1962.
Esta obra trata especificamente:
- da candidatura de Leopoldo de Hohenzollern ao trono espanhol;
- das negociações diplomáticas;
- das exigências francesas;
- da atuação de Bismarck;
- do Despacho de Ems;
- da utilização da crise para provocar o conflito;
- da relação entre guerra e unificação alemã.
O estudo conclui que Bismarck aproveitou a crise e a reação francesa para provocar a guerra e avançar a unificação alemã.
4. Biografia acadêmica fundamental de Bismarck
PFLANZE, Otto. Bismarck and the Development of Germany. 3 volumes. Princeton: Princeton University Press, 1990.
Volumes especialmente relevantes:
- Vol. I: The Period of Unification, 1815–1871
- Vol. II: The Period of Consolidation, 1871–1880
A obra sustenta:
- a política de poder prussiana;
- a exclusão da Áustria;
- a formação da Confederação da Alemanha do Norte;
- a relação com os Estados alemães do sul;
- o papel da guerra na unificação;
- a política de Bismarck diante da França;
- a consolidação posterior do Império.
É uma das biografias acadêmicas mais importantes de Bismarck e aparece na bibliografia de referência da Cambridge sobre a guerra.
5. França, Bismarck e a construção do antagonismo
MITCHELL, Allan. Bismarck and the French Nation, 1848–1890. New York: Pegasus, 1971.
Esta obra é especialmente adequada ao argumento central do artigo, pois analisa diretamente:
- a visão de Bismarck sobre a França;
- a utilização política da questão francesa;
- as relações franco-prussianas;
- a guerra de 1870;
- a política alemã posterior diante da França;
- as consequências da anexação da Alsácia-Lorena.
Também consta da bibliografia acadêmica da obra de Geoffrey Wawro.
6. Formação do Estado alemão pela Prússia
SCHULZE, Hagen. The Course of German Nationalism: From Frederick the Great to Bismarck, 1763–1867. Cambridge: Cambridge University Press, 1991.
Sustenta os capítulos sobre:
- fragmentação dos Estados germânicos;
- ascensão prussiana;
- nacionalismo alemão;
- relação entre cultura e política;
- transformação da Prússia em força condutora da unificação;
- caráter não predeterminado da formação do Estado alemão.
A obra enfatiza que o caminho para o Estado alemão dominado pela Prússia passou por revoluções, guerras, mudanças econômicas e disputas políticas — não por uma união espontânea e pacífica.
7. História geral da Alemanha antes de 1866
SHEEHAN, James J. German History, 1770–1866. Oxford: Oxford University Press, 1989.
É útil para fundamentar:
- a diversidade política dos territórios germânicos;
- a inexistência de uma Alemanha nacional unificada;
- o desenvolvimento da Prússia;
- as mudanças sociais e culturais;
- o nacionalismo;
- o caminho até a guerra austro-prussiana.
A obra consta da bibliografia acadêmica da Cambridge para a Guerra Franco-Alemã.
8. A questão alemã e o equilíbrio europeu
MOSSE, W. E. The European Powers and the German Question, 1848–1871. Cambridge: Cambridge University Press, 1958.
Fundamenta:
- a posição da França diante da unificação alemã;
- o equilíbrio entre as potências europeias;
- a ascensão da Prússia;
- a exclusão da Áustria;
- o impacto internacional da criação de um Estado alemão poderoso;
- a transformação da posição continental da França.
Também integra a bibliografia acadêmica de referência sobre a guerra.
9. A unificação alemã e a política diplomática
MURRAY, Scott W. Liberal Diplomacy and German Unification: The Early Career of Robert Morier. Westport: Praeger, 2000.
Ajuda a comprovar:
- as negociações diplomáticas em torno da unificação;
- o papel dos liberais nacionais;
- a liderança prussiana;
- as relações entre os Estados alemães;
- a dimensão internacional da criação do Império.
Consta da bibliografia da Cambridge sobre a Guerra Franco-Alemã.
10. História francesa da guerra
ROTH, François. La Guerre de 1870. Paris: Fayard, 1990.
É uma fonte francesa essencial para:
- invasão do território francês;
- mobilização e derrota do exército francês;
- cerco de Paris;
- ocupação;
- Alsácia-Lorena;
- consequências políticas para a França;
- memória francesa da derrota.
A obra aparece na bibliografia acadêmica da Cambridge.
11. Versalhes, derrota e cultura da memória
SCHIVELBUSCH, Wolfgang. The Culture of Defeat: On National Trauma, Mourning, and Recovery. New York: Metropolitan Books, 2003.
O original alemão é:
SCHIVELBUSCH, Wolfgang. Die Kultur der Niederlage: Der amerikanische Süden 1865, Frankreich 1871, Deutschland 1918. Berlin: Alexander Fest Verlag, 2001.
É particularmente relevante para:
- trauma francês depois de 1871;
- significado da derrota;
- memória nacional;
- humilhação;
- reações culturais e políticas;
- reconstrução da identidade francesa.
A obra é indicada pela bibliografia acadêmica da Cambridge sobre a Guerra Franco-Alemã.
12. História do Império Alemão
CHICKERING, Roger. The German Empire, 1871–1918. Cambridge: Cambridge University Press, 2025.
É uma síntese acadêmica atual sobre:
- construção do Estado nacional;
- instituições imperiais;
- hegemonia prussiana;
- nacionalismo;
- formação da comunidade nacional;
- militarismo;
- política mundial;
- memória e legado do Império.
Os capítulos mais relevantes são:
- “Building a Nation-State”;
- “The National Community”;
- “State and Society in the Era of Bismarck”;
- “Wilhelmine Germany”;
- “Global Germany”.
A obra e seus capítulos são publicados pela Cambridge University Press.
13. Império, militarismo e nacionalismo radical
RETALLACK, James (org.). Imperial Germany, 1871–1918. Oxford: Oxford University Press, 2008.
É uma obra coletiva importante para:
- Alemanha de Bismarck;
- Alemanha guilhermina;
- cultura e artes;
- cultura política;
- militarismo;
- nacionalismo radical;
- Primeira Guerra Mundial.
O volume afirma que o Império foi fundado com base na política de “sangue e ferro” de Bismarck e que a Alemanha imperial se tornou potência econômica e militar central da Europa.
14. Nacionalismo, guerra e formação da nação
LEONHARD, Jörn. Bellizismus und Nation: Kriegsdeutung und Nationsbestimmung in Europa und den Vereinigten Staaten 1750–1914. München: Oldenbourg, 2008.
Esta é uma fonte fundamental para a conclusão sobre o Deutschtum imperial, pois estuda:
- interpretação cultural da guerra;
- guerra como elemento de formação nacional;
- relação entre vitória militar e identidade;
- sacralização da nação;
- memória de guerra;
- militarização das ideias nacionais.
A obra aparece na bibliografia acadêmica recente da Cambridge sobre o Império Alemão.
15. Alemanha e França como “nações em armas”
VOGEL, Jakob. Nationen im Gleichschritt: Der Kult der “Nation in Waffen” in Deutschland und Frankreich, 1871–1914. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1997.
Sustenta:
- o culto à nação armada;
- a militarização da cultura nacional;
- as celebrações e símbolos militares;
- a comparação entre Alemanha e França;
- a incorporação da guerra às identidades nacionais depois de 1871.
Também é indicada pela bibliografia acadêmica da Cambridge.
16. Militarização da sociedade alemã
FREVERT, Ute. A Nation in Barracks: Modern Germany, Military Conscription and Civil Society. Oxford: Berg, 2004.
Título original:
FREVERT, Ute. Die kasernierte Nation: Militärdienst und Zivilgesellschaft in Deutschland. München: C. H. Beck, 2001.
É importante para fundamentar:
- incorporação do militarismo à vida social;
- serviço militar e cidadania;
- relação entre exército, Estado e identidade nacional;
- imagem da Alemanha como nação militarizada;
- cultura política posterior a 1871.
A obra aparece na bibliografia recente da Cambridge sobre o Império Alemão.
17. Nacionalismo pangermânico e Deutschtum
CHICKERING, Roger. We Men Who Feel Most German: A Cultural Study of the Pan-German League, 1886–1914. Boston: Allen & Unwin, 1984.
É uma das fontes mais importantes para demonstrar a transformação do Deutschtum em projeto político imperial e nacionalista. Trata:
- da Liga Pangermânica;
- da definição do que significava ser “mais alemão”;
- do nacionalismo radical;
- da expansão do pertencimento alemão além das fronteiras do Reich;
- da relação entre cultura, raça, política e poder;
- da expansão imperial.
A obra consta da bibliografia acadêmica da Cambridge.
18. Radicalização da direita nacionalista alemã
ELEY, Geoff. Reshaping the German Right: Radical Nationalism and Political Change after Bismarck. New Haven: Yale University Press, 1980.
Fundamenta:
- transformação do nacionalismo depois de Bismarck;
- organizações nacionalistas;
- radicalização política;
- imperialismo;
- política de massas;
- relação entre pertencimento nacional e projetos de poder.
Também está indicada pela bibliografia acadêmica da Cambridge sobre o Império Alemão.
19. O Império e a transformação da identidade alemã
LIULEVICIUS, Vejas Gabriel. The German Myth of the East: 1800 to the Present. Oxford: Oxford University Press, 2009.
O capítulo “Age of Empires, 1871–1914”, páginas 98–129, mostra como a unificação imperial transformou mitos, fronteiras e representações da identidade alemã, celebrando o novo Estado como culminação da cultura nacional e, posteriormente, associando nacionalismo, expansionismo, racismo e imperialismo.
20. A influência cultural francesa nos territórios alemães
Para esta parte, nenhuma única obra comprova todas as áreas enumeradas — língua, filosofia, moda, arquitetura, corte, literatura e instituições. É melhor usar fontes específicas.
MALBET, Françoise; VOLLMER, Helmut (orgs.). Die Zweisprachigkeit Friedrichs des Großen. Tübingen: Max Niemeyer, 1990.
Estuda o bilinguismo de Frederico II e sua preferência pelo francês. A descrição editorial confirma que Frederico preferia falar francês a alemão.
AAVV. The Small German Courts in the Eighteenth Century. Cambridge: Cambridge University Press, edição digital.
Trata da organização das pequenas cortes alemãs e da influência francesa sobre seus modelos cortesãos, sua língua e sua cultura. O material disponível registra que muitas cortes alemãs foram organizadas segundo modelos franceses.
VON DER LÜHE, Irmela et al. German Literature of the Eighteenth Century. Rochester: Camden House, 2022.
O volume acompanha o desenvolvimento literário alemão desde a forte influência do neoclassicismo francês até o estabelecimento de tradições literárias alemãs próprias.
Para a influência jurídica posterior:
VOGL, Thomas. Der Einfluss des französischen Rechts auf die Entwicklung der Handelsgerichtsbarkeit in Deutschland im 19. Jahrhundert. Berlin: Duncker & Humblot, 2021.
Estuda especificamente a influência do direito francês sobre a organização dos tribunais comerciais alemães no século XIX.
21. A invasão alemã da França em 1914
STRACHAN, Hew. The First World War. Volume I: To Arms. Oxford: Oxford University Press, 2001.
Obra fundamental para:
- crise de julho;
- decisões das potências;
- planejamento militar alemão;
- invasão da Bélgica;
- invasão da França;
- avanço em direção a Paris;
- Batalha do Marne.
BERGHAHN, Volker R. Germany and the Approach of War in 1914. 2. ed. London: Macmillan, 1993.
Trata:
- da política alemã anterior a 1914;
- da liderança política e militar;
- do expansionismo;
- das decisões que levaram à guerra;
- da posição do Império Alemão na crise europeia.
A obra integra a bibliografia acadêmica da Cambridge sobre a Guerra Franco-Alemã e o caminho até 1914.
22. A França ocupada entre 1940 e 1944
JACKSON, Julian. France: The Dark Years, 1940–1944. Oxford: Oxford University Press, 2001.
É uma das principais sínteses sobre:
- derrota de 1940;
- ocupação alemã;
- Vichy;
- colaboração;
- resistência;
- perseguição aos judeus;
- vida cotidiana;
- libertação;
- memória da ocupação.
A Oxford apresenta a obra como uma história abrangente das experiências francesas durante a ocupação.
LAUB, Thomas J. After the Fall: German Policy in Occupied France, 1940–1944. Oxford: Oxford University Press, 2010.
É particularmente importante porque analisa a ocupação a partir das políticas e instituições alemãs:
- governo militar;
- exploração da economia francesa;
- repressão;
- represálias;
- SS e polícia;
- espoliação;
- deportações raciais;
- trabalho forçado;
- utilização de trabalhadores franceses pela economia alemã.
A obra documenta que a Alemanha colocou recursos industriais franceses à disposição de seu esforço de guerra, perseguiu e deportou judeus e incorporou centenas de milhares de trabalhadores franceses à economia alemã.
ALARY, Éric. Nouvelle Histoire de l’Occupation. Paris: Perrin, 2019.
É uma síntese francesa recente sobre:
- chegada das forças alemãs;
- ocupação;
- exploração;
- repressão;
- fontes francesas e alemãs;
- retirada das forças ocupantes.
A resenha acadêmica em French History destaca que Alary utiliza documentos oficiais alemães e franceses, correspondência de soldados e diários civis.
23. Reconciliação franco-alemã e integração europeia
LUTTWAK, Edward. “Franco-German Reconciliation: The Overlooked Role of the Moral Re-Armament Movement”. In: JOHNSTON, Douglas; SAMPSON, Cynthia (orgs.). Religion, the Missing Dimension of Statecraft. Oxford: Oxford University Press, 1994, p. 37–63.
O capítulo trata:
- das feridas francesas de 1940;
- da humilhação da ocupação;
- da dificuldade da reconciliação;
- dos contatos entre franceses e alemães;
- da transformação moral e política da relação.
O resumo acadêmico destaca explicitamente o trauma francês causado pela derrota e pela ocupação alemã.
Para a fase posterior:
KROTZ, Ulrich; SCHILD, Joachim. “Franco-German Relations and the European Integration Process since 1990”. In: The Oxford Handbook of German Politics. Oxford: Oxford University Press, 2022, p. 491–508.
A obra apresenta a reconciliação franco-alemã como condição para a integração econômica e para a liderança conjunta na Europa.
Fontes primárias indispensáveis
Além das obras literárias e acadêmicas, o artigo deveria usar alguns documentos primários.
1. Despacho de Ems — versão original e versão editada
“Original and Edited Versions of the Ems Dispatch, July 13, 1870.”
Em: German History in Documents and Images.
É a fonte primária decisiva para demonstrar a intervenção de Bismarck. Reproduz:
- o relato anterior;
- a versão editada;
- as supressões;
- o endurecimento da mensagem;
- o efeito político pretendido.
A edição documental também explica que Bismarck estava decidido a provocar a França e que a versão divulgada ajudou a fazer a Prússia aparecer como vítima.
2. Memórias de Bismarck
BISMARCK, Otto von. Gedanken und Erinnerungen. 2 volumes. Stuttgart: J. G. Cotta, 1898.
Em inglês:
BISMARCK, Otto von. Bismarck: The Man and the Statesman. 2 volumes. London: Smith, Elder & Co., 1898.
Deve ser utilizada criticamente, pois Bismarck escreveu para construir sua própria imagem histórica. Ainda assim, é uma fonte primária indispensável para:
- seu relato da crise de Ems;
- sua conversa com Moltke e Roon;
- sua interpretação da guerra;
- sua política de unificação.
A edição consta das bibliografias acadêmicas da Cambridge.
3. Correspondência militar de Moltke
MOLTKE, Helmuth von. The Franco-German War of 1870–71. New York: Harper, 1892.
E:
MOLTKE, Helmuth von. Moltke’s Military Correspondence, 1870–71. London, 1991.
São fontes primárias sobre:
- planejamento militar;
- mobilização;
- invasão;
- operações em território francês;
- cerco de Paris;
- condução da guerra.
Ambas aparecem na bibliografia acadêmica da Cambridge.
