A política brasileira de imigração e colonização partia, fundamentalmente, de interesses brasileiros. O Império pretendia povoar regiões consideradas estratégicas, ampliar a agricultura, criar comunidades produtivas e atrair europeus que, segundo concepções predominantes entre parcelas importantes das elites, contribuiriam para o desenvolvimento e a “civilização” do país. Mais tarde, sobretudo nas últimas décadas do século XIX, essas concepções seriam também associadas a teorias raciais e ao projeto de “branqueamento” da população.¹

Nesse contexto, os alemães conquistaram uma reputação particularmente favorável. Frederik Schulze mostra que a imigração norte-europeia, e especificamente alemã, era considerada especialmente desejável por setores da elite brasileira. O ministro da Agricultura João Cardoso de Menezes e Sousa chegou a apresentar o alemão como “o colono por excelência”, defendendo que dos países habitados pela população “teutônica” deveria provir uma corrente migratória particularmente benéfica ao Brasil.²
Essa preferência não pode ser compreendida sem considerar também a própria figura de Dom Pedro II. O imperador era filho da arquiduquesa austríaca Maria Leopoldina, da Casa de Habsburgo-Lorena, dominava a língua alemã, manteve intensa correspondência e relações intelectuais com cientistas, artistas e eruditos de língua alemã e esteve pessoalmente na Alemanha e no Império Austro-Húngaro. A pesquisa realizada a partir de seu acervo na Biblioteca Nacional identifica expressamente a Alemanha e o Império Austro-Húngaro como modelos de civilização e cultura que ocupavam posição importante no projeto de modernização e de construção da nacionalidade brasileira durante seu reinado.³
Os documentos permitem, contudo, avançar além da constatação de sua admiração pelo mundo germânico. Pedro II conhecia diretamente a existência de comunidades alemãs que mantinham língua, escolas e formas próprias de sociabilidade dentro do Brasil. Em 25 de abril de 1862, depois de visitar a escola de Henrique Monken, na colônia alemã de Petrópolis, registrou em seu próprio diário que o estabelecimento lhe agradara, mas que desejaria que os meninos soubessem traduzir melhor do alemão para o português. A observação demonstra que o imperador percebia pessoalmente a persistência da língua alemã e as limitações da integração linguística naquele meio. Em 1865, visitou também São Leopoldo, principal núcleo histórico da colonização alemã no Rio Grande do Sul, passando inclusive pela Sociedade Orpheu, fundada para cultivar o canto alemão e promover a sociabilidade dos imigrantes.⁴
Pedro II, portanto, não poderia desconhecer a existência e a crescente organização da germanidade no Brasil. Durante os últimos dezoito anos de seu reinado, depois da fundação do Império Alemão em 1871, essa germanidade passou a inserir-se num movimento transnacional cada vez mais organizado de preservação do Deutschtum fora das fronteiras alemãs. Em 1881 surgiu na Alemanha o Allgemeiner Deutscher Schulverein, destinado explicitamente à preservação da germanidade no exterior, e a partir de 1882 circulou a publicação Das Deutschthum im Auslande. Esses acontecimentos ocorreram quando Pedro II ainda governava o Brasil e acompanhava intensamente a vida intelectual e cultural alemã. O que não está demonstrado é que o imperador tenha reconhecido nessa transformação o potencial problema de soberania que ela poderia representar. Sua profunda admiração pelo universo científico e cultural germânico parece ter favorecido uma leitura essencialmente positiva da presença alemã, enquanto a dimensão política do novo Auslandsdeutschtum permaneceu subestimada.⁵
Essa distinção é fundamental. Não há documentação suficiente para afirmar que Pedro II conhecesse especificamente o livro de Epp, as propostas de uma Neudeutschland ou as considerações confidenciais de representantes alemães sobre uma futura separação territorial do Sul brasileiro e conscientemente decidisse tolerá-las. Mas também não é convincente retratá-lo como um monarca desinformado diante da formação e crescente institucionalização de comunidades germânicas culturalmente diferenciadas. Ele conhecia o fenômeno social e cultural; o que não parece ter reconhecido, ou pelo menos não tratou como questão central de soberania, foi o potencial político que essa germanidade organizada poderia adquirir quando vinculada aos interesses de um Estado alemão cada vez mais poderoso.⁶
Se utilizarmos “Wir und die Anderen” ou seja “Nós e os Outros” como categoria interpretativa para a identidade germânica, essa admiração de Pedro II pelo mundo germânico pode ser compreendida dentro de uma hierarquia cultural característica de seu tempo. Determinadas sociedades europeias eram vistas como portadoras de ciência, conhecimento, organização, educação e formas de vida que deveriam servir de referência para um Brasil que as elites pretendiam “civilizar” e modernizar. O alemão não aparecia apenas como estrangeiro; ele aparecia como representante de um universo cultural fortemente valorizado e, em determinados aspectos, tomado como modelo.⁷
Foi justamente nessa diferença de percepção que se abriu espaço para interesses que não coincidiam necessariamente com os interesses brasileiros.
O mesmo imigrante, dois projetos diferentes
O Brasil pretendia utilizar a imigração para fortalecer o Brasil. Determinados atores alemães pretendiam utilizar a mesma imigração para preservar e fortalecer a germanidade.
O governo brasileiro desejava agricultores, artesãos, comerciantes, técnicos e famílias que povoassem determinadas regiões, produzissem riqueza e se incorporassem progressivamente à sociedade brasileira. Organizações, igrejas, publicistas, associações nacionalistas, agentes econômicos e, posteriormente, setores da administração alemã passaram, porém, a enxergar as comunidades estabelecidas no Brasil de maneira diferente: não como populações definitivamente perdidas para a antiga pátria, mas como alemães que poderiam e deveriam continuar alemães mesmo vivendo fora da Alemanha.⁸
Frederik Schulze demonstra precisamente essa instrumentalização. Associações privadas, igrejas, publicistas e posteriormente instituições ligadas à política do Deutschtum procuraram preservar a germanidade dos emigrantes e torná-los utilizáveis para interesses alemães. Escolas, igrejas, associações, imprensa e outras estruturas tornaram-se meios pelos quais língua, cultura e sentimento de pertencimento poderiam ser transmitidos às novas gerações. Para determinados agentes da Deutschtumsarbeit, não se tratava simplesmente de permitir que famílias preservassem lembranças de sua origem, mas de impedir ou retardar sua completa assimilação à sociedade brasileira.⁹
É nesse sentido que se pode falar em oportunismo de determinados atores alemães diante da abertura brasileira. O Brasil oferecia terras, recebia europeus, valorizava especialmente determinados grupos germânicos e permitia o desenvolvimento de comunidades dotadas de considerável autonomia cultural e institucional. A política brasileira tinha finalidade brasileira; entretanto, essas mesmas condições foram percebidas e utilizadas por agentes alemães como oportunidade para construir e conservar espaços permanentes de germanidade no exterior. Aquilo que para o Brasil era colonização podia tornar-se, do ponto de vista desses agentes, Deutschtumspolitik.¹⁰
Emigrar sem deixar de ser alemão
As páginas 106 e 107 da tese de Jürgen Hell são particularmente reveladoras porque mostram que essa lógica não permaneceu apenas no terreno das associações privadas. Hell reproduz uma manifestação de Goetsch, responsável pela área de emigração no Ministério das Relações Exteriores alemão, segundo a qual o principal objetivo da política alemã de emigração deveria ser direcionar prioritariamente os emigrantes ao Sul do Brasil. As razões apresentadas eram explícitas: havia boas possibilidades de aquisição de propriedade e condições climáticas favoráveis, mas a vantagem decisiva era outra. No Sul brasileiro, os emigrantes alemães preservavam sua nacionalidade, língua e costumes em grau maior do que nos países anglo-saxões e, consequentemente, assimilavam-se mais lentamente.¹¹
O valor atribuído a essa menor assimilação possuía também uma dimensão econômica. Segundo o documento reproduzido por Hell, os emigrantes estabelecidos no Sul do Brasil continuavam, pela experiência acumulada, compradores de produtos alemães. Ao contrário dos emigrados para os Estados Unidos, sua própria atividade produtiva não seria considerada concorrência significativa para a indústria alemã. Goetsch acrescentava ainda que havia “razões políticas” para fortalecer, sempre que possível, as numerosas colônias alemãs existentes no Sul brasileiro mediante novos fluxos migratórios. Hell registra igualmente a participação de companhias alemãs de navegação, estruturas de informação destinadas aos emigrantes e da Hanseatische Kolonisationsgesellschaft, que recebeu autorização destinada a favorecer o assentamento de alemães em “massas compactas” no Sul do Brasil. A concentração territorial aumentava as possibilidades de conservar escolas, igrejas, associações, língua, costumes e relações econômicas próprias e, consequentemente, retardar a assimilação.¹²
O Brasil desejava povoar seu território. Determinados agentes alemães perceberam que essa política brasileira poderia ser utilizada para concentrar alemães dentro desse território.
De comunidade alemã a possibilidade política
Essa estratégia adquiria significado ainda mais grave quando a preservação cultural começava a ser associada a possibilidades políticas futuras. Hell reproduz o relatório do capitão de corveta Schinke, comandante do cruzador Falke. Para ele, o Sul do Brasil constituía um dos poucos territórios particularmente adequados à colonização alemã. Schinke chegou a considerar que, caso o Brasil algum dia se desintegrasse, dos Estados meridionais poderia surgir um “Estado de origem alemã”. Embora não defendesse naquele documento sua imediata incorporação ao Império Alemão, recomendava justamente por essa perspectiva futura que a emigração fosse direcionada ao Sul e que o sistema escolar alemão fosse prioritariamente fortalecido.¹³
Não era a primeira vez que ideias dessa natureza alcançavam círculos oficiais. O representante imperial alemão Rudolf Friedrich Le Maistre, durante sua missão diplomática no Brasil, entre 1879 e 1886, cogitou uma transformação progressiva do Sul brasileiro – sobretudo do Rio Grande do Sul – em um território alemão, uma brasilianisches Neudeutschland (Nova Alemanha grasileira), que, numa eventual desintegração do Império brasileiro, poderia acabar incorporada à Alemanha. Considerações dessa natureza chegaram, portanto, aos círculos oficiais alemães. Naquele período, sua política externa estava concentrada sobretudo na consolidação do recém-fundado Império alemão (Reich), na preservação do equilíbrio europeu com o novo Estado alemão e no isolamento diplomático da França, enquanto ele próprio ainda demonstrava forte cautela diante de projetos de expansão colonial formal. Essa posição começaria a mudar apenas em 1884–1885, quando a Alemanha passou a estabelecer seus primeiros protetorados coloniais. O fato de projetos relativos ao Sul brasileiro não terem sido adotados por Bismarck não diminui, porém, sua relevância histórica: a simples existência de propostas dessa natureza dentro da representação oficial alemã demonstra até onde já podia chegar a ideia de transformar a presença germânica no Brasil em instrumento de uma futura expansão territorial alemã.¹⁴
A questão deixa então de ser simplesmente cultural. Uma escola alemã não viola por si só a soberania brasileira. Uma igreja alemã também não. Uma associação, um jornal ou a preservação de uma língua igualmente não. A situação muda quando concentração populacional, escola, língua, instituições e resistência à assimilação passam a ser consideradas por agentes de uma potência estrangeira meios de preservar uma coletividade politicamente útil, fortalecer influência externa e criar condições que, numa futura crise brasileira, poderiam favorecer o aparecimento de um Estado de caráter alemão.
Nesse ponto, o Deutschtum deixa de ser apenas identidade e passa a poder funcionar como infraestrutura de poder.
A boa vontade brasileira tinha um ponto cego
A elevada reputação dos alemães no Brasil ajudou a produzir um paradoxo. O Estado brasileiro via colonos alemães como trabalhadores desejáveis e, em determinados períodos, como representantes de qualidades que desejava incorporar ao país. O próprio ambiente intelectual de Pedro II valorizava intensamente a ciência e a cultura do mundo alemão e austro-húngaro.
Pedro II, contudo, não poderia desconhecer a crescente organização da germanidade (do Deutschtum). Conhecia comunidades alemãs no Brasil, falava sua língua, mantinha interlocução com intelectuais germânicos e governou justamente durante o período em que, depois de 1871, a germanidade passou a ser progressivamente institucionalizada além das fronteiras do novo Reich. A criação, ainda durante seu reinado, de organizações dedicadas expressamente à preservação do Deutschtum no exterior mostra que o fenômeno já ultrapassava a conservação privada de costumes familiares. Não há prova de que Pedro II conhecesse planos separatistas específicos; há, porém, base suficiente para afirmar que a dimensão transnacional da germanidade estava crescendo diante de um imperador excepcionalmente estudioso, informado e interessado pelo próprio mundo germânico.¹⁵
Assim, o ponto cego não consistia simplesmente em desconhecimento. Consistia em não atribuir a essa realidade o significado político que ela poderia adquirir. Pedro II via o mundo germânico sobretudo como fonte de cultura, ciência, organização e desenvolvimento. A preservação da língua e das instituições alemãs aparecia predominantemente como característica de comunidades úteis e produtivas, não como possível instrumento de uma política estrangeira de Deutschtum. É nesse sentido que se pode afirmar que Pedro II subestimou o perigo potencial da germanidade organizada dentro do Brasil: conhecia sua existência e viveu sua crescente institucionalização, mas não a transformou numa questão central de soberania nem desenvolveu uma política sistemática destinada a impedir sua reprodução como espaço cultural fortemente diferenciado.¹⁶
Vista pelo conceito analítico de “Wir und die Anderen”, essa preferência ganha outra dimensão. O mundo germânico podia ocupar, no imaginário de setores da elite brasileira, a posição do “Nós desejável” da civilização europeia, enquanto amplas parcelas da própria população brasileira – indígenas, negros escravizados, libertos, mestiços e pobres – não eram tomadas em condições equivalentes como modelo para o futuro que as elites pretendiam construir. Essa hierarquia cultural não foi criada por Pedro II individualmente, mas integrava o ambiente político e intelectual do século XIX e encontraria posteriormente expressão ainda mais explícita nas teorias raciais e nas políticas de branqueamento.¹⁷
A ironia histórica é evidente: o Brasil buscava no exterior pessoas que considerava adequadas para fortalecer sua própria sociedade, enquanto determinados agentes estrangeiros viam essas mesmas pessoas como integrantes de um “Nós” alemão que não deveria ser perdido para o Brasil.
Quando o Brasil começou a perceber o problema
A percepção brasileira do conflito de interesses não surgiu apenas com o nazismo. Na virada do século XX, jornalistas, intelectuais e políticos passaram a discutir o chamado “perigo alemão”. A falta de assimilação, a continuidade da língua alemã, o sistema escolar próprio, a imprensa germanófona e textos expansionistas produzidos na Alemanha começaram a alimentar o temor de que a presença alemã pudesse representar mais do que imigração. Em 1905, o incidente da canhoneira alemã Panther mostrou de forma concreta como uma potência estrangeira podia confrontar a soberania brasileira: integrantes da tripulação desembarcaram em Itajaí procurando um desertor e agiram de maneira interpretada no Brasil como exercício indevido de autoridade estrangeira em território nacional. A Primeira Guerra Mundial ampliou ainda mais esse conflito e, em 1917, depois de ataques de submarinos alemães a embarcações brasileiras, o Brasil entrou na guerra contra o Império Alemão.¹⁸
Mesmo assim, as estruturas de germanidade construídas durante gerações não desapareceram.
O nacional-socialismo encontrou uma infraestrutura anterior.
Quando Hitler chegou ao poder, em 1933, o nacional-socialismo não encontrou no Brasil um espaço germânico criado pelo nazismo. Esse espaço era muito mais antigo. Existiam escolas, igrejas, clubes, associações, imprensa, empresas, redes econômicas e comunidades nas quais referências alemãs haviam sido reproduzidas durante décadas. Isso não significa que essas instituições fossem nazistas ou que os descendentes de alemães fossem coletivamente nacional-socialistas. A historiografia mostra diferenças políticas, religiosas e sociais profundas, assim como resistência às tentativas de controle provenientes da Alemanha. O que existia era uma infraestrutura de germanidade, anterior ao nazismo, que o nacional-socialismo procurou utilizar.¹⁹
Entre 1928 e 1938, o NSDAP organizou no Brasil a maior estrutura partidária nazista existente fora da Alemanha, com aproximadamente 2.900 membros e presença em 17 estados brasileiros. A organização fazia parte da rede internacional subordinada à Auslandsorganisation do partido, sediada na Alemanha. Do ponto de vista quantitativo, esses filiados constituíam uma pequena parcela da enorme população de origem alemã no país; sua importância histórica decorre, porém, de seu grau de organização e de sua inserção numa estrutura partidária estrangeira que procurava atuar dentro do meio germânico brasileiro.²⁰
O retorno à Alemanha nazista
Outro dado torna essa dimensão transnacional ainda mais evidente. A pesquisa de Méri Frotscher demonstra que, entre meados de 1937 e 1939, cerca de 7.700 a 8 mil cidadãos alemães oriundos do Brasil entraram na Alemanha. Registros oficiais indicam aproximadamente 7.692 retornados, enquanto outras apresentações arredondam o número para cerca de 8 mil. O Brasil tornou-se, nesse período, um dos principais países de origem desses retornados ao Reich. Não se pode afirmar que todos fossem nazistas, nem tratá-los simplesmente como “descendentes de alemães”: eram cidadãos alemães provenientes do Brasil, com motivações diversas. O fenômeno demonstra, contudo, a permanência de um circuito humano e identitário entre Brasil e Alemanha justamente quando o regime nazista mobilizava a ideia de retorno à comunidade nacional alemã.²¹
É aqui que a imagem do iceberg se torna especialmente útil. Os aproximadamente 2.900 filiados formais do NSDAP eram visíveis e mensuráveis. Os milhares de cidadãos alemães provenientes do Brasil que regressaram ao Reich também podem ser estatisticamente identificados. Mas essas cifras não representam toda a germanidade existente no Brasil. Abaixo dessa parte visível encontravam-se décadas de construção de escolas, igrejas, associações, jornais, editoras, empresas, redes econômicas, relações diplomáticas, vínculos familiares e concepções segundo as quais emigrar não deveria significar abandonar o pertencimento alemão.
Isso não significa que toda essa estrutura fosse nazista. Significa precisamente o contrário: ela era muito anterior ao nazismo.
A soberania brasileira sob ataque direto
Em 1938, o Estado Novo proibiu partidos políticos estrangeiros e intensificou a campanha de nacionalização. Poucos anos depois, a questão da soberania deixou definitivamente o terreno das ideias. O Brasil ainda não havia declarado guerra à Alemanha quando, em agosto de 1942, o submarino alemão U-507 atacou embarcações brasileiras no litoral da Bahia e de Sergipe. Em poucos dias, cinco navios mercantes e um iate foram afundados e 607 pessoas morreram, entre tripulantes e passageiros, incluindo mulheres e crianças. No conjunto da guerra, fontes da Marinha do Brasil registram 33 ataques do Eixo contra mercantes brasileiros e 982 mortos ou desaparecidos entre tripulantes e passageiros da Marinha Mercante.²²
O ataque de 1942 foi, portanto, muito mais do que continuação de um debate sobre identidade cultural. Uma potência estrangeira atacava embarcações brasileiras e matava centenas de pessoas diante do próprio litoral nacional. A soberania que durante décadas fora discutida em relação a escolas, colônias, influência econômica, Deutschtum, Neudeutschland e possível separação territorial estava agora sendo confrontada diretamente pela força militar alemã.
Da confiança à percepção do conflito
A sequência histórica é particularmente reveladora. O Brasil abriu suas portas aos imigrantes alemães porque esperava que eles ajudassem a construir o Brasil. Durante o Segundo Reinado, essa abertura coexistiu com a profunda admiração de Pedro II por um universo germânico que via como fonte de ciência e civilização. O imigrante alemão adquiriu reputação de trabalhador especialmente desejável, e o próprio Estado brasileiro contribuiu para a formação de comunidades coloniais relativamente concentradas.
Pedro II sabia que essas populações mantinham língua e instituições próprias e governou durante a primeira fase da institucionalização transnacional do Deutschtum. Seu equívoco histórico não precisa ser procurado numa suposta ignorância do fenômeno, mas na subestimação de sua crescente dimensão política. Não está demonstrado que conhecesse planos separatistas específicos, mas sua familiaridade excepcional com o mundo germânico torna pouco convincente a hipótese de que nada percebesse da transformação ocorrida depois de 1871.
Determinados atores alemães enxergaram a mesma realidade de maneira diferente. Procuraram conservar emigrantes e descendentes como alemães, retardar sua assimilação, fortalecer suas instituições, manter seus vínculos econômicos com a Alemanha e utilizar sua presença para ampliar influência. A documentação de Hell mostra essa estratégia alcançando a própria administração imperial alemã; Gründer documenta considerações sobre uma futura Neudeutschland dentro da representação diplomática alemã.
Mais tarde, o nacional-socialismo procurou mobilizar novamente a germanidade exterior, encontrou no Brasil a maior organização estrangeira do NSDAP e participou de um circuito no qual milhares de cidadãos alemães provenientes do Brasil retornaram ao Reich.
Finalmente, em 1942, a Alemanha nazista atacou diretamente a navegação brasileira e matou centenas de pessoas antes mesmo de o Brasil declarar guerra.
Esses acontecimentos pertencem a épocas, governos e projetos diferentes. Não devem ser artificialmente transformados num único plano contínuo que teria começado em 1824 e terminado em 1942. Mas também não devem ser isolados de tal maneira que desapareça a continuidade de uma questão fundamental:
quem deveria determinar o pertencimento, a orientação e o futuro das populações de origem alemã estabelecidas dentro do território brasileiro – o Brasil ou aqueles que, na Alemanha, continuavam considerando-as parte de um espaço alemão transnacional?
É essa disputa que atravessa grande parte da história do Deutschtum no Brasil.
O oportunismo histórico
Nesse sentido, o conceito de oportunismo descreve uma relação concreta. O Brasil ofereceu oportunidades aos alemães porque esperava fortalecer o Brasil. Determinados atores alemães procuraram utilizar essas mesmas oportunidades para fortalecer os alemães e a Alemanha dentro do Brasil.
A concentração das comunidades, a preservação da língua, as escolas, as igrejas, as associações e as redes econômicas podiam servir simultaneamente às necessidades cotidianas dos imigrantes e aos objetivos de atores que desejavam impedir sua assimilação. O que para uma família podia significar apenas ensinar alemão aos filhos podia, dentro de uma política organizada de Deutschtum, adquirir significado nacional e estratégico.
A historiografia mostra igualmente que essa tentativa nunca conquistou integralmente os próprios imigrantes. Eles desenvolveram interesses locais, identidades brasileiras e teuto-brasileiras, conflitos internos e formas próprias de pertencimento. Schulze conclui que os esforços para transformá-los em “alemães” idealizados e instrumentalizá-los para objetivos políticos e coloniais alemães encontraram resistência e fracassaram em grande medida.²³
Mas o fracasso do projeto não apaga sua existência.
É justamente nesse ponto que a experiência brasileira merece ser observada sem idealização. A boa vontade de um Estado que queria receber europeus encontrou agentes estrangeiros dispostos a utilizar essa abertura também para objetivos próprios. A admiração brasileira pelo mundo germânico, presente inclusive no mais alto nível da monarquia, favoreceu a recepção inicial dessa presença como fator de modernização e progresso.
Pedro II ocupa um lugar importante nessa história precisamente porque não era um observador desinformado. Conhecia o mundo alemão, falava sua língua, convivia com seus intelectuais, visitava comunidades alemãs no Brasil e percebeu pessoalmente sua persistência linguística. Depois de 1871, governou ainda durante dezoito anos enquanto a germanidade adquiria nova dimensão estatal e transnacional. Ele conhecia o fenômeno e viveu sua transformação institucional; o que não está demonstrado é que tenha compreendido plenamente o risco político que essa transformação poderia adquirir para o Brasil.
Com o tempo, tornou-se evidente que a preservação deliberada de uma coletividade estrangeira podia adquirir significados que ultrapassavam cultura e imigração e alcançavam comércio, influência internacional, projetos territoriais e soberania. A parte visível dessa história são os fatos que podem ser facilmente identificados: Neudeutschland, Deutschtum, Le Maistre, Goetsch, Schinke, o NSDAP, os retornados ao Reich e os submarinos alemães.
A parte submersa é maior: a longa construção de um espaço social no qual uma população residente no Brasil podia continuar sendo imaginada, organizada e disputada como parte de um “Nós” alemão situado para além das fronteiras da Alemanha.

Referências bibliográficas
¹ SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt: „Deutschtum“ und Kolonialdiskurse im südlichen Brasilien (1824–1941). Köln/Weimar/Wien: Böhlau, 2016, especialmente p. 184–191; SEYFERTH, Giralda. “Construindo a nação: hierarquias raciais e o papel do racismo na política de imigração e colonização”. In: MAIO, Marcos Chor; SANTOS, Ricardo Ventura (orgs.). Raça, ciência e sociedade. Rio de Janeiro: Fiocruz/CCBB, 1996, p. 41–58.
² SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt, especialmente p. 186–191. Schulze documenta especificamente a valorização brasileira da imigração norte-europeia e alemã e reproduz a formulação de João Cardoso de Menezes e Sousa sobre o alemão como colonizador particularmente desejável.
³ NASCIMENTO, Mariana Bandeira. “D. Pedro II e a Construção de um ‘Projeto Civilizatório’ no Brasil: investigação e catalogação de sua correspondência com artistas e cientistas de língua alemã”. Fundação Biblioteca Nacional, Programa Nacional de Apoio à Pesquisa, 2007; ROMANELLI, Sergio; MAFRA, Adriano; SOUZA, Rosane. “D. Pedro II tradutor: análise do processo criativo”. Cadernos de Tradução, v. 2, n. 30, 2012, p. 101–118.
⁴ PEDRO II. Diário do Imperador D. Pedro II, registro de 25 de abril de 1862. In: VIANNA, Hélio (org.). “Diário do Imperador D. Pedro II”. Anuário do Museu Imperial, v. 17, 1956; cf. também documentação histórica sobre a visita imperial a São Leopoldo em 1865 e à Sociedade Orpheu.
⁵ WEIDENFELLER, Gerhard. VDA, Verein für das Deutschtum im Ausland, Allgemeiner Deutscher Schulverein (1881–1918): ein Beitrag zur Geschichte des deutschen Nationalismus und Imperialismus im Kaiserreich. Bern/Frankfurt a.M.: Peter Lang, 1976; SCHULZE, Frederik. “‘Auslandsdeutschtum’ in Brazil (1919–1941): Global Discourses and Local Histories”. German History, v. 33, n. 3, 2015, p. 405–422. O Allgemeiner Deutscher Schulverein, fundado em 1881, destinava-se à preservação do Deutschtum no exterior; em 1882 começou a circular Das Deutschthum im Auslande.
⁶ A conclusão acerca de Pedro II é interpretativa e delimitada pela documentação disponível. As fontes permitem afirmar seu conhecimento das comunidades alemãs e sua intensa ligação com o mundo germânico, mas não demonstram conhecimento específico dos projetos de Neudeutschland ou de planos separatistas. Cf. NASCIMENTO, op. cit.; SCHULZE, Auswanderung als nationalistisches Projekt, especialmente p. 192–208; WEIDENFELLER, op. cit.
⁷ NASCIMENTO, Mariana Bandeira, op. cit.; SEYFERTH, Giralda, op. cit.; SCHULZE, Frederik, op. cit. A utilização de “Wir und die Anderen” é categoria analítica aplicada à hierarquização cultural presente no projeto civilizatório brasileiro, e não expressão atribuída a Pedro II.
⁸ SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt, especialmente p. 46–52 e 105–126. O autor demonstra a preocupação alemã em evitar que a emigração significasse perda definitiva da população para a comunidade nacional.
⁹ SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt, especialmente p. 13–17, 46–104 e 289–305. O estudo demonstra o papel de escolas, igrejas, associações, publicistas e outras redes na preservação e instrumentalização do Deutschtum dos emigrantes.
¹⁰ SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt, especialmente p. 105–126. A concentração da emigração, a preservação do Deutschtum, a continuidade dos vínculos econômicos e a influência alemã aparecem interligadas na literatura colonial e nacionalista examinada pelo autor.
¹¹ HELL, Jürgen. Die Politik des Deutschen Reiches zur Umwandlung Südbrasiliens in ein überseeisches Neudeutschland (1890–1914). Dissertation, Universität Rostock, 1966, p. 106–107. Hell reproduz as considerações de Goetsch sobre a preferência pelo Sul do Brasil em razão da preservação de nacionalidade, língua e costumes e da assimilação mais lenta.
¹² HELL, Jürgen. Die Politik des Deutschen Reiches, p. 107. O documento reproduzido por Hell relaciona a presença alemã no Sul a interesses comerciais e “razões políticas” e registra iniciativas destinadas ao assentamento de alemães em “massas compactas”.
¹³ HELL, Jürgen. Die Politik des Deutschen Reiches, p. 106. Hell reproduz o relatório do capitão de corveta Schinke e sua consideração sobre a possibilidade de um futuro Staat deutschen Ursprungs nos Estados meridionais brasileiros.
¹⁴ GRÜNDER, Horst. Geschichte der deutschen Kolonien. 8. ed. atualizada. Paderborn: Brill | Schöningh, 2023, p. 117–119. Gründer documenta as considerações de Rudolf Friedrich Le Maistre acerca de uma brasilianisches Neudeutschland e registra a rejeição de Bismarck à anexação direta.
¹⁵ WEIDENFELLER, Gerhard, op. cit.; NASCIMENTO, Mariana Bandeira, op. cit. A institucionalização da preservação do Deutschtum no exterior começou ainda durante o reinado de Pedro II, num período em que o imperador mantinha intensa relação intelectual com o mundo germânico.
¹⁶ A avaliação de que Pedro II subestimou a dimensão política do Deutschtum é uma interpretação baseada na combinação entre seu conhecimento documentado das comunidades alemãs, sua admiração pelo universo germânico, sua natureza estudiosa e a ausência de uma política imperial sistemática de enfrentamento dessa crescente autonomia cultural. Não implica afirmar que conhecesse e tolerasse conscientemente projetos separatistas.
¹⁷ SEYFERTH, Giralda, op. cit.; SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt, p. 184–191. Sobre a valorização do europeu e a hierarquização racial e cultural presente nos projetos brasileiros de imigração e construção nacional.
¹⁸ SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt, especialmente p. 192–208. Sobre o desenvolvimento do debate brasileiro em torno do “perigo alemão”, o incidente da canhoneira Panther em 1905 e o agravamento das relações Brasil–Alemanha até a Primeira Guerra Mundial.
¹⁹ SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt, especialmente p. 232–305; GERTZ, René Ernaini. O fascismo no sul do Brasil: germanismo, nazismo, integralismo. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987. A infraestrutura cultural germânica precedeu o nacional-socialismo e não deve ser confundida automaticamente com adesão ao nazismo.
²⁰ DIETRICH, Ana Maria. Nazismo tropical? O Partido Nazista no Brasil. Tese de Doutorado em História Social. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007. A autora registra aproximadamente 2.900 filiados, presença em 17 estados e a dimensão excepcional da organização brasileira do NSDAP no exterior.
²¹ FROTSCHER, Méri. “Retorno à pátria alemã”: migrações de retorno do Brasil para a Alemanha sob o nazismo (1938–1939). Passo Fundo: Acervus, 2024. A autora analisa as estatísticas de cidadãos alemães provenientes do Brasil que ingressaram no Reich entre 1937 e 1939 e as diferentes motivações associadas ao movimento de retorno.
²² MARINHA DO BRASIL. Documentação sobre a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial; GOMES FILHO, Elísio. “U-507: um estudo interpretativo das ações de um submarino alemão nas águas do Brasil”. Navigator. A ofensiva do U-507 em agosto de 1942 causou 607 mortes; fontes oficiais brasileiras registram 982 mortos ou desaparecidos entre tripulantes e passageiros da Marinha Mercante durante os ataques do Eixo.
²³ SCHULZE, Frederik. Auswanderung als nationalistisches Projekt, especialmente p. 232–255 e 342–349. Schulze enfatiza a heterogeneidade das populações de origem alemã, a formação de identidades teuto-brasileiras e os limites e fracassos das tentativas de instrumentalização política dos emigrantes e seus descendentes.
