Seria um erro procurar a atualidade de Tannenberg apenas na existência contemporânea de pessoas que defendessem literalmente seu mapa político de 1911. A questão historicamente mais interessante é outra. O projeto de Gross-Deutschland partia de uma realidade que Tannenberg considerava politicamente aproveitável: a existência, no Sul do Brasil, de populações que haviam preservado durante gerações língua, instituições, sociabilidade e formas de identificação alemãs. Para ele, essa continuidade cultural podia adquirir significado territorial e geopolítico. Mais de um século depois, seu programa pertence ao passado; a questão da persistência de identidades diferenciadas no Sul brasileiro, entretanto, não desapareceu.

O caso de Kathleen Suzan Zwicker, miss Blumenau eleita em 2013, oferece um exemplo particularmente elucidativo. Nascida e criada em Blumenau, sem ter conhecido pessoalmente a Alemanha até 2014, ela crescera em um ambiente familiar e comunitário no qual língua e tradições alemãs continuavam sendo transmitidas. Naquele ano declarou à dpa: “Ich mag vielleicht einen brasilianischen Pass haben. Aber mein Herz schlägt deutsch” –
“Posso talvez ter um passaporte brasileiro. Mas meu coração bate alemão”.[1]
Sua trajetória nos Clubes de Caça e Tiro e o uso familiar do alemão mostram que o Deutschtum não sobrevivia apenas como decoração turística ou memória genealógica. Continuava capaz de produzir pertencimento em pessoas nascidas várias gerações depois da imigração.
Nada disso transforma Kathleen numa continuadora política de Tannenberg. Essa distinção é indispensável. O que seu caso demonstra é a sobrevivência precisamente de uma das condições sociais que autores como Tannenberg julgavam tão importantes: a possibilidade de uma identidade alemã continuar sendo reproduzida fora da Alemanha apesar da passagem das gerações. O programa político desapareceu; componentes da realidade cultural sobre a qual ele procurava construir seu programa permaneceram.
Jenifer Milbratz Stainzack, por sua vez, não apenas vive em Pomerode, um dos mais conhecidos núcleos históricos de colonização alemã do Brasil, como declarou publicamente que sua família possui ascendência alemã, além de polonesa e italiana. Em fevereiro de 2025, ao responder às críticas provocadas por seu vídeo “Como fazer um bebê alemão”, afirmou que sua família é “descendente de europeu, alemão, polonês e italiano” e defendeu expressamente a preservação e a valorização da cultura alemã.[2] Meses depois, ao lado do marido, voltou a articular origem, território e pertencimento ao afirmar que os catarinenses possuem orgulho de sua descendência europeia e ao estabelecer critérios culturais e comportamentais para aqueles que desejam mudar-se para Santa Catarina. Esses elementos permitem analisar o discurso do casal não apenas como expressão de um regionalismo abstrato, mas dentro de um meio social em que componentes historicamente formadores do Deutschtum – consciência de ascendência alemã, valorização da cultura germânica, transmissão intergeracional dessas referências e associação entre identidade coletiva e território – continuam presentes e são conscientemente mobilizados. Isso não significa equiparar o discurso contemporâneo ao Deutschtum político do início do século XX, mas reconhecer a permanência de elementos constitutivos dessa tradição identitária em novas formas sociais e regionais.
Outro documento contemporâneo mostra uma dimensão diferente do problema. Em vídeo atualmente circulante sobre Santa Catarina, um casal apresenta o estado como destino procurado por pessoas de todo o Brasil, mas estabelece ao mesmo tempo uma fronteira bastante explícita entre aqueles que seriam adequados ao lugar e aqueles que não seriam. O discurso afirma: “não é todo mundo que se adapta aqui” e acrescenta que “tem gente que sinceramente nunca deveria ter vindo”. Em seguida, os autores anunciam “quatro verdades sobre o nosso povo e o nosso estado”, descrevendo o catarinense como “mais sério”, “mais fechado”, “educado, ordeiro e trabalhador”. Aos recém-chegados atribui-se uma obrigação unilateral de adaptação; ao condenar “preguiça e serviço mal feito”, o vídeo conclui: “Se vier com jeitinho, o corpo mole volta enquanto é tempo. Aqui é terra de quem trabalha de verdade.”[3]
O trecho não contém uma proposta de segregação jurídica e não seria cientificamente correto atribuir-lhe algo que ele não diz. Mas contém inequivocamente uma lógica de demarcação social: existe “o nosso povo”, existe “o nosso estado”, existem características moralmente superiores atribuídas ao grupo local e existem brasileiros vindos de fora que, segundo os autores, “nunca deveriam ter vindo” ou deveriam “voltar enquanto é tempo” caso não adotem o padrão de comportamento considerado legítimo. O pertencimento territorial – nós e os outros – deixa, portanto, de depender apenas da cidadania comum brasileira e passa a ser condicionado por uma ideia particular de adaptação ao grupo regional.
Há aqui uma aproximação analítica com o problema histórico discutido por Tannenberg, e não uma equivalência ideológica. Tannenberg radicalizou a relação entre cultura, população e território até transformá-la numa visão expansionista: onde uma cultura alemã se mantivesse suficientemente forte e territorialmente concentrada, ele imaginava ser possível reorganizar também o espaço político. O vídeo contemporâneo não defende isso. Mas ele mostra que a construção simbólica de um território como pertencente prioritariamente a um determinado “povo” regional – ao qual os demais brasileiros deveriam adaptar-se para serem aceitos — continua sendo uma possibilidade discursiva no século XXI.
Essa observação torna-se ainda mais relevante quando colocada ao lado do caso Zwicker. Kathleen evidencia a persistência de uma identidade cultural transmitida por gerações; o vídeo catarinense evidencia a persistência possível de uma linguagem de diferenciação territorial entre um “nós” local e brasileiros vindos “de fora”. São fenômenos distintos e não devem ser artificialmente fundidos. Mas ambos ajudam a compreender por que Gross-Deutschlandcontinua historicamente provocador: o livro obriga o leitor a perguntar em que momento preservação cultural, identidade coletiva e consciência regional deixam de ser apenas expressões legítimas de diversidade e começam a produzir hierarquias de pertencimento, pretensões de exclusividade territorial ou fronteiras entre cidadãos formalmente iguais.
É justamente nesse ponto que Tannenberg permanece atual como objeto de reflexão, não como programa. Sua obra mostra a consequência extrema de transformar cultura em território, território em direito de precedência e diferença coletiva em projeto político. A distância histórica entre 1911 e o presente é enorme; a necessidade de distinguir entre preservação cultural e apropriação identitária do território continua, porém, inteiramente contemporânea.
Notas
[1] MEYER, Manuel / dpa. “Wo Brasiliens Fußballherzen für Deutschland schlagen”, 10 jun. 2014. Kathleen Suzan Zwicker declarou: “Ich mag vielleicht einen brasilianischen Pass haben. Aber mein Herz schlägt deutsch”. A reportagem registra igualmente que, naquele momento, ela nunca havia estado na Alemanha, descreve o uso do alemão no ambiente familiar e a preservação de tradições pelos pais. Cf. também SWR. Nachtcafé: Typisch Deutsch – gibt’s das noch?, emissão de 27 jun. 2014, participação de Kathleen Suzan Zwicker.
[2] PODER360. “Influenciadora de SC é criticada por ‘receita de bebê alemão’”. 5 fev. 2025. Ao responder às críticas ao vídeo “Como fazer um bebê alemão”, Jenifer Milbratz Stainzack declarou que sua família possui ascendência alemã, polonesa e italiana e defendeu publicamente a valorização de suas origens e a preservação da cultura alemã.
[3] CANAL DO PAULO MATHIAS. “Casal explica motivos de SC ter virado ‘sonho de consumo’ dos brasileiros e gera polêmica”. Vídeo em rede social, reprodução audiovisual. No trecho são reproduzidas, entre outras, as formulações: “não é todo mundo que se adapta aqui”; “tem gente que sinceramente nunca deveria ter vindo”; “essas quatro verdades sobre o nosso povo e o nosso estado”; “o catarinense é mais sério, mais fechado, educado, ordeiro e trabalhador”; “a gente odeia preguiça e serviço mal feito”; “Se vier com jeitinho, o corpo mole volta enquanto é tempo”; e “Aqui é terra de quem trabalha de verdade”.
