Deutschtum costuma ser traduzido como germanidade, mas seu significado histórico é muito mais amplo do que a simples preservação da língua alemã, de costumes familiares ou de tradições culturais. O termo designa o conjunto daquilo que é percebido como alemão e, sobretudo, a ideia de que esse conjunto constitui uma comunidade que deve ser preservada, fortalecida e transmitida. Pode abranger língua, cultura, educação, memória, religião, costumes, família, instituições, associações, empresas, redes econômicas e profissionais e, historicamente, também concepções de origem e pertencimento coletivo.¹

Essa distinção é fundamental. Deutschtum não significa simplesmente ser alemão. Tampouco todo alemão manifesta aquilo que historicamente pode ser identificado como Deutschtum. O conceito torna-se relevante quando o pertencimento alemão adquire um significado coletivo, normativo e de continuidade: aquilo que é percebido como alemão passa a ter valor próprio e torna-se objeto de preservação, fortalecimento, preferência e reprodução.
É por isso que o conceito pode ultrapassar cultura e folclore. Ele pode expressar uma orientação segundo a qual não apenas a língua e os costumes, mas também instituições, organizações, empresas, redes sociais, espaços comunitários e os próprios membros do coletivo alemão devem ser preservados e fortalecidos. Em determinados momentos históricos, essa concepção chegou a ser ligada a ideias de superioridade nacional, expansão econômica, influência política e pertencimento definido pela ascendência.
Uma identidade alemã anterior ao Estado alemão
A Alemanha como Estado nacional unificado somente surgiu em 1871. Durante séculos, populações de língua alemã viveram distribuídas entre reinos, principados, cidades livres, territórios e diferentes formações políticas. Muito antes da existência de um Estado nacional alemão, porém, desenvolveu-se a percepção de uma comunidade mais ampla ligada pela língua, pela cultura, pela memória histórica e por concepções de origem comum.²
O Deutschtum deu expressão a essa totalidade imaginada. Ser alemão podia significar pertencer culturalmente a algo maior do que o território político no qual alguém vivia.
No século XIX, especialmente durante o crescimento dos movimentos nacionais, essa identidade ganhou progressivamente significado político. O objetivo da unidade alemã combinou-se com a valorização da língua, da história, da cultura e das realizações atribuídas aos alemães.
Nesse contexto surgiu, em 1841, o conhecido verso “Deutschland, Deutschland über alles”. Seu significado original não era simplesmente “Alemanha acima de todos os outros países”. Hoffmann von Fallersleben escreveu o Lied der Deutschen num momento em que os territórios alemães estavam politicamente fragmentados; colocar a Alemanha “acima de tudo” significava, antes de tudo, colocar a unidade alemã acima das lealdades aos diversos Estados alemães. A frase adquiriria posteriormente outras associações nacionalistas e seria instrumentalizada pelo nacional-socialismo.³
Algo semelhante precisa ser observado em relação à frase derivada do poema Deutschlands Beruf, de Emanuel Geibel: “Am deutschen Wesen mag die Welt genesen”. Escrita em 1861, ela também nasceu no contexto da questão da unidade alemã. Posteriormente, porém, sua transformação popular em “Am deutschen Wesen soll die Welt genesen”— aproximadamente, “é pelo caráter alemão que o mundo deverá se regenerar” — tornou-se uma fórmula associada à convicção de que valores, instituições e formas alemãs de organização poderiam servir de modelo para outros povos.³
O importante, portanto, não é retirar essas expressões de seus contextos originais, mas observar como o nacionalismo alemão se transformou durante o século XIX.
De uma comunidade cultural a uma potência nacional
A fundação do Império Alemão em 1871 transformou profundamente as condições nas quais o Deutschtum podia operar. A comunidade cultural alemã possuía agora um poderoso Estado nacional.
A rápida industrialização, o crescimento científico e tecnológico, a força militar, a burocracia, o sistema educacional, a expansão comercial e, posteriormente, a aquisição de colônias alimentaram uma poderosa autoconfiança nacional. A Alemanha passou, em poucas décadas, de uma região politicamente fragmentada a uma das principais potências econômicas e militares do mundo.⁴
Especialmente nas últimas décadas do século XIX, setores do nacionalismo alemão começaram a atribuir significado político à presença de alemães espalhados pelo mundo. A emigração deixou de ser vista necessariamente como perda definitiva para a nação. Tornou-se possível imaginar que alemães que viviam no exterior continuassem pertencendo a um espaço alemão mais amplo.
Surgiu assim com crescente importância a ideia do Auslandsdeutschtum: a germanidade existente fora das fronteiras da Alemanha.
O alemão emigrava, mas – nessa concepção – não deveria deixar de ser alemão.
As comunidades alemãs no exterior poderiam preservar a língua, educar seus filhos dentro de uma tradição alemã, manter igrejas, escolas, jornais e associações, consumir produtos alemães, conservar relações econômicas com a Alemanha e funcionar como pontos de presença cultural e econômica alemã no mundo.⁵
Isso permitia conceber uma comunidade alemã transnacional que não coincidia necessariamente com as fronteiras políticas do Reich.
A história do Brasil que foi escrita por imigrantes alemães e que poucos brasileiros conhecem
É nesse contexto que o Brasil adquire uma importância extraordinária.
Desde 1824, centenas de milhares de imigrantes de língua alemã estabeleceram-se no país, especialmente no Sul. Ao longo do século XIX e das primeiras décadas do século XX, desenvolveram-se em diversas regiões do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná comunidades nas quais língua, família, escola, igreja, imprensa, associações, empresas e relações econômicas ajudavam a manter uma identidade germânica própria.
Isso não significa que existisse uma comunidade alemã homogênea. Havia profundas diferenças entre católicos e protestantes, liberais e conservadores, pessoas de diversas regiões de origem e, posteriormente, entre diferentes concepções de identidade brasileira e alemã. A própria historiografia demonstra que a imagem de uma comunidade germânica completamente uniforme não correspondia à realidade.⁶
Entretanto, a infraestrutura institucional da germanidade era extraordinariamente ampla.
Escolas alemãs, igrejas, associações, jornais, editoras, empresas, bancos, comerciantes, profissionais e redes familiares contribuíam para formar espaços nos quais a língua e a identidade alemãs podiam ser reproduzidas durante gerações. Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, o Brasil possuía uma das maiores concentrações de escolas alemãs existentes fora do espaço europeu; estimativas utilizadas pela historiografia apontam para cerca de 600 escolas alemãs no Brasil entre aproximadamente 900 existentes mundialmente em 1914.⁶
Para muitos imigrantes e descendentes, essas instituições simplesmente faziam parte da vida comunitária. Mas, para organizações nacionalistas, colonialistas, econômicas e posteriormente para setores do próprio Estado alemão, elas podiam representar algo mais: uma infraestrutura capaz de conservar e ampliar a influência alemã fora da Alemanha.
A historiografia mostra que emigrantes alemães no Sul brasileiro eram vistos por defensores do colonialismo alemão como potenciais consumidores de produtos alemães, intermediários culturais e instrumentos para assegurar prestígio e influência alemães.
Neudeutschland: uma “Nova Alemanha” no Sul do Brasil
Foi nesse ambiente que surgiu uma dimensão da imigração alemã que permanece pouco conhecida no Brasil.
O Sul brasileiro — especialmente Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná — não foi imaginado por todos os alemães da mesma forma. Mas, desde o século XIX, apareceu repetidamente em escritos de viajantes, publicistas, nacionalistas e defensores da colonização como território particularmente favorável à formação de comunidades alemãs duradouras.
A própria expressão Neudeutschland, uma “Nova Alemanha”, passou a ser utilizada.
Em 1864, F. Epp publicou em Mannheim a obra Rio Grande do Sul oder Neudeutschland — Rio Grande do Sul ou Nova Alemanha. O título é historicamente revelador. O território brasileiro não aparecia apenas como destino de emigrantes individuais, mas podia ser imaginado como espaço para a formação de uma nova sociedade alemã no ultramar.⁷
Essa ideia não nasceu em 1864. A literatura colonial alemã do século XIX já discutia a possibilidade de concentrar a emigração em determinadas regiões para impedir que os emigrantes fossem culturalmente absorvidos por outras sociedades. O Sul do Brasil e a região do Prata apareciam com frequência nesses projetos porque se acreditava que ali seria possível manter comunidades alemãs relativamente concentradas, economicamente produtivas e culturalmente vinculadas à Alemanha. A historiografia registra projetos de um Neudeutschland sul-americano desde antes da própria unificação alemã.
Com a criação do Império Alemão, essas ideias adquiriram um novo significado. Já não existia apenas uma cultura ou uma comunidade alemã fragmentada na Europa: existia agora um Estado alemão poderoso, industrializado e, a partir da década de 1880, formalmente colonial.
Determinados círculos passaram então a imaginar uma colonização alemã concentrada no Sul do Brasil que preservasse o Deutschtum, fortalecesse as relações econômicas com o Reich e produzisse, a longo prazo, uma região cada vez mais marcada pela germanidade.
Quando a ideia chegou ao corpo diplomático alemão
A importância histórica dessa ambição torna-se ainda mais clara porque ela não permaneceu limitada a escritores ou associações privadas.
O representante imperial alemão no Brasil Rudolf Friedrich Le Maistre considerou a possibilidade de transformar progressivamente o Sul brasileiro — especialmente o Rio Grande do Sul — em um território alemão, um brasilianisches Neudeutschland, uma “Neudeutschland brasileira”.
Segundo a documentação reproduzida pela historiografia, Le Maistre imaginava que, caso o Império brasileiro viesse no futuro a se desintegrar, esse território germanizado poderia acabar sendo incorporado pela Alemanha como uma colônia praticamente já constituída.⁸
A formulação é extraordinária porque demonstra que a ideia de uma Neudeutschland havia penetrado círculos oficiais da representação alemã no Brasil.
Isso não significa, contudo, que o governo alemão tenha adotado uma política contínua e uniforme de anexação do Sul brasileiro. Bismarck rejeitou esse tipo de projeto territorial. A política oficial alemã permaneceu muito mais cautelosa do que os programas defendidos pelos pangermanistas e por determinados colonialistas.⁸
Essa distinção é essencial: houve projetos de anexação, fantasias coloniais e propostas formuladas inclusive por representantes oficiais, mas isso não equivale a afirmar que existisse um plano governamental permanente e operacional para conquistar militarmente o Sul do Brasil.
Ao mesmo tempo, seria igualmente incorreto concluir que, por não ter ocorrido anexação, a dimensão política não existiu.
Na virada do século, durante a Weltpolitik, o Ministério das Relações Exteriores alemão chegou a examinar se uma forma mais forte de controle indireto sobre o Sul do Brasil seria viável. O historiador Stefan Rinke mostra que, embora pangermanistas e nacionalistas radicais jamais tenham controlado integralmente a política externa alemã, sua pressão alcançou a diplomacia.
John C. G. Röhl registra ainda que Bernhard von Bülow, que se tornou secretário de Estado das Relações Exteriores em 1897 e chanceler em 1900, apoiava desde a década de 1890 um projeto destinado à formação de uma “Nova Alemanha” no Sul do Brasil.⁹
Portanto, a questão histórica não era simplesmente a existência de comunidades de imigrantes alemães.
Era também a possibilidade de utilizar a presença alemã e teuto-brasileira como base social, cultural e econômica para a projeção da influência alemã na América do Sul.
Poder sem anexação
A influência alemã não precisava necessariamente assumir a forma de uma bandeira alemã hasteada sobre território brasileiro.
Poder econômico, cultural e institucional também podia ser exercido sem soberania territorial direta.
Empresas alemãs podiam ampliar mercados. Bancos podiam financiar negócios. Companhias de navegação podiam conectar comunidades ao comércio transatlântico. Escolas podiam transmitir língua e cultura alemãs. Igrejas e associações podiam manter redes sociais. Jornais podiam formar opinião. Diplomatas podiam cultivar relações econômicas e políticas. Instituições na Alemanha podiam financiar ou apoiar estruturas mantidas no Brasil.
O próprio governo alemão apoiou iniciativas de comunicação, atividades culturais e escolas. O Deutsch-Brasilianischer Handelsverband oferecia à diplomacia alemã uma estrutura adicional de influência sobre as relações econômicas. Antes de 1914, a Alemanha desenvolveu ainda esforços de diplomacia cultural e propaganda de imprensa no Brasil.⁹
É nesse sentido que o Deutschtum pode adquirir uma dimensão de poder.
A germanidade organizada não precisava necessariamente destruir o Estado brasileiro para criar espaços nos quais instituições, relações econômicas, pertencimentos e referências culturais alemãs possuíssem peso extraordinário.
Deutschtum, Volkstum e a importância da origem
Uma transformação particularmente importante ocorreu quando a ideia de Deutschtum passou a ser combinada com conceitos völkisch.
Deutschtum podia designar cultura, pertencimento, língua e comunidade. Volkstum acentuava a ideia de um povo concebido como comunidade histórica de origem.
No nacionalismo völkisch, a identidade alemã foi sendo interpretada de forma cada vez mais étnica e racial. O pertencimento já não dependia apenas de falar alemão, receber educação alemã ou participar de uma cultura alemã. Ascendência, linhagem e “sangue” passaram a ocupar posição central.¹⁰
Essa mudança tinha consequências profundas para alemães que viviam fora da Alemanha e para seus descendentes.
Se uma pessoa continuava pertencendo ao povo alemão em razão de sua ascendência, então cruzar uma fronteira ou adquirir outra cidadania não eliminava necessariamente esse pertencimento.
Um brasileiro descendente de alemães podia ser juridicamente brasileiro e, ao mesmo tempo, ser percebido por nacionalistas alemães como membro de uma comunidade alemã transnacional.
A integração podia então ser interpretada como assimilação; a assimilação, como perda; e a preservação da germanidade, como uma obrigação coletiva.
No início do século XX, setores expansionistas passaram a considerar os Auslandsdeutsche, os alemães no exterior, um recurso potencial para as ambições internacionais do Reich. Rinke mostra que essa concepção podia ser explicitamente baseada no ius sanguinis: quem possuísse “sangue alemão” deveria ser preservado da assimilação porque poderia ser útil à Alemanha.
A Primeira Guerra Mundial não encerrou o Deutschtum
A Primeira Guerra Mundial representou uma ruptura profunda.
As relações econômicas entre Brasil e Alemanha foram atingidas, instituições alemãs sofreram restrições e o Brasil acabou entrando na guerra contra o Império Alemão em 1917.
Mas a derrota alemã de 1918 não eliminou o Auslandsdeutschtum.
Depois da guerra, organizações privadas, instituições religiosas, escolas e outros atores continuaram trabalhando pela preservação da germanidade no Brasil. O discurso, entretanto, modificou-se. A perda das colônias alemãs, o Tratado de Versalhes e a experiência da derrota alimentaram novas formas de nacionalismo e de vitimização nacional.¹¹
A pesquisa de Frederik Schulze demonstra que os discursos coloniais alemães sobre o Brasil continuaram depois da Primeira Guerra Mundial, embora em circunstâncias diferentes. As comunidades alemãs no exterior passaram a ser incorporadas de forma crescente à concepção de uma Volksgemeinschaft, uma comunidade nacional alemã mais ampla.
É importante evitar uma interpretação simplista. Muitos teuto-brasileiros desenvolveram identidades próprias e não aceitaram passivamente tudo o que lhes era enviado da Alemanha. Ser teuto-brasileiro podia significar combinações muito diferentes de pertencimento brasileiro, origem familiar alemã, língua, religião e memória.
O Deutschtum nunca foi uma realidade monolítica.
A radicalização nacional-socialista
O nacional-socialismo não inventou o Deutschtum, o nacionalismo alemão, o pensamento völkisch nem a ideia de uma comunidade alemã baseada na ascendência.
Ele apropriou-se desses elementos, radicalizou-os e integrou-os a uma visão racial e totalitária do mundo.¹²
Sob Hitler, Volk, raça, sangue, território e Estado foram combinados numa ideologia que classificava pessoas segundo sua origem, atribuía valor desigual a diferentes grupos humanos e subordinava o indivíduo à comunidade racial nacional.
Nesse sistema, comunidades alemãs existentes no exterior adquiriam importância política adicional.
A germanidade fora da Alemanha podia ser vista como população a ser preservada, organizada, mobilizada e utilizada em função dos interesses do Reich.
O nazismo encontrou no Brasil estruturas que já existiam
No Brasil, o nacional-socialismo não encontrou um espaço vazio.
Quando organizações nazistas começaram a atuar entre alemães no país, já existiam escolas, igrejas, clubes, associações, jornais, empresas e redes comunitárias construídas durante décadas.
Isso não significa que os descendentes de alemães fossem nazistas, nem que escolas, igrejas ou associações alemãs fossem necessariamente instituições nazistas.
Essa distinção é indispensável.
Significa, porém, que existia uma infraestrutura social por meio da qual ideias provenientes da Alemanha podiam circular. Algumas dessas estruturas foram disputadas ou mobilizadas pelos nacional-socialistas e por nacionalistas alemães.¹³
A própria experiência brasileira mostra os limites de qualquer interpretação que trate todos os teuto-brasileiros como bloco único. Houve apoio, resistência, indiferença, conflitos internos e identidades brasileiras claramente afirmadas. Estudos sobre as comunidades alemãs no Brasil mostram divergências profundas inclusive diante das tentativas de instrumentalização política vindas da Alemanha.
Em 1938, o governo Vargas proibiu a atuação de partidos políticos estrangeiros no Brasil. A campanha de nacionalização restringiu ainda o ensino e o uso público de línguas estrangeiras e atingiu instituições das comunidades de imigração. Essas medidas reduziram drasticamente o espaço institucional no qual organizações diretamente vinculadas à Alemanha poderiam atuar.¹⁴
A entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial contra a Alemanha em 1942 aprofundou esse rompimento.
O que desapareceu em 1945 — e o que não desapareceu
A derrota do Terceiro Reich em 1945 destruiu a legitimidade política do nacional-socialismo e desacreditou profundamente a linguagem racial e imperialista que havia transformado o pertencimento alemão em instrumento de expansão e exclusão.
A República Federal da Alemanha que surgiu depois da guerra passou a construir sua legitimidade sobre bases diferentes: democracia constitucional, integração europeia, economia social de mercado, cooperação internacional e, progressivamente, confronto crítico com o passado nacional-socialista.
Mas seria historicamente incorreto concluir que toda forma de Deutschtum desapareceu em 1945.
Língua, memória familiar, associações, instituições culturais, redes de descendentes e formas de identidade teuto-brasileira continuaram existindo e foram reconstruídas no período pós-guerra. Estudos sobre associações teuto-brasileiras demonstram a permanência e a reformulação da identidade étnica alemã depois de 1945.¹⁵
O que mudou radicalmente foi o contexto político e a legitimidade das formas pelas quais essa germanidade poderia ser expressa.
O Deutschtum no século XXI
É justamente aqui que o conceito precisa ser utilizado com precisão.
Deutschtum não pertence exclusivamente ao passado.
Ainda no século XXI, ele pode ser reconhecido quando o pertencimento alemão adquire significado coletivo e quando aquilo que é identificado como alemão recebe um valor especial de preservação, fortalecimento e continuidade.
Isso pode aparecer na importância atribuída à origem alemã, na transmissão da língua e de tradições, na manutenção de instituições e associações alemãs ou teuto-brasileiras, na construção de redes sociais e profissionais em torno do pertencimento, na utilização da Alemanha como referência normativa e na tendência de preservar ou favorecer estruturas percebidas como pertencentes ao próprio espaço alemão.
Nenhum desses comportamentos, isoladamente, é exclusivamente alemão. Outros povos preservam línguas, culturas, redes e identidades no exterior.
A especificidade histórica está na formação de uma germanidade coletiva denominada Deutschtum, na extraordinária importância que em determinados períodos foi atribuída à sua conservação e no desenvolvimento de instituições destinadas conscientemente a reproduzi-la dentro e fora da Alemanha.
Assim, fortalecer o que é percebido como alemão pode significar fortalecer uma língua ou uma tradição, mas também uma instituição, uma associação, uma empresa, uma rede profissional, uma comunidade ou um indivíduo reconhecido como pertencente ao próprio coletivo.
É nesse ponto que o Deutschtum pode produzir também fronteiras.
A distinção entre “wir Deutsche” — “nós, alemães” — e os outros pode favorecer coesão interna, mas pode igualmente contribuir para formação de espaços sociais fechados, preferências intragrupais e processos de exclusão daqueles que não são percebidos como integrantes do mesmo universo de pertencimento.
Isso não autoriza deduzir Deutschtum simplesmente da nacionalidade de uma pessoa. O conceito serve para reconhecer uma determinada orientação identitária quando ela se manifesta, e não para atribuí-la automaticamente a todos os alemães.
A persistência e a reformulação de identidades germânicas e teuto-brasileiras depois da Segunda Guerra Mundial são objeto da própria historiografia contemporânea.¹⁶
Neudeutschland continua viva?
É necessário distinguir duas coisas.
Não há fundamento para afirmar que o antigo projeto territorial de transformar o Sul do Brasil em uma colônia alemã continue existindo como política do Estado alemão no século XXI.
Mas a ideia mais profunda que tornou possível imaginar uma Neudeutschland — a convicção de que a germanidade pode e deve ser preservada, reproduzida e fortalecida mesmo fora da Alemanha — não desapareceu.
É nesse sentido, e não no sentido de um projeto contemporâneo de anexação territorial, que a história da Neudeutschland continua relevante.
Ela permite enxergar como língua, origem, instituições, economia, associações, redes e pertencimento puderam ser combinados historicamente para produzir um espaço de germanidade que atravessava fronteiras nacionais.
E ajuda a reconhecer que identidade cultural e poder não são necessariamente fenômenos separados.
Por que compreender o Deutschtum é importante para compreender o Brasil
O Deutschtum não pode ser reduzido a Oktoberfest, arquitetura enxaimel, sobrenomes alemães, culinária, música ou festas tradicionais.
Esses elementos são parte legítima da história cultural brasileira. Mas representam apenas a camada mais visível de uma história muito maior.
Por trás dela encontram-se imigração, colonização, escolas, igrejas, jornais, empresas, bancos, comércio, associações, diplomacia, nacionalismo, projetos coloniais, concepções de povo e disputas sobre pertencimento.
Em determinados momentos, alemães e descendentes de alemães foram imaginados por atores na própria Alemanha como componentes de uma comunidade transnacional capaz de preservar o Deutschtum e ampliar a influência econômica, cultural e política alemã.
No caso do Sul do Brasil, essa imaginação chegou ao ponto de produzir a expressão Neudeutschland, projetos de colonização germânica concentrada e até considerações, dentro de círculos diplomáticos alemães, sobre um futuro território alemão e sobre formas de controle indireto da região.
Nada disso transforma a história dos imigrantes alemães numa história exclusivamente de imperialismo ou nacionalismo. A maioria das pessoas viveu suas vidas, trabalhou, construiu famílias, criou empresas, cultivou terras, fundou comunidades e participou da construção do próprio Brasil.
Mas também não é historicamente aceitável apagar a outra dimensão.
As duas histórias coexistiram.
O Sul do Brasil nunca foi Alemanha. Foi e continua sendo Brasil.
Mas parte de sua história foi escrita em interação com ideias, instituições, empresas, organizações e interesses provenientes do mundo alemão. Conhecer essa dimensão não diminui a contribuição dos imigrantes alemães para o Brasil.
Ao contrário: permite compreendê-la em toda a sua complexidade.
Compreender o Deutschtum significa, portanto, compreender como uma identidade cultural pôde transformar-se em princípio de continuidade coletiva; como essa continuidade produziu instituições; como instituições produziram redes; como redes puderam gerar influência; e como, em determinados contextos históricos, germanidade, nacionalismo e poder passaram a se reforçar mutuamente.
Fontes literárias
¹ Cf. GRIMM, Jacob; GRIMM, Wilhelm. Deutsches Wörterbuch. Leipzig: S. Hirzel, 1854–1961, verbetes relacionados a deutsch e Deutschtum; BRODBECK, David. Defining Deutschtum: Political Ideology, German Identity, and Music-Critical Discourse in Liberal Vienna. New York: Oxford University Press, 2014, especialmente introdução e p. 1–15. Sobre a relação entre Deutschtum, identidade cultural e ideologia política no século XIX, cf. também VERMEIREN, Jan. The First World War and German National Identity: The Dual Alliance at War. Cambridge: Cambridge University Press, 2016, cap. 1.
² Cf. SCALES, Len. The Shaping of German Identity: Authority and Crisis, 1245–1414. Cambridge: Cambridge University Press, 2012, p. 3–15; WINKLER, Heinrich August. Der lange Weg nach Westen. v. 1: Deutsche Geschichte vom Ende des Alten Reiches bis zum Untergang der Weimarer Republik. München: C.H. Beck, 2000.
³ HOFFMANN VON FALLERSLEBEN, August Heinrich. “Das Lied der Deutschen”, 1841; GEIBEL, Emanuel. “Deutschlands Beruf”, 1861, publicado em Heroldsrufe. Aeltere und neuere Zeitgedichte. Stuttgart, 1871, p. 116–118. Sobre o contexto histórico de “Deutschland über alles”, cf. BUNDESZENTRALE FÜR POLITISCHE BILDUNG. “Wappen, Flagge und Hymne”; sobre sua posterior instrumentalização nacionalista e nacional-socialista, cf. também WINKLER, Der lange Weg nach Westen, v. 1.
⁴ Cf. WEHLER, Hans-Ulrich. Das Deutsche Kaiserreich 1871–1918. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1973; BLACKBOURN, David. History of Germany 1780–1918: The Long Nineteenth Century. Oxford: Blackwell, 2003; CONRAD, Sebastian. “Globalization Effects: Mobility and Nation in Imperial Germany, 1880–1914”. Journal of Global History, v. 3, n. 1, 2008, p. 43–66.
⁵ Cf. SCHULZE, Frederik. “‘Auslandsdeutschtum’ in Brazil (1919–1941): Global Discourses and Local Histories”. German History, v. 33, n. 3, 2015, p. 405–422; LUEBKE, Frederick C. Germans in Brazil: A Comparative History of Cultural Conflict During World War I. Baton Rouge: Louisiana State University Press, 1987. Schulze demonstra que emigrantes alemães no Sul do Brasil já haviam se tornado objeto de interesse dos defensores do colonialismo alemão no século XIX, tanto para fomentar o comércio quanto para preservar prestígio e influência alemães.
⁶ Cf. RINKE, Stefan. “Germany and Brazil, 1870–1945: A Relationship between Spaces”. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 21, n. 1, 2014, p. 299–316, especialmente p. 301–303; LUEBKE, Germans in Brazil, p. 48–57; SEYFERTH, Giralda. Nacionalismo e identidade étnica: a ideologia germanista e o grupo étnico teuto-brasileiro numa comunidade do Vale do Itajaí. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1981. Rinke registra a estimativa de cerca de 600 escolas alemãs no Brasil entre aproximadamente 900 existentes mundialmente em 1914 e destaca o papel de escolas, associações, imprensa e organizações econômicas na conservação da germanidade.
⁷ EPP, F. Rio Grande do Sul oder Neudeutschland. Mannheim: Franz Bender, 1864; CASSIDY, Eugene S. “The Ambivalence of Slavery, the Certainty of Germanness: Representations of Slave-Holding and Its Impact Among German Settlers in Brazil, 1820–1889”. German History, v. 33, n. 3, 2015, p. 367–384; SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt: ‘Deutschtum’ und Kolonialdiskurse im südlichen Brasilien (1824–1941). Köln/Weimar/Wien: Böhlau, 2016. Schulze documenta diferentes projetos de uma “Nova Alemanha” no Sul da América durante o século XIX e registra que Epp evocava em 1864 “uma nova pátria, uma segunda Alemanha”.
⁸ Cf. GRÜNDER, Horst. Geschichte der deutschen Kolonien. 8. ed. atualizada. Paderborn: Brill | Schöningh/UTB, 2023, p. 117–119; HELL, Jürgen. Die Politik des Deutschen Reiches zur Umwandlung der drei brasilianischen Südstaaten in ein überseeisches Neudeutschland (1890–1914). Dissertation, Universität Rostock, 1966, especialmente p. 66. Gründer reproduz as considerações do representante alemão Rudolf Friedrich Le Maistre sobre a transformação gradual do Sul do Brasil, especialmente do Rio Grande do Sul, num território alemão e numa brasilianisches Neudeutschland, bem como a rejeição de Bismarck a tais projetos de anexação.
⁹ Cf. RINKE, “Germany and Brazil, 1870–1945”, especialmente p. 302–303; RÖHL, John C. G. Wilhelm II: Into the Abyss of War and Exile, 1900–1941. Cambridge: Cambridge University Press, 2014, cap. 9, “The Kaiser and America”, p. 212–244. Rinke registra que, na virada do século, o Ministério das Relações Exteriores alemão examinou a viabilidade de uma forma mais forte de controle indireto sobre o Sul brasileiro; Röhl registra o apoio de Bernhard von Bülow, desde a década de 1890, a um projeto de uma “New Germany” no Sul do Brasil.
¹⁰ Cf. MOSSE, George L. The Crisis of German Ideology: Intellectual Origins of the Third Reich. New York: Grosset & Dunlap, 1964; WILDT, Michael. Volksgemeinschaft als Selbstermächtigung: Gewalt gegen Juden in der deutschen Provinz 1919 bis 1939. Hamburg: Hamburger Edition, 2007; KOONZ, Claudia. The Nazi Conscience. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2003. Sobre a centralidade crescente de cultura, etnicidade e raça na definição da identidade nacional alemã no final do século XIX, cf. também RETALLACK, James. Germany and the Modern World, 1880–1914. Cambridge: Cambridge University Press, 2018, cap. 3.
¹¹ Cf. EVANS, Richard J. The Coming of the Third Reich. London: Allen Lane/Penguin, 2003; KERSHAW, Ian. Hitler. v. 1: 1889–1936: Hubris. London: Allen Lane/Penguin, 1998; WINKLER, Der lange Weg nach Westen, v. 1; SCHULZE, “‘Auslandsdeutschtum’ in Brazil (1919–1941)”, p. 405–422.
¹² Cf. MOSSE, The Crisis of German Ideology; KERSHAW, Hitler, v. 1; WILDT, Volksgemeinschaft als Selbstermächtigung; KOONZ, The Nazi Conscience. O nacional-socialismo radicalizou e racializou conceitos de povo, comunidade, origem e pertencimento desenvolvidos em correntes nacionalistas anteriores, integrando-os à ideologia racial do Estado nacional-socialista.
¹³ Cf. GERTZ, René Ernaini. O fascismo no sul do Brasil: germanismo, nazismo, integralismo. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987; DIETRICH, Ana Maria. Nazismo tropical?: o partido nazista no Brasil. Tese (Doutorado em História), Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007; SCHULZE, “‘Auslandsdeutschtum’ in Brazil (1919–1941)”, p. 405–422; RINKE, “Germany and Brazil, 1870–1945”, p. 308–312.
¹⁴ Cf. LUEBKE, Germans in Brazil, especialmente p. 122–175; GERTZ, O fascismo no sul do Brasil; DIETRICH, Nazismo tropical?; RINKE, “Germany and Brazil, 1870–1945”, p. 310–313. Sobre a proibição, em 1938, das atividades de partidos estrangeiros e os efeitos da política de nacionalização sobre as comunidades de imigração, cf. também SEYFERTH, Giralda. Nacionalismo e identidade étnica.
¹⁵ Cf. GOODMAN, Glen S. “The Enduring Politics of German-Brazilian Ethnicity”. German History, v. 33, n. 3, 2015, p. 423–438; FROTSCHER, Méri. “De ‘alemães no exterior’ a brasileiros? A repatriação de cidadãos brasileiros da Alemanha ocupada (1946–1949)”. História Unisinos, v. 17, n. 2, 2013, p. 81–96. Goodman analisa a reformulação da identidade teuto-brasileira e de organizações étnicas no período posterior à Segunda Guerra Mundial.
¹⁶ Cf. GOODMAN, “The Enduring Politics of German-Brazilian Ethnicity”, p. 423–438; GUENTHER, Jack H. “German Migration to Brazil in Global Perspective: Trends & New Directions”. História Econômica & História de Empresas, v. 27, n. 3, 2024, p. 654–682. A historiografia recente enfatiza simultaneamente a diversidade das experiências dos alemães no Brasil e os esforços históricos, variáveis no tempo, para conectar comunidades alemãs dispersas a concepções transnacionais de nação, mercado e pertencimento.
